Lampedusa (Itália) – Em passagem de um dia pela ilha italiana de Lampedusa neste sábado (4), o papa Leão 14 cobrou dos governos europeus uma abordagem “abrangente” e “mais humana” à crise migratória no Mediterrâneo. O pontífice, primeiro norte-americano a chefiar a Igreja Católica, afirmou que as milhares de mortes no mar resultam tanto de “decisões tomadas quanto de decisões não tomadas”.
Desde o início do ano, mais de 7.000 pessoas desembarcaram em Lampedusa, segundo a Guarda Costeira italiana. Dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) indicam 14.464 chegadas por mar à Itália em 2026, mais da metade concentrada na ilha, cuja população local gira em torno de 6.000 habitantes.
Apelo por estratégia de longo prazo
Durante homilia celebrada perto do porto, Leão 14 pediu que a Europa integre ações de resgate imediato a “um plano estratégico de longo prazo capaz de receber, proteger, apoiar e integrar imigrantes”. O papa ainda sugeriu investimentos para melhorar condições nos países de origem, reduzindo o fluxo de pessoas obrigadas a deixar suas casas.
Agenda simbólica
A visita ocorreu enquanto os Estados Unidos comemoravam 250 anos de independência. Autoridades do Vaticano informaram que a data foi escolhida para reforçar a mensagem de solidariedade aos migrantes, tema que o pontífice elevou a prioridade desde que assumiu o cargo, em maio de 2025.
Logo após aterrissar, Leão 14 depositou flores em um cemitério local onde estão sepultados refugiados que morreram durante a travessia. Em seguida, caminhou pela instalação artística “Porta da Europa”, voltada para o Mediterrâneo, sob fortes ventos.
Repercussão entre migrantes e entidades
No porto, recém-chegados, integrantes da Guarda Costeira e voluntários de organizações humanitárias acompanharam a cerimônia. “A presença do papa mostra que nossas histórias são vistas”, disse Kandeh Abdourahman, que chegou a Lampedusa em 2015 e hoje atua como mediador cultural no Comitê Internacional de Resgate.
Imagem: Internet
Para Anna Leer, representante da Acnur, a visita transmite “mensagem clara” em meio a debates focados em barreiras e dissuasão. “Cada gesto que reconhece a humanidade de quem foge de violência carrega peso moral e político”, afirmou.
Números da travessia
A Organização Internacional para as Migrações contabiliza mais de 1.400 mortes ou desaparecimentos no Mediterrâneo em 2026, incluindo 28 crianças. A rota que liga a África do Norte à Sicília é considerada uma das mais letais do mundo.
Leão 14 mantém críticas a políticas migratórias rígidas; no ano passado, classificou medidas do ex-presidente dos EUA Donald Trump como “desumanas”. Na sexta-feira (3), em discurso nos Estados Unidos, ele exaltou a tradição norte-americana de acolhimento.
Com informações de Folha de S.Paulo