
Teerã acusou neste sábado (5) os Estados Unidos de bombardear um petroleiro iraniano perto da ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, episódio que eleva o risco de confronto direto entre os dois países. O governo americano não respondeu à denúncia, e até o início da noite não havia sinais de retaliação militar.
A suspeita de ataque ocorre num momento em que frentes de conflito se reabrem em todo o Oriente Médio: bombardeios voltaram a castigar o Iêmen, o Líbano registrou novos choques entre Israel e Hezbollah, e até a Cisjordânia ocupada virou palco de críticas abertas de Washington contra a violência de colonos israelenses.
Petroleiro alvejado no Golfo Pérsico
Segundo o porta-voz do Ministério do Petróleo do Irã, a embarcação navegava a curta distância da ilha de Kharg quando teria sido atingida por um projétil disparado por forças norte-americanas. A ilha abriga o principal terminal de exportação de petróleo iraniano, motivo pelo qual o estreito canal marítimo se mantém sob vigilância reforçada de Teerã.
Autoridades iranianas divulgaram imagens de fumaça saindo da lateral do navio e informaram que a tripulação conseguiu controlar o fogo sem vítimas. O incidente, porém, reavivou receios de impactos no tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, rota que concentra cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta.
O que se sabe sobre a embarcação
- O navio transportava cerca de 700 mil barris de petróleo cru destinados ao mercado asiático.
- Equipamentos de rastreamento indicam que a última posição registrada ficava a oito quilômetros ao sul de Kharg.
- As comunicações de emergência, de acordo com Teerã, foram captadas por navios mercantes na região.
- O Pentágono manteve silêncio, e não houve confirmação independente sobre o tipo de armamento usado.
Mesmo sem resposta oficial de Washington, analistas lembram que a retomada de hostilidades pode comprometer a negociação de um eventual novo acordo nuclear, suspensa desde a escalada de sanções norte-americanas em 2025.
Conflitos paralelos ampliam pressão regional
Iêmen: avanço de combates na costa oeste
No mesmo dia da denúncia iraniana, rebeldes houthis — aliados de Teerã — relataram que forças leais ao governo iemenita mataram três civis em bombardeios nas províncias de Hodeida e Taiz. Segundo os houthis, pai e filha morreram dentro de casa no distrito de Jarahi; em Taiz, um homem perdeu a vida, e outro ficou ferido.
O Exército iemenita confirmou a realização de mais de 15 ataques aéreos contra posições insurgentes ao longo da estratégica faixa litorânea que dá acesso ao mar Vermelho. A área concentra terminais portuários vitais para o abastecimento de combustível do país e, por extensão, para a segurança marítima global.
Líbano: Israel reage a incursão de drone
Horas depois, o Ministério da Saúde libanês contabilizou três mortos e quase 20 feridos em bombardeios israelenses no sul do Líbano e no vale do Bekaa. O Exército de Israel afirmou ter atingido depósitos do Hezbollah como retaliação ao lançamento de um drone contra tropas estacionadas na fronteira. O artefato foi interceptado e não deixou militares feridos, segundo Tel Aviv.
Apesar de um acordo-quadro mediado pelos EUA em junho, que previa a retirada gradual das forças israelenses de território libanês e o desarme do Hezbollah, o grupo xiita rejeitou negociações diretas e continuou lançando foguetes. Desde os primeiros disparos, no fim de fevereiro, Israel mantém presença armada numa extensa faixa do sul do Líbano.
Cisjordânia: diplomata dos EUA fala em “ato de terror”
Enquanto isso, na Cisjordânia ocupada, o embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, surpreendeu ao classificar como “terroristas” colonos judeus envolvidos em ataques contra palestinos. Falando a residentes palestino-americanos na vila de Turmus Ayya, Huckabee condenou ações que vão de incêndio a carros e mesquitas até invasões de residências.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reagiu dizendo que se trata de “um pequeno grupo de manifestantes violentos”, enquanto sua chancelaria tachou as cenas de “vergonha”. Ainda assim, o governo, considerado o mais ultranacionalista da história do país, prossegue com a expansão de assentamentos que a maior parte da comunidade internacional considera ilegais.
Egito tenta reabrir canal diplomático
Preocupado com a rápida deterioração regional, o chanceler egípcio, Badr Abdelatty, manteve conversas telefônicas separadas com os ministros do Bahrein e de Omã. Abdelatty defendeu “redução imediata das tensões” e a retomada de negociações diretas entre Estados Unidos e Irã, alertando para o impacto que novos incidentes podem ter sobre a circulação de navios no Estreito de Ormuz.
Desde que o Irã intensificou a patrulha na hidrovia, seguradoras reforçaram prêmios de risco, e várias transportadoras optaram por rotas mais longas dobrando o cabo da Boa Esperança, encarecendo fretes globais. O apelo egípcio sublinha a preocupação de Cairo com o Canal de Suez, corredor que poderia ganhar movimento extra mas também se tornar alvo de represálias.
Por ora, não há previsão de reunião entre autoridades iranianas e norte-americanas. Tanto Teerã quanto Washington concentram-se em consultas internas — o Irã com a Guarda Revolucionária analisando possíveis respostas, e os EUA avaliando a veracidade do ataque ao petroleiro. A falta de diálogo direto mantém o Oriente Médio sob alerta máximo, com múltiplas crises que podem evoluir de focos locais para um confronto regional de maiores proporções.
