Dois operários que trabalhavam na usina hidrelétrica Trishul 3A, na região central do Nepal, foram retirados com vida de um túnel na madrugada desta sexta-feira (4), nove dias depois do início das enchentes que arrasaram vilarejos e vales no país. A operação coordenada pelo Exército nepalês pôs fim a mais de 200 horas de confinamento no escuro, sob escombros e lama, e devolveu aos sobreviventes a chance de se reunirem às famílias na capital, Katmandu, onde receberam atendimento médico imediato.
O resgate reacendeu a esperança em meio a um cenário ainda dominado por destruição. Desde 26 de agosto, data em que o colapso de uma geleira provocou enxurradas repentinas, as autoridades contabilizam 1.259 mortos e mais de 5 mil desaparecidos. Somente no setor hidrelétrico estima-se que cerca de 900 trabalhadores sigam sem contato; quase 500 estariam presos em túneis semelhantes ao que manteve os dois operários soterrados durante mais de uma semana.
Resgate dramático no túnel Trishul 3A
Nove dias de escuridão e lama
O primeiro sobrevivente foi localizado por equipes de busca que avançavam por quase um quilômetro de galerias escavadas nos flancos da montanha. Coberto de barro e visivelmente exausto, ele emergiu nos ombros de um socorrista, sob aplausos de militares e voluntários. Minutos depois, o segundo trabalhador também foi retirado, repetindo-se a cena de alívio e correria dos paramédicos que prestaram os primeiros cuidados ainda na saída do túnel.
Ambos contaram que dependeram de pequenas bolsas de ar entre as rochas e da água que escorria pelas paredes para sobreviver. A ausência de luz, a umidade constante e a instabilidade do terreno representaram risco permanente de desmoronamento. Segundo os médicos, os dois apresentavam sinais de desidratação e hipotermia leve, mas nenhum ferimento grave.
Operação milimétrica conduzida pelo Exército
Os militares lançaram a operação de resgate poucas horas depois de confirmada a localização dos operários por meio de batidas na tubulação de ventilação do túnel. A cada avanço, engenheiros civis avaliavam a segurança da escavação para evitar novos deslizamentos. A ação envolveu perfuratrizes, pás mecânicas, sensores sísmicos e o revezamento de cerca de 150 pessoas ao longo de toda a semana.
Apesar do uso de drones equipados com câmera térmica, a dificuldade de penetração do sinal em galerias estreitas e inundadas obrigou as equipes a apostar em métodos tradicionais de escuta e perfuração manual. O planejamento foi ajustado hora a hora, em função das chuvas que persistem na região e aumentam o risco de colapsos adicionais.
Tragédia climática sem precedentes recentes
Balanço de mortos e desaparecidos
Os números divulgados pela Agência Nacional de Gestão de Desastres confirmam a dimensão da catástrofe: 1.259 pessoas perderam a vida em diversos pontos do Nepal desde o fim de agosto, enquanto mais de 5.000 seguem listadas como desaparecidas. No lado tibetano da fronteira, a China reportou 21 mortos e 541 desaparecidos, vítimas das mesmas enxurradas que cruzaram picos himalaianos até atingir vales densamente povoados.
Equipes de busca percorrem estradas destruídas e planícies transformadas em atoleiros. Muitas localidades só podem ser alcançadas a pé ou por helicóptero, o que atrasa o transporte de água potável, mantimentos e medicamentos. Autoridades admitem que o número de vítimas fatais ainda pode subir conforme novas áreas sejam acessadas.
Centenas de operários presos em usinas
A malha de usinas hidrelétricas em construção ou operação na região dos rios Trishuli, Seti e Arun foi especialmente afetada. Relatórios preliminares indicam que até 900 funcionários desapareceram em 12 empreendimentos diferentes. Desses, aproximadamente 500 estariam em túneis de captação e galerias de desvio inundadas ou bloqueadas por deslizamentos.
Sem energia elétrica estável, as bombas usadas para drenar essas estruturas funcionam de forma intermitente. Cada hora de parada eleva a tensão em torno da possibilidade de encontrar sobreviventes. O governo solicitou apoio técnico de países vizinhos para acelerar a instalação de geradores portáteis e equipamentos de detecção de movimento subterrâneo.
Impacto financeiro e desafios de reconstrução
Prejuízo estimado em US$ 2,56 bilhões
Danos a estradas, pontes, moradias, linhas de transmissão e diques elevam a conta do desastre a pelo menos US$ 2,56 bilhões, de acordo com projeção apresentada por Dharma Raj Upreti, chefe da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres. O valor corresponde a cerca de 387,5 bilhões de rúpias nepalesas e já coloca as enchentes entre os eventos naturais mais onerosos da história recente do país.
O cálculo inclui a perda de maquinário industrial, a destruição de plantações em vales férteis e os danos às próprias estruturas das usinas, responsáveis por boa parte do fornecimento de energia do Nepal. Especialistas alertam que a interrupção prolongada desses projetos pode atrasar metas de expansão elétrica e reduzir receitas de exportação para países vizinhos.
Primeiras medidas emergenciais
Para os quatro primeiros meses de resposta, o governo avalia gastar US$ 52,6 milhões (7,95 bilhões de rúpias). A verba inicial prioriza a restauração de rodovias estratégicas, a instalação de abrigos temporários para desalojados e o restabelecimento gradual dos sistemas de água potável e de distribuição de energia.
Paralelamente, engenheiros estudam rotas alternativas por trilhas de montanha para o envio de suprimentos às regiões que permanecem isoladas. A previsão é que a temporada de monções ainda traga chuvas fortes durante setembro, o que pode impor revisões diárias ao cronograma de reconstrução.
Indícios do colapso de uma geleira
Relatos de moradores e imagens de satélite indicam que uma grande porção de gelo se desprendeu de um maciço no final de agosto, acumulando água em velocidade acima da média e formando uma onda de lama que desceu vales inteiros. O fenômeno, conhecido como glacial lake outburst flood, encontra terreno propício no Himalaia, onde o recuo constante de geleiras cria lagoas instáveis.
Embora investigações oficiais ainda estejam em curso, autoridades ambientais consideram provável que esse cenário tenha sido o gatilho para as enchentes que varreram o Nepal e alcançaram o território tibetano. Se confirmado, o episódio reforçará alertas de cientistas sobre o impacto do aumento das temperaturas globais nas cadeias montanhosas da Ásia.
Perspectivas para os próximos dias
As buscas por sobreviventes em túneis de usinas hidrelétricas e em vilarejos soterrados prosseguem 24 horas por dia. O Exército ampliou o contingente de soldados, enquanto voluntários de organizações civis ajudam a montar cozinhas comunitárias e a distribuir cobertores. Os dois operários salvos no Trishul 3A tornaram-se símbolo de resistência, mas também lembram a urgência de acelerar o resgate das centenas de pessoas ainda presas.
Analistas apontam que o Nepal terá de equilibrar a necessidade imediata de reconstrução com políticas de prevenção a desastres, especialmente em áreas onde grandes obras de infraestrutura convivem com ecossistemas frágeis. Por ora, o foco permanece em salvar vidas — cada hora conquistada, como mostraram os nove dias dos operários no subsolo, pode definir o destino de famílias inteiras.