Uma porção de terra coberta por árvores, do tamanho de um campo de futebol, surgiu de repente no Lago Williston, na Colúmbia Britânica, desapareceu dias depois e tornou a ser avistada a dezenas de quilômetros dali. O vai-e-vem da “ilha fantasma” mobilizou moradores, viralizou nas redes e obrigou a estatal de energia B.C. Hydro a usar satélites para confirmar que não se tratava de montagem digital.
Com cerca de 70 × 140 metros, a massa vegetal parecia intacta quando foi filmada pela primeira vez, em meados de julho. A ausência de qualquer intervenção humana visível levantou a suspeita de um fenômeno natural raro: uma ilha flutuante solta das margens após a elevação incomum do nível d’água.
Do boato on-line à checagem por satélite
Vídeos virais e ceticismo inicial
O navegador que gravou as imagens repassou o material ao morador Rocky Avery, que publicou o conteúdo no Facebook. Em poucas horas, a gravação se espalhou acompanhada de comentários que iam da simples curiosidade a teorias improváveis. O crescimento de vídeos gerados por inteligência artificial, porém, levou a B.C. Hydro a duvidar da veracidade do registro. “Precisamos analisar tudo com cautela”, confessou o porta-voz Bob Gammer aos veículos locais.
Confirmação espacial
Uma foto de satélite obtida em 21 de julho eliminou as dúvidas: a ilha estava a cerca de 100 km a oeste da barragem W.A.C. Bennett, que transforma o lago em enorme reservatório hidrelétrico. O arquivo mostrou uma área de 9.800 m² densamente arborizada — suficientes para acomodar tranquilamente um campo de futebol oficial.
Desaparecimento repentino e reencontro
Quando outro satélite passou sobre a região em 5 de agosto, a ilha havia sumido. Sem sinal de destroços, técnicos sugeriram duas hipóteses: ou a estrutura afundara, ou fora empurrada a um recanto protegido da margem. A resposta surgiu no fim do mês. A própria B.C. Hydro localizou o platô vegetal encalhado na entrada norte do braço de Ospika, 30 km distante do ponto anterior, deslocamento considerado longo para uma massa sem propulsão.
Por que a ilha se move?
Corrente fraca, ventos fortes
Apesar de o reservatório drenar em direção à barragem, a corrente é lenta nessa porção do lago. Para os engenheiros da companhia elétrica, a principal força motriz foi o vento, capaz de empurrar grandes troncos e mesmo estruturas flutuantes de milhares de metros quadrados em águas abertas.
Influência do nível histórico da água
O inverno marcado por forte acúmulo de neve, seguido de um verão chuvoso, elevou o lago à máxima capacidade pela primeira vez em 14 anos. Para aliviar a pressão, a hidrelétrica abriu os vertedouros em junho e julho. Essa combinação de fatores teria destacado das margens uma camada antiga de troncos, raízes, solo e sementes que já sustentava vegetação adulta.
Como nasce uma ilha flutuante?
Depósitos que viram solo
Segundo o geólogo John Clague, da Universidade Simon Fraser, parte das margens do Williston sofre erosão crônica. Ao longo de décadas, pedaços de terra e galhos caem na água e se acumulam em enseadas calmas, onde apodrecem lentamente e formam um tapete denso. Quando o material se compacta, gera substrato suficiente para que plantas germinem e desenvolvam raízes superficiais.
Efeito das enchentes
Com a lâmina d’água excepcionalmente alta, esse “solo flutuante” pode se desprender, ganhar flutuabilidade extra graças ao ar retido entre raízes e ser empurrado para o centro do lago. “É um processo silencioso, que provavelmente começou muito antes de alguém notar”, resume Gammer.
Fenômeno raro, mas não único
Registros históricos e exemplos recentes
A ecóloga marinha Rebecca Helm, da Universidade de Georgetown, lembra que ilhas móveis eram mais frequentes antes de grandes obras humanas alterarem rios e lagos. “São fantasmas de um passado mais selvagem”, define. Hoje, o fenômeno ainda ocorre em lugares como:
- Forty Acre Bog, no estado norte-americano de Wisconsin, que precisa ser rebocado anualmente para não colidir com uma ponte;
- O gigantesco Lago Vitória, na África, onde massas vegetais itinerantes afetam rotas de navegação e turbinas hidrelétricas;
- Zonas pantanosas do sul dos EUA, onde camadas de turfa se soltam em épocas de cheia.
Monitoramento constante e alertas de segurança
Por ora, a B.C. Hydro descarta remover a ilha, mas mantém vigilância via satélite e conta com relatos de barqueiros para acompanhar novos deslocamentos. Caso o bloco vegetal avance para áreas próximas à barragem ou interfira em rotas de navegação, medidas poderão ser revistas.
Ao público, a recomendação é clara: aproximar-se de barco, fotografar ou usar drones não oferece risco, mas pisar na estrutura é proibido. A sustentação é incerta, e qualquer peso extra pode abrir rachaduras ou afundar trechos inteiros, transformando o mistério natural em armadilha submersa.