MPE encerra análise eleitoral, mas inquérito sobre motorista de Haddad permanece em curso na Polícia Civil

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A procuradoria eleitoral paulista decidiu arquivar a notícia-de-fato aberta a pedido da campanha de Fernando Haddad (PT) sobre uma série de abordagens de viaturas da Polícia Militar ao carro do motorista do candidato, registrada na noite de 11 de outubro. Para o Ministério Público Eleitoral (MPE), o episódio não configura ilícito que afete a disputa ao Palácio dos Bandeirantes e, portanto, foge da sua esfera de atuação.

A decisão, contudo, não encerra o caso. A Polícia Civil de São Paulo mantém inquérito aberto para apurar se houve perseguição deliberada, abuso de autoridade ou outro crime comum praticado por agentes da PM. O próprio parecer do procurador regional Paulo Taubemblatt, que determinou o arquivamento no âmbito eleitoral, classifica como “inverossímil” a tese de mera coincidência no patrulhamento apresentada pela corporação.

Por que o MPE deixou o caso

Ao analisar vídeos, relatórios de deslocamento das viaturas e depoimentos de policiais, Taubemblatt concluiu que não há indícios de participação do governador e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), nem elementos que configurem crime eleitoral, como uso da máquina pública para coagir adversários. Assim, segundo ele, a competência passa a ser exclusivamente da Justiça comum.

Mesmo afastando a esfera eleitoral, o procurador ressaltou que os fatos merecem apuração criminal aprofundada. Para Taubemblatt, a cronologia registrada pelas câmeras de monitoramento e pelos sistemas de GPS dos carros da PM desmonta a justificativa de patrulhamento rotineiro:

  • Em um intervalo de 44 minutos, o mesmo Ford Fusion – usado pelo motorista de Haddad – cruzou com três viaturas de Força Tática.
  • Duas dessas guarnições teriam feito contato visual e manobras atípicas no entorno do veículo.
  • A coincidência de tempo e localização foi considerada “pouco provável” pelo Ministério Público.

Linha do tempo da noite de 11 de outubro

Primeiro contato, às 21h45

Perto da residência de Haddad, na zona sul da capital, a viatura lança um feixe de luz sobre o carro do motorista no momento em que ele se preparava para converter a esquina. Em seguida, segue viagem sem abordagem formal.

Do desfile até o hotel

Depois de deixar o ex-ministro em casa, o condutor afirmou ter percebido a viatura a poucos metros de distância por aproximadamente cinco quilômetros, até estacionar na Rua Joinville, Vila Mariana, em frente a um hotel.

A permanência da PM

Segundo perícia contratada pela defesa, câmeras de segurança mostram que por volta das 22h24 uma viatura para no mesmo quarteirão e permanece ali por cerca de 20 minutos. Dois minutos após a chegada dos policiais, o motorista manobra o Fusion e deixa o local sem ser seguido, mas a viatura continua estacionada. Dez minutos mais tarde, um policial é visto a pé circulando pela calçada.

Terceiro registro visual

Somente às 22h38 outra viatura entra na rua, quando o veículo de Haddad já não estava mais no perímetro. O material reforça, para a defesa, a hipótese de que havia monitoramento específico.

Defesa apresenta laudo que contesta versão oficial

Representado pelo advogado Thiago Rocha, o motorista entregou à Polícia Civil um laudo pericial independente. O documento contradiz a primeira explicação do governo paulista, segundo a qual uma das viaturas teria parado “por instantes” e depois se retirado. A análise indica permanência de mais de 20 minutos do carro policial na rua do hotel, tempo suficiente, na avaliação da defesa, para caracterizar vigilância direcionada.

Fernando Haddad afirmou que o estudo técnico “confirma a narrativa do motorista” e criticou o que chamou de tentativa de minimizar o episódio: “Não foi um ou dois minutos; a viatura ficou mais de 20 minutos aguardando no mesmo ponto”, declarou o candidato.

Versão da Secretaria da Segurança Pública

A SSP informou ter concluído sua própria investigação preliminar interna, composta de 383 páginas que incluem imagens de câmeras, registros de localização, depoimentos e relatórios táticos. De acordo com a pasta, não foram identificados indícios de crime militar, crime comum ou transgressão disciplinar por parte dos policiais envolvidos. O procedimento foi arquivado no âmbito administrativo.

A corporação sustenta que as patrulhas estavam em atividade de rotina e nega perseguição. Ainda assim, reconhece que a Polícia Civil instaurou inquérito policial, cujo resultado permanece pendente.

Próximos passos da investigação criminal

No inquérito em curso, delegados da 1ª Delegacia Seccional da Capital analisam:

  1. Registros de GPS e telemetria das três viaturas.
  2. Laudos periciais das imagens externas e das câmeras corporais dos agentes.
  3. Depoimentos de policiais e do motorista.
  4. Eventuais ordens superiores que tenham motivado o deslocamento das guarnições.

Concluída essa fase, o relatório será submetido ao Ministério Público Estadual, que poderá oferecer denúncia por abuso de autoridade, arquivar o caso ou pedir diligências adicionais.

Repercussão política

A poucos dias do segundo turno estadual, o episódio ganhou contornos eleitorais. Adversários de Haddad minimizaram o suposto cerco, enquanto petistas apontam “clima de intimidação” em meio à campanha. A decisão do MPE de excluir conotação eleitoral reduz o impacto jurídico imediato sobre Tarcísio de Freitas, mas não dissipa a controvérsia nos palanques.

Para juristas ouvidos reservadamente, o arquivamento no âmbito eleitoral não impede que, se confirmada perseguição, surjam consequências na esfera cível ou criminal. Caberá à Polícia Civil reunir evidências capazes de sustentar eventual responsabilidade dos policiais ou de superiores hierárquicos.

O que está em jogo

O inquérito busca responder a duas perguntas centrais: houve direcionamento específico contra o motorista de Haddad e, caso positivo, qual a motivação? A resposta determinará se o caso será tratado como falha operacional, abuso de autoridade ou eventual crime mais grave. O desfecho, além de impactar a imagem da PM, pode causar constrangimentos a autoridades estaduais em plena disputa eleitoral.

Até a conclusão do inquérito, a situação permanece aberta. A defesa do motorista promete apresentar novos documentos caso considere necessário, e o Ministério Público Estadual já indicou que examinará o procedimento da Polícia Civil assim que concluído. Enquanto isso, as imagens da noite de 11 de outubro seguem sob escrutínio, alimentando debate sobre segurança pública e isenção das forças de Estado em períodos eleitorais.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.