A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, por ampla maioria de 164 votos, uma resolução que incentiva a troca da tradicional projeção de Mercator por um modelo que represente com mais fidelidade o tamanho dos continentes. Batizada de “Corrija o mapa”, a proposta teve apoio decisivo da União Africana e apenas um voto contrário: o dos Estados Unidos.
Embora não seja vinculante, a medida pressiona governos, editoras, plataformas digitais e órgãos multilaterais a adotar a projeção “Terra Igual”, na qual África, América do Sul e Sudeste Asiático deixam de parecer encolhidos em relação à Europa, América do Norte e regiões polares. A mudança busca enfrentar efeitos cognitivos e geopolíticos das distorções herdadas do século XVI.
Por que a ONU entrou no debate cartográfico
Mapas não são meras ilustrações. Segundo o texto aprovado, a forma como o mundo é desenhado influencia a percepção sobre importância, poder e recursos de cada região. A projeção de Mercator, criada em 1569 para orientar navegações europeias, amplia superfícies quanto mais próximas estão dos polos e comprime áreas equatoriais. Assim, a Groenlândia aparece quase do tamanho da África, embora tenha 14 vezes menos território, e a Europa parece maior que a América do Sul, quando, na realidade, cabe dentro dela quase duas vezes.
A diplomacia togolesa, que liderou a campanha, argumentou que a desproporção reforça visões coloniais, naturaliza desequilíbrios e afeta até decisões de investimento. “Trata-se de restaurar a verdade científica e simbólica”, disse o chanceler Robert Dussey durante a sessão que antecedeu a votação.
Voto isolado dos EUA
Os Estados Unidos justificaram a posição contrária alegando “custos de transição” e a necessidade de diversas projeções para usos diferentes, mas não conseguiram apoio de aliados tradicionais. A União Europeia, o Canadá e a Austrália votaram a favor, sob o argumento de que a adoção é recomendada, não obrigatória, e convivem tranquilamente múltiplos sistemas em softwares de navegação, meteorologia e ensino.
Como funciona a projeção “Terra Igual”
Desenvolvida por geógrafos de quatro universidades em 2018, a Equal Earth — chamada oficialmente de “Terra Igual” no texto da ONU — mantém linhas de latitude paralelas, mas projeta a superfície de forma a equilibrar áreas sem sacrificar a identificação visual dos continentes. Seus criadores buscaram combinar rigor numérico com estética familiar, para facilitar a transição em salas de aula e meios de comunicação.
Principais diferenças em relação a Mercator
- Proporção real de territórios equatoriais: Brasil, Congo, Indonésia e Índia ocupam o espaço equivalente ao que medem em quilômetros quadrados.
- Redução da inflação polar: Canadá, Rússia e Groenlândia perdem boa parte da área aparente, aproximando-se do tamanho efetivo.
- Continuidade de formas: ainda que distorções angulares existam — inevitáveis em qualquer projeção plana — contornos costeiros permanecem reconhecíveis.
- Escala única: facilita a comparação direta entre nações sem necessidade de ajustes ou legendas complementares.
Impacts esperados da resolução
A resolução se conecta ao Pacto para o Futuro, adotado em 2024, que trata de reparar desigualdades históricas. O documento ressalta repercussões em quatro frentes:
- Educação – Livros didáticos, aplicativos e murais escolares poderão revisitar ilustrações, estimulando debates sobre colonialismo e geografia crítica.
- Cultura e identidade – Países do Sul Global passam a ocupar espaço gráfico compatível com sua extensão física, o que pode reforçar autoestima coletiva.
- Geopolítica – Organizações internacionais que produzem relatórios cartográficos, como Banco Mundial ou FAO, tendem a migrar gradualmente, influenciando percepção de recursos naturais e demografia.
- Tecnologia – Desenvolvedores de sistemas de informação geográfica (SIG) e plataformas de mapas online serão estimulados a oferecer Equal Earth como padrão ou opção destacada.
Adesão gradual e desafios
Nenhuma instituição é obrigada a substituir imediatamente seus mapas, mas a ONU recomenda que cada governo apresente, em até três anos, relatório sobre o uso de projeções mais fiéis em materiais oficiais. O prazo mira principalmente ministérios de educação, agências de estatística, serviços postais e entes de planejamento urbano.
A adoção, contudo, esbarra em aspectos práticos. Além da troca de estoques de mapas impressos, empresas de navegação marítima e aérea ainda dependem de Mercator para traçar rotas retilíneas que aproveitam vantagens matemáticas do modelo. A própria resolução reconhece que nenhuma projeção resolve todos os propósitos e incentiva o uso “contextualizado”.
Repercussão internacional
A União Africana celebrou a aprovação como “vitória simbólica da ciência e da justiça”. Países latino-americanos, como Brasil e Colômbia, declararam intenção de promover o tema em currículos escolares. Na Ásia, Indonésia e Índia também saudaram a medida, enquanto a Rússia emitiu nota neutra, afirmando que já utiliza múltiplas projeções em documentos internos.
Entre especialistas, o geógrafo brasileiro João Francisco Neto, da Universidade Federal Fluminense, avalia que o gesto da ONU “marca o ponto de virada cultural” comparável ao reconhecimento do sistema métrico no século XIX. Para ele, a possibilidade de compatibilidade com softwares de GPS remove as barreiras técnicas que outrora inviabilizaram iniciativas semelhantes.
O que muda para o cidadão comum
No curto prazo, a maior transformação deverá ocorrer em livros escolares, jornais e sites de notícias. Editores de atlas já negociam direitos de reprodução da Equal Earth, enquanto gigantes da tecnologia discutem ajustes de interface. Ainda que o usuário continue a girar e dar zoom em mapas digitais, a visualização inicial — o “planisfério” — deve refletir as novas proporções.
Para professores, a transição abre oportunidade de lecionar não apenas geografia, mas também história da ciência, política e colonialismo. Já para viajantes, rotas e cálculos de distância permanecerão inalterados, pois sistemas de coordenadas continuam baseados em latitude e longitude, independentes da projeção.
Passos seguintes
A ONU formará um grupo consultivo composto por cartógrafos, educadores e representantes regionais para acompanhar a implementação. O comitê deverá apresentar, em 2028, avaliação sobre a penetração do novo mapa e sugerir eventuais ajustes.
Enquanto isso, debates acadêmicos devem se aprofundar. Críticos temem que o foco em igualdade de área sacrifique precisão direcional, vital para certas aplicações técnicas. Defensores respondem que a Equal Earth equilibra compromissos melhor que as alternativas disponíveis e, sobretudo, corrige um desequilíbrio simbólico de cinco séculos.
Seja qual for o ritmo de adoção, a resolução coloca em xeque a onipresença da projeção que moldou livros de história, selos postais e até a iconografia das Nações Unidas. Ao convidar o mundo a olhar para si com nova escala, a ONU atiça uma discussão planetária sobre espaço, poder e representação.