
Resumo da Notícia
- Conselheiro de segurança nacional britânico Jonathan Powell visitou Israel em sigilo na semana passada para tentar impedir o fechamento do consulado em Jerusalém Oriental
- A negociação fracassou e o prazo de 30 dias dado por Israel expira nesta quinta-feira (8)
- A medida é uma retaliação israelense às sanções britânicas contra assentamentos; o fechamento seria um marco na crise diplomática
A crise diplomática entre Reino Unido e Israel entrou na reta final. O conselheiro de segurança nacional britânico, Jonathan Powell, fez uma visita discreta a Israel na semana passada para tentar impedir o fechamento do consulado do Reino Unido em Jerusalém Oriental — medida ordenada por Tel Aviv em retaliação às sanções britânicas contra assentamentos israelenses. A missão, porém, não chegou a um acordo, e o prazo de 30 dias dado por Israel expira nesta quinta-feira (8).
A informação foi revelada pela Reuters com base em três fontes com conhecimento do assunto, que falaram sob condição de anonimato. Segundo elas, Powell — cuja viagem não foi divulgada pelo governo britânico — se reuniu com autoridades israelenses, mas não conseguiu fechar um entendimento para manter a representação diplomática aberta.
Questionado sobre a visita e as negociações com Londres, um porta-voz do ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, disse à Reuters que o consulado deve ser fechado na quinta-feira, conforme anunciado. Um porta-voz do governo britânico não comentou o assunto de imediato.
O que está em jogo
O consulado britânico em Jerusalém Oriental tem presença na cidade desde 1839 e representa o Reino Unido em questões palestinas em Jerusalém, na Cisjordânia e em Gaza. Se o fechamento se concretizar, os diplomatas britânicos lotados no local perderão o status diplomático no mesmo prazo.
Duas das fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que as negociações ainda estão em andamento e que, embora exista a possibilidade de um acordo para manter o consulado aberto, é improvável que ele seja fechado até o prazo final de quinta-feira.
A ordem de fechamento foi comunicada em 8 de setembro, um dia depois de o Reino Unido anunciar que proibiria a importação de produtos fabricados em assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. A França e o Canadá aderiram às sanções — mas Israel não tomou medidas contra esses dois países.
O pacote de retaliações de Israel
O fechamento do consulado é apenas uma peça de um pacote mais amplo de retaliações anunciado pelo governo israelense. Além dos diplomatas de Jerusalém Oriental, funcionários britânicos designados para uma missão de coordenação em Gaza liderada pelos Estados Unidos, em Kiryat Gat, e diplomatas britânicos baseados em Ramallah receberam prazo de sete dias para deixar o país.
Israel também determinou que o Reino Unido não poderá mais treinar forças de segurança palestinas na Cisjordânia e proibiu a entrada no país de 12 parlamentares britânicos e outros cidadãos — entre eles o ex-líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn, crítico ferrenho de Israel.
O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não respondeu aos pedidos de comentário sobre o fechamento do consulado.
Por que o Reino Unido sancionou os assentamentos
As sanções britânicas foram apresentadas pelo chanceler Ed Miliband como resposta à expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. O pacote inclui o embargo comercial a produtos das colônias, sanções contra empresas e indivíduos que facilitem o crescimento dos assentamentos e a ampliação das restrições sobre exportações de armas — passando a barrar todas as licenças que possam contribuir para a ocupação.
Miliband classificou oficialmente a ocupação da Cisjordânia como ilegal e disse que Israel havia “fechado os olhos” para a violência de colonos contra palestinos. Em entrevista à BBC, o chanceler afirmou que o governo ponderou os custos e benefícios da medida e concluiu que não poderia ficar de braços cruzados por temer uma reação israelense.
Os assentamentos na Cisjordânia ocupada são considerados ilegais por grande parte da comunidade internacional segundo o direito internacional — posição que Israel contesta. O episódio evidenciou a crescente frustração de aliados históricos de Israel com a política de assentamentos, em um momento de alta sensibilidade no Oriente Médio.
Reações e divisões
A decisão britânica dividiu opiniões dentro e fora do Reino Unido. O rabino-chefe do país, Ephraim Mirvis, criticou duramente as sanções, classificando a medida como “um dia sombrio para os judeus britânicos” e acusando o governo de legitimar a retórica anti-Israel em vez de contribuir para a paz.
O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, disse à BBC não saber se o Reino Unido está “realmente ciente das implicações” da medida, observando que muitos medicamentos usados no sistema de saúde britânico são fabricados em Israel.
Do lado do governo britânico, a avaliação é de que as sanções são necessárias para preservar a possibilidade de uma solução de dois Estados — com israelenses e palestinos vivendo lado a lado em paz e segurança. Miliband alertou que esperar mais poderia tornar inviável qualquer acordo futuro, citando episódios de intimidação e deslocamento forçado de palestinos atribuídos a colonos.
Um Oriente Médio em ebulição
A crise diplomática entre Londres e Tel Aviv se soma a uma sequência de tensões que vêm sacudindo o Oriente Médio. A região vive uma escalada que envolve desde o impasse em torno do Estreito de Ormuz, que o Irã condiciona à cumprimento de exigências pelos Estados Unidos, até confrontos e mobilizações militares em diferentes frentes.
Para analistas, o fechamento de um consulado com quase dois séculos de história seria um marco simbólico grave nas relações entre dois aliados tradicionais — e um sinal de como a questão dos assentamentos segue sendo um dos pontos mais sensíveis da diplomacia internacional.
O que acontece agora
Com o prazo se esgotando na quinta-feira, restam poucos dias para que Londres e Tel Aviv cheguem a um entendimento de última hora. As fontes ouvidas pela Reuters indicam que as conversas continuam, mas o tom do governo israelense — que reafirma o fechamento para a data prevista — sugere pouca margem para recuo.
Se o consulado fechar, o Reino Unido perderá sua principal representação diplomática voltada às questões palestinas, e a crise poderá abrir um novo capítulo de desgaste entre os dois países — com desdobramentos ainda imprevisíveis para a já tensa relação entre Israel e seus aliados ocidentais.
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