
A Alemanha chega ao domingo de 6 de setembro com a possibilidade de ver, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um Estado chefiado por um partido de extrema direita. Levantamento do instituto Insa coloca a Alternativa para a Alemanha (AfD) com 43% das intenções de voto na Saxônia-Anhalt, o dobro dos 22% atribuídos à União Democrata-Cristã (CDU), legenda que hoje controla o governo local. Caso confirme o resultado nas urnas, a sigla abrirá caminho para assumir a administração regional e testará a solidez das instituições alemãs.
O cenário causa expectativa entre simpatizantes da AfD e inquietação nos demais partidos, que já descartaram qualquer aliança com o grupo. Na imprensa, o clima de tensão foi simbolizado pela capa da revista Der Spiegel, que classificou o principal candidato do partido, Ulrich Siegmund, como “o homem mais perigoso da Alemanha”.
Escalada da AfD no leste alemão
Fundada em 2013 como um movimento eurocético, a AfD tomou contornos nacional-populistas a partir da crise de refugiados de 2015. Desde então, o discurso contra a imigração se tornou a marca da legenda, que ampliou a base especialmente nos Estados que integravam a antiga Alemanha Oriental. A Saxônia-Anhalt, com 2,1 milhões de habitantes e um dos menores PIBs per capita do país, converteu-se em terreno fértil para a retórica antiestablishment.
Após a reunificação de 1990, a região perdeu indústrias, habitantes e poder de compra. A sensação de abandono pelo governo federal e pelos partidos tradicionais alimentou o voto de protesto. Nas eleições estaduais de 2021, a AfD já havia ficado em segundo lugar; cinco anos depois, medidas de austeridade e a inflação decorrente da guerra na Ucrânia reforçaram o descontentamento.
Pesquisa que ampliou o alerta
Em agosto, o portal de notícias Nius encomendou ao Insa uma sondagem que consolidou a dianteira da AfD. Os 43% projetados colocam o partido próximo, mas ainda aquém, da maioria absoluta no parlamento regional de Magdeburgo. A CDU, do atual ministro-presidente Sven Schulze, aparece com menos da metade dessa marca. Social-democratas, verdes e liberais somam intenções insuficientes para barrar o avanço ultradireitista sem uma ampla coligação multipartidária.
Quem é Ulrich Siegmund
Aos 35 anos, Ulrich Siegmund é deputado estadual e rosto mais visível da AfD na Saxônia-Anhalt. Ex-vendedor de perfumes, ele conquistou notoriedade nas redes sociais com vídeos em que ataca políticas migratórias, exalta uma “identidade nacional alemã” e acusa a imprensa de parcialidade. Durante a campanha, adotou estilo informal: tira selfies, autografa camisetas e serve cerveja em eventos ao ar livre, numa estratégia que lhe rendeu popularidade entre eleitores descontentes.
Apontado pelos serviços de inteligência locais como responsável por discursos que violam o princípio da dignidade humana, Siegmund lidera um diretório regional classificado oficialmente, desde 2023, como organização extremista de direita. A designação autoriza monitoramento reforçado pela agência de proteção constitucional, mas não impede o partido de disputar eleições.
Propostas que acendem o sinal de alerta
- Aumento de deportações de solicitantes de asilo cujo pedido foi negado;
- Separação, em salas de aula distintas, de estudantes imigrantes e crianças com necessidades especiais;
- Revogação de concessões de emissoras públicas que operam no Estado;
- Corte de verbas para projetos considerados “não alemães” ou “antialemães”, sem definição objetiva do critério.
Para juristas e pedagógicos, tais ideias colidem com a Constituição alemã, que garante igualdade de tratamento e liberdade de imprensa. A plataforma elevou o tom do debate eletivo, levando pesquisadores a encararem a votação como um teste à cultura democrática construída após 1945.
Desigualdade e ressentimento alimentam o voto
Dados do Instituto Federal de Estatística mostram que a renda per capita na Saxônia-Anhalt equivale a cerca de 80% da média nacional. O desemprego também figura entre os mais altos do país. Esses números reforçam a percepção de que o “milagre econômico” pós-reunificação não beneficiou igualmente o leste, fomentando um sentimento de segunda-classe que a AfD explora.
Especialistas em política alemã lembram que a retórica do partido agrega pautas identitárias conservadoras a críticas a Bruxelas, ao euro e à transição energética. Com isso, consegue unir eleitores afetados pela perda de poder aquisitivo a grupos que veem ameaça cultural na chegada de estrangeiros.
O que acontece se o partido vencer?
Mesmo com o maior número de cadeiras, a AfD precisará ser eleita pelo Landtag, o parlamento estadual. Para isso, necessitaria de maioria absoluta dos 97 assentos ou de apoio externo, improvável diante do boicote público declarado por CDU, SPD, Verdes e FDP. Caso fique sem a chancelaria regional, o partido ainda assim controlaria as principais comissões legislativas, ampliando influência sobre educação, cultura e segurança pública.
Impacto nacional
Na esfera federal, políticos temem um “efeito vitrine”: uma vitória contundente na Saxônia-Anhalt pode fortalecer a AfD em outras disputas regionais e nas eleições gerais de 2027. Analistas apontam que a presença de um governo estadual ultradireitista pressionaria o chanceler Friedrich Merz, da CDU, a endurecer políticas migratórias para conter a sangria eleitoral.
Vigilância constitucional e limites legais
Por ora, a classificação extremista não inviabiliza a atuação do partido. Para ser proibido, o caso teria de chegar ao Tribunal Constitucional Federal, corte que até hoje baniu apenas organizações nazistas remanescentes do pós-guerra e o Partido Comunista da Alemanha nos anos 1950. A decisão exigiria prova de ameaça concreta à ordem democrática, patamar que as autoridades ainda não julgam atingido.
Se a AfD assumir o executivo estadual, caberá ao Ministério do Interior monitorar possíveis violações da Lei Fundamental. Uma hipótese discutida em Berlim é a de intervenção federal, mecanismo previsto em situações extraordinárias de desrespeito à Constituição. Até agora, nenhuma autoridade cogita essa medida publicamente, mas o tema foi colocado na mesa por constitucionalistas.
Urnas como termômetro da democracia alemã
Independentemente do desfecho, o pleito na Saxônia-Anhalt se converteu em barômetro da polarização que ganha corpo na Alemanha. Para a elite política de Berlim, a disputa é um lembrete de que a insatisfação social prolongada pode chacoalhar alicerces erguidos há oito décadas. Para a extrema direita, é a chance de transformar influência parlamentar em poder executivo.
Os eleitores começam a votar às 8h (3h no horário de Brasília) deste domingo. As primeiras projeções de boca-de-urna devem sair assim que as urnas forem fechadas, por volta das 18h locais. Não apenas a Saxônia-Anhalt, mas toda a Europa, acompanhará o resultado em busca de sinais sobre o futuro da democracia alemã.
