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Justiça argentina autoriza devolução de quadro saqueado pelos nazistas e encontrado em Mar del Plata

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Um tribunal federal de Mar del Plata homologou, nesta sexta-feira (4), um acordo que põe fim a 80 anos de incerteza sobre o paradeiro de “Retrato de uma Dama”, pintura italiana do século XVIII roubada pelos nazistas em 1940. A decisão obriga a filha do ex-oficial nazista Friedrich Kadgien a entregar o quadro à holandesa Marei von Saher, única herdeira do marchand judeu Jacques Goudstikker, vítima dos saques promovidos pelo Terceiro Reich.

Para evitar um julgamento criminal por receptação qualificada, Patricia Kadgien e o marido, Juan Carlos Cortegoso, abriram mão de qualquer reivindicação sobre a obra, avaliada em € 250 mil (cerca de R$ 1,5 milhão). Eles permanecerão sob supervisão judicial pelos próximos dois anos e deverão destinar doações a um hospital público local.

Termos do acordo e medidas impostas

O pacto validado pela Justiça encerra um processo aberto em 2025, quando promotores demonstraram que o casal escondeu a obra mesmo após receber notificações formais de investigadores argentinos e estrangeiros. A partir de agora:

  • o quadro será transferido para custódia do Estado argentino e, em seguida, encaminhado a Marei von Saher;
  • os acusados deverão informar seu endereço sempre que se ausentarem por mais de 48 horas;
  • parte do valor equivalente a multas será revertida em equipamentos médicos para um hospital de Mar del Plata.

A defesa de Kadgien argumentou que a medida preserva o patrimônio cultural argentino, pois a proprietária concordou em expor a obra no país antes de levá-la para os Estados Unidos, onde vive.

Da invasão da Holanda ao litoral argentino

O confisco nazista

Jacques Goudstikker era um dos mais influentes comerciantes de arte da Europa quando a Alemanha invadiu os Países Baixos, em maio de 1940. Ao fugir de Amsterdã com a família, morreu em um naufrágio no canal da Mancha. Sua galeria, que reunia aproximadamente 1.400 peças — com nomes como Rembrandt e Vermeer —, caiu nas mãos de oficiais nazistas e foi vendida, sob coação, ao círculo de Hermann Göring.

Entre as cerca de 1.100 obras negociadas à força estava o retrato feminino de autor até então atribuído a Giuseppe Vittore Ghislandi. Documentos da época citam que a pintura foi enviada a Berlim, mas depois desapareceu dos registros oficiais.

O rastro na Argentina

Somente em agosto de 2025 o quadro voltou a ser visto publicamente. Jornalistas holandeses que investigavam a fuga de ex-nazistas para a América do Sul notaram a tela pendurada sobre um sofá de veludo verde em fotos de um anúncio imobiliário na internet. As imagens mostravam o interior da chácara de Patricia Kadgien, filha do ex-consultor financeiro de Göring.

Horas após a reportagem ser publicada, o anúncio foi retirado. A polícia fez buscas sucessivas na propriedade, sem sucesso inicial. O mistério terminou dez dias depois, quando o advogado da família entregou a obra às autoridades regionais.

Autenticação, autoria e valor de mercado

Peritos da Academia Nacional de Belas Artes da Argentina analisaram a tela, a moldura e documentos históricos. O laudo concluiu que o pintor não era Ghislandi, mas Giacomo Antonio Melchiorre Ceruti, especialista em retratos do norte da Itália. O estudo também confirmou a procedência a partir de etiquetas originais da galeria Goudstikker e registros de embarque de 1940.

A avaliação financeira fixou o preço de mercado em torno de € 250 mil. Embora o valor não se compare aos grandes mestres da coleção perdida, a devolução tem peso simbólico: trata-se da primeira obra de Goudstikker recuperada na América do Sul.

Friedrich Kadgien: do Reich à clandestinidade

Friedrich Kadgien atuou no Ministério da Economia do Terceiro Reich e depois se tornou homem de confiança de Göring para operações em moeda estrangeira, metais preciosos e venda de bens confiscados. Com o colapso da Alemanha nazista, fugiu primeiro para a Suíça e, em 1948, obteve visto para a Argentina, país que recebeu centenas de ex-oficiais alemães.

Vivendo com identidade própria, Kadgien instalou-se em Mar del Plata, onde morreu em 1978 sem jamais responder a acusações de crimes de guerra. Investigadores acreditam que parte dos espólios transportados na fuga permaneceu com a família, mas só recentemente surgiram provas concretas.

Outras peças sob investigação

Na mesma operação que localizou “Retrato de uma Dama”, a polícia apreendeu duas pinturas do século XIX e diversas gravuras. Peritos argentinos e europeus analisam se essas obras também constam das bases de dados internacionais de arte saqueada. Caso sejam comprovadas novas ilegalidades, o Ministério Público pretende solicitar a restituição às famílias proprietárias originais.

A longa batalha de Marei von Saher

Marei von Saher, ex-patinadora olímpica, vive em Greenwich, Connecticut, e passou as últimas três décadas rastreando o acervo do sogro. Desde meados dos anos 1990, ela já recuperou mais de 40 pinturas, entre elas trabalhos de Cranach e Orazio Gentileschi, em processos contra museus e colecionadores privados na Europa e nos Estados Unidos.

Sua estratégia costuma combinar ações judiciais e negociações extrajudiciais, baseadas em inventários contemporâneos da galeria destruída pelos nazistas. A restituição agora autorizada na Argentina representa, segundo seus representantes legais, “um precedente valioso para outros casos na América Latina”, região onde a presença de arte europeia sem procedência clara cresceu após a década de 1940.

Próximos passos

Concluída a exposição temporária em Mar del Plata, sob responsabilidade do Museu Municipal de Arte Juan Carlos Castagnino, a tela deverá seguir para os Estados Unidos. Autoridades holandesas acompanham o processo porque outras peças da coleção de Goudstikker podem surgir no mercado internacional.

Enquanto isso, o casal Kadgien-Cortegoso permanecerá obrigado a prestar contas à Justiça argentina até 2028. Qualquer violação das condições impostas poderá reativar a denúncia criminal original. O caso reforça a cooperação entre promotores sul-americanos e equipes especializadas em arte saqueada na Europa, numa tentativa de fechar o cerco a obras que ainda circulam fora do alcance de seus legítimos donos.

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Equipe RSO Notícias