
A prefeitura de Manaus suspendeu todos os eventos ao ar livre previstos para este domingo (11) e segunda-feira (12) por causa da fumaça das queimadas. A concentração de material particulado fino (MP2,5) chegou a 196,4 µg/m³, nível classificado como “péssimo”. Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor, quase quatro vezes mais que no mesmo mês de 2025.
A prefeitura de Manaus suspendeu todos os eventos ao ar livre promovidos pelo município previstos para este domingo (11) e para a segunda-feira (12). O anúncio foi feito neste sábado (10), após o monitoramento da qualidade do ar registrar níveis alarmantes de poluição provocada pela fumaça das queimadas que atingem a região. A concentração de material particulado fino, o chamado MP2,5, chegou a 196,4 microgramas por metro cúbico (µg/m³) — índice classificado como “péssimo” para a saúde da população.
A informação foi divulgada pelo g1 na noite de sábado e detalhada pela Prensa Mercosur, que também reportou o envio de reforço do governo federal para o combate aos incêndios no estado. A suspensão vale para todas as programações municipais ao ar livre dos dois dias, incluindo o feriado de segunda-feira.
Manaus vive um dos piores episódios de poluição do ar dos últimos anos. A fumaça, originada de incêndios florestais em municípios do interior e da região metropolitana, tomou conta da capital amazonense e reduziu drasticamente a qualidade do ar, acendendo o alerta das autoridades de saúde e da Defesa Civil.
Ar “péssimo”: o que significa o índice de 196,4 µg/m³
Para entender a gravidade da situação, é preciso saber o que é o MP2,5. Trata-se do material particulado fino: partículas microscópicas com diâmetro de até 2,5 micrômetros — cerca de 30 vezes menores que um fio de cabelo humano. Por serem tão pequenas, essas partículas penetram fundo no sistema respiratório, alcançam os pulmões e podem até entrar na corrente sanguínea.
A principal fonte de MP2,5 em episódios como o de Manaus é a queima de biomassa: as queimadas liberam enormes quantidades dessas partículas na atmosfera, que são carregadas pelo vento e se espalham por centenas de quilômetros. É por isso que incêndios no interior do estado conseguem comprometer o ar da capital.
A classificação “péssima” é o nível mais grave da escala de qualidade do ar adotada pelo monitoramento local. Quando a concentração de MP2,5 atinge esse patamar, a recomendação é que toda a população — não apenas os grupos de risco — evite atividades ao ar livre. O índice de 196,4 µg/m³ está muito acima dos limites considerados aceitáveis para a exposição diária: para se ter uma ideia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a média diária de MP2,5 não ultrapasse 15 µg/m³.
Ou seja, o ar respirado em Manaus no sábado chegou a um nível mais de dez vezes superior ao recomendado pela OMS para um dia. Nessas condições, até pessoas saudáveis podem apresentar sintomas como irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse e falta de ar.
Riscos para a saúde e quem deve redobrar o cuidado
A exposição prolongada à fumaça das queimadas traz riscos sérios à saúde. Os efeitos mais imediatos atingem o sistema respiratório: crises de asma, bronquite, rinite alérgica e irritações nas vias aéreas são as ocorrências mais comuns em dias de poluição extrema. Mas os danos podem ir além — estudos associam a exposição ao MP2,5 ao agravamento de doenças cardiovasculares e ao aumento de internações hospitalares.
Alguns grupos precisam de cuidado redobrado. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas são os mais vulneráveis aos efeitos da fumaça. Para essas pessoas, a orientação das autoridades de saúde é clara: permanecer em ambientes fechados o máximo possível e evitar qualquer esforço físico ao ar livre enquanto durar o episódio.
Os sintomas de alerta incluem falta de ar persistente, chiado no peito, dor ao respirar e tontura. Nesses casos, a recomendação é procurar atendimento médico. Quem usa medicação de controle para asma ou outras doenças respiratórias deve manter o tratamento em dia e ter a medicação de resgate sempre por perto.
Dentro de casa, algumas medidas ajudam: manter portas e janelas fechadas nos horários de maior concentração de fumaça, evitar o uso de vassouras e aspiradores que levantem poeira, e dar preferência a panos úmidos na limpeza. O uso de máscaras do tipo PFF2 (equivalentes à N95) é recomendado para quem precisa sair às ruas — as máscaras de pano comuns oferecem proteção limitada contra partículas tão finas.
Queimadas quase quadruplicaram no Amazonas
O episódio de fumaça em Manaus não é um fato isolado: ele reflete uma temporada de queimadas excepcionalmente intensa no Amazonas. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado registrou 3.726 focos de calor em setembro — quase quatro vezes o total verificado no mesmo mês de 2025.
O salto é expressivo e coloca 2026 entre os piores anos recentes para as queimadas no estado. O período de agosto a outubro concentra historicamente o auge da temporada de fogo na Amazônia, quando a combinação de estiagem, vegetação seca e ação humana cria as condições ideais para a propagação dos incêndios.
As queimadas na região têm origens diversas. Parte delas está ligada ao desmatamento — o fogo é usado para “limpar” áreas recém-desmatadas para pastagem ou agricultura. Outra parte decorre de incêndios que fogem ao controle em áreas de vegetação seca. Em anos de estiagem mais severa, até mesmo faíscas acidentais podem dar origem a grandes incêndios florestais.
O impacto vai muito além da fumaça visível. As queimadas liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa, contribuem para as mudanças climáticas e destroem habitats de uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. Para as populações locais, os prejuízos são imediatos: problemas de saúde, interrupção de atividades econômicas, fechamento de escolas e, em casos extremos, a necessidade de evacuação de comunidades.
O que fazer nos dias de fumaça
Com a suspensão dos eventos ao ar livre no domingo e na segunda-feira, a prefeitura sinaliza que a situação exige cautela redobrada — inclusive no feriado, quando muitas famílias costumam programar passeios e atividades externas. A orientação é remarcar ou adaptar os planos para ambientes fechados.
Para quem vai ficar em casa, o monitoramento da qualidade do ar pode ser acompanhado pelos boletins divulgados pela Defesa Civil e pelos órgãos ambientais do município e do estado. Aplicativos e plataformas de monitoramento em tempo real também ajudam a decidir os melhores horários para atividades indispensáveis fora de casa — geralmente, a concentração de fumaça varia ao longo do dia conforme vento e temperatura.
A hidratação é outra aliada importante: beber bastante água ajuda o organismo a lidar com a irritação das vias aéreas. Evitar o consumo de bebidas alcoólicas em excesso e não fumar são recomendações adicionais, já que ambos sobrecarregam ainda mais o sistema respiratório.
Para os praticantes de atividade física, a regra é simples: em dias de ar “péssimo”, o treino ao ar livre deve ser cancelado ou transferido para ambientes fechados com boa ventilação filtrada. O esforço físico aumenta o volume de ar inalado — e, com ele, a quantidade de partículas tóxicas que chegam aos pulmões.
A prefeitura informou que segue monitorando a qualidade do ar e que a retomada das programações será avaliada conforme a evolução das condições. Enquanto a fumaça persistir, a prioridade é uma só: proteger a saúde da população. E a previsão para os próximos dias dependerá do comportamento dos incêndios no interior — o que reforça a urgência do combate às queimadas na origem, antes que a fumaça volte a tomar conta da capital.
