-->

Açúcar atinge maior cotação em 19 meses com chuvas atrasando moagem no Brasil; café arábica sobe 4%

0

Resumo da Notícia

  • O açúcar bruto bateu 20,95 centavos de dólar por libra-peso na ICE, a maior cotação em 19 meses, puxado pelas chuvas que atrasam a colheita no Centro-Sul
  • Dados da Unica mostram que a produção de açúcar no Centro-Sul caiu 41,6% na primeira quinzena de setembro
  • O café arábica fechou em alta de 4,1%, a US$ 3,0445 por libra-peso, com estoques baixos e calor nas regiões produtoras

O açúcar bruto atingiu nesta terça-feira (6) a maior cotação em 19 meses na bolsa ICE, em Nova York: 20,95 centavos de dólar por libra-peso na máxima intradiária, com fechamento a 20,82 centavos. O motivo está no Brasil — as chuvas persistentes no Centro-Sul, principal região canavieira do país, vêm atrasando a colheita da cana e interrompendo as operações de moagem em algumas usinas.

O movimento não é de hoje. Na segunda-feira (5), o contrato mais líquido já havia rompido os 20 centavos, subindo 3,4% e atingindo 20,65 centavos — na ocasião, a maior cotação em 19 meses. Na terça, o recorde foi renovado. O açúcar branco, negociado em Londres, fechou a US$ 556,50 por tonelada, em alta de 1,6%.

As chuvas e a moagem

O Centro-Sul do Brasil responde pela maior parte da produção nacional de açúcar, e o atraso na moagem preocupa o mercado. Operadores esperam mais chuvas nas próximas duas semanas, o que pode reduzir a produção de açúcar da região na safra 2026/27 para menos de 38 milhões de toneladas — abaixo do consenso de 40 milhões de uma pesquisa Reuters feita no fim de julho.

Os dados da Unica, a associação das usinas, dão a dimensão do problema: na primeira quinzena de setembro, a produção de açúcar no Centro-Sul caiu 41,6%, para 2,12 milhões de toneladas, e a moagem de cana recuou 34,2%, para 30,16 milhões de toneladas. No acumulado da safra 2026/27 até 15 de setembro, foram 26,07 milhões de toneladas — queda de 14,4% em relação ao ciclo anterior.

“Dadas as chuvas recordes em setembro [no Brasil] e a perspectiva de mais chuvas ao longo de outubro, parece que o mercado está convencido de que a produção de açúcar ficará bem abaixo das estimativas”, disseram analistas da Green Pool à Reuters.

Um problema global

O cenário não se resume ao Brasil. O El Niño deve afetar negativamente as safras dos três principais produtores mundiais — Brasil, Índia e Tailândia — e a próxima safra de beterraba da União Europeia sofre com a seca do verão. A produção alemã de açúcar refinado em 2026/27 deve cair para cerca de 3,33 milhões de toneladas, ante 4,421 milhões na safra anterior, segundo a associação WVZ.

Além disso, as usinas do Centro-Sul vêm destinando mais cana ao etanol em vez de açúcar, o que já vinha reduzindo a oferta do adoçante. A StoneX reduziu sua projeção de superávit global de 2,9 milhões para 1,45 milhão de toneladas para a safra encerrada em setembro, citando os atrasos na colheita brasileira e o menor teor de açúcar na cana.

Há, porém, uma nuance importante: a Reuters observa que a demanda no mercado físico estava fraca na terça, com alguns operadores acreditando que a alta nos preços havia sido exagerada. O rali é puxado por preocupação com a oferta futura — não por demanda presente.

O câmbio também joga: o real atingiu na segunda a maior cotação em quatro meses e meio frente ao dólar, o que desestimula as exportações brasileiras ao reduzir a remuneração dos produtores em moeda local.

Café arábica dispara 4%

Na mesma sessão, o café arábica fechou em alta de 11,9 centavos (+4,1%), a US$ 3,0445 por libra-peso, após tocar a máxima de três semanas de US$ 3,0645. O café robusta subiu 1,8%, a US$ 3.590 por tonelada.

Os motivos, segundo corretores ouvidos pela Reuters: preocupação com temperaturas acima do normal nas regiões cafeeiras do Brasil para a época, apesar das chuvas generalizadas; estoques certificados na ICE seguem baixos; e a valorização do real pode levar os produtores a restringir as vendas.

As exportações brasileiras de café seguem fortes: em setembro, o país embarcou 3,93 milhões de sacas — o segundo maior volume já registrado para o mês.

19 meses depois

A última vez que o açúcar esteve nesse patamar foi há 19 meses — ainda no primeiro semestre de 2025. Desde então, o mercado viveu um ciclo de queda puxado por safras fartas e estoques confortáveis. A virada começou na semana passada, quando o contrato subiu 7,7% em cinco pregões, e ganhou força com a sequência de chuvas no Centro-Sul.

Para o Brasil, maior produtor e exportador mundial de açúcar, a alta chega num momento estratégico: a valorização do real, que normalmente reduziria a competitividade das exportações, está sendo mais do que compensada pelos preços internacionais. O resultado é uma janela de rentabilidade rara para as usinas — que agora precisam decidir entre acelerar a moagem nos intervalos de estiagem ou segurar a cana para o etanol, cujos preços também reagem ao petróleo acima de US$ 100 o barril.

O que isso significa

Açúcar e café em alta são boas notícias para os produtores brasileiros e para a balança comercial — o agronegócio é o motor do superávit brasileiro. Mas há o outro lado: commodities agrícolas mais caras pressionam os preços de alimentos no mundo todo, num momento em que os bancos centrais ainda lutam contra a inflação.

Para o consumidor brasileiro, o efeito é misto. O açúcar mais caro no mercado internacional pode pressionar os preços internos, mas o real valorizado ajuda a amortecer o repasse. No café, a história é parecida: estoques baixos e calor nas lavouras sustentam os preços — e a xícara do dia a dia sente.

Share.
Avatar

Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.