
O volume de serviços prestados no Brasil caiu 0,1% em agosto na comparação com julho, na série com ajuste sazonal, segundo dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgados nesta quarta-feira (14) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado frustrou as expectativas do mercado: economistas ouvidos em pesquisa da Reuters esperavam crescimento de 0,4% no mês, enquanto a mediana do levantamento Projeções Broadcast apontava alta de 0,5%, com estimativas variando de queda de 0,5% a avanço de 1,3%. Na comparação com agosto do ano passado, o volume cresceu 0,6%, também abaixo do previsto: a projeção da Reuters era de alta de 1,1% e a do Projeções Broadcast, de 1,5%. Por concentrar grande parte do emprego e do consumo do país, o desempenho dos serviços é um dos termômetros mais acompanhados por investidores, empresários e pelo Banco Central.
Terceiro mês sem fôlego
A queda de agosto confirma um trimestre de estagnação do setor. Em julho, o volume de serviços já havia frustrado as expectativas ao ficar estável frente a junho, que, por sua vez, registrara avanço de apenas 0,1%. A média móvel trimestral também ficou estável, em 0,0%, no trimestre encerrado em agosto. Mesmo com a perda de ritmo recente, o setor opera em patamar historicamente elevado: está 19,9% acima do nível de fevereiro de 2020, anterior à pandemia, e apenas 0,3% abaixo do auge da série histórica, alcançado em outubro de 2025. Na comparação anual, o crescimento de 0,6% representa o 29º resultado positivo consecutivo do indicador, embora em ritmo bem mais moderado do que o observado em meses anteriores.
Serviços às famílias avançam; transportes e outros serviços recuam
O desempenho foi dividido entre os cinco grandes segmentos pesquisados pelo IBGE. Três deles recuaram na passagem de julho para agosto: outros serviços, com queda de 1,0%, a maior do mês; transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, com recuo de 0,2%; e serviços profissionais, administrativos e complementares, também com retração de 0,2%. Na contramão, os serviços prestados às famílias avançaram 2,1%, no segundo resultado positivo seguido, acumulando ganho de 2,9% no período, puxados pelo ramo de alojamento e alimentação, que cresceu 2,6% no mês. Já o segmento de serviços de informação e comunicação ficou estável, sem variação frente a julho. Dentro dos transportes, o volume de passageiros subiu 0,1% em agosto, segunda taxa positiva consecutiva, enquanto o transporte de cargas recuou 0,9%, devolvendo o avanço registrado no mês anterior.
No ano, setor ainda acumula crescimento de 1,7%
Apesar do tropeço mensal, os números acumulados seguem positivos. De janeiro a agosto, o volume de serviços cresceu 1,7% frente ao mesmo período de 2025, e, nos últimos 12 meses, a alta é de 2,2%, ainda que em desaceleração frente aos 2,4% registrados até julho. A receita nominal do setor subiu 0,2% em agosto frente a julho, avançou 6,1% na comparação com o mesmo mês do ano anterior e acumula altas de 7,4% no ano e de 7,5% em 12 meses. O motor do crescimento no ano é o segmento de informação e comunicação, que avança 6,2% em 2026 e cresceu 4,3% na comparação anual de agosto, impulsionado pelo aumento da receita de telecomunicações, tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e hospedagem na internet, desenvolvimento de programas de computador sob encomenda, exibição cinematográfica, gravação de som e edição de música e consultoria em tecnologia da informação.
Também contribuíram positivamente, na comparação com agosto de 2025, os serviços profissionais, administrativos e complementares, com alta de 1,7%, favorecidos por locação de automóveis, serviços de engenharia, agenciamento de espaços de publicidade, vigilância e segurança privada e intermediação de negócios por aplicativos e plataformas de comércio eletrônico, e os serviços prestados às famílias, sustentados pela receita de restaurantes e de serviços de catering, bufê e comida preparada; o ramo de alimentação, sozinho, cresceu 6,3% em relação a agosto do ano passado. Do lado negativo, os transportes caíram 2,8% na comparação anual, pressionados pela menor receita do transporte aéreo de passageiros, que despencou 15,3% em 12 meses nessa base de comparação, do rodoviário de cargas, da logística de transporte de cargas, do ferroviário de cargas e da atividade de correio. Os outros serviços recuaram 2,5% no ano contra ano, afetados principalmente pelos serviços financeiros auxiliares. No recorte anual, apenas 44,6% dos 166 tipos de serviços investigados pela pesquisa avançaram em agosto.
Turismo cresce pelo segundo mês seguido
Um dos destaques positivos de agosto foi o índice de atividades turísticas, que expandiu 2,5% frente a julho, segundo resultado positivo consecutivo, com ganho acumulado de 5,5% no período. Na comparação com agosto de 2025, o volume de turismo cresceu 0,9%, interrompendo uma sequência de cinco taxas negativas, impulsionado pelo aumento da receita de restaurantes, locação de automóveis e serviços de bufê. Com isso, o segmento se encontra 12,4% acima do patamar de fevereiro de 2020 e a 1,1% do ápice de sua série histórica, registrado em dezembro de 2024. No acumulado do ano, porém, o turismo ainda recua 0,8%, pressionado pela menor receita das empresas de transporte aéreo de passageiros e de hotéis.
Desempenho dividido pelo país
Regionalmente, 12 das 27 unidades da federação registraram retração no volume de serviços em agosto frente a julho, acompanhando o resultado nacional. Os impactos negativos mais importantes vieram da Bahia, com queda de 4,8%, do Espírito Santo, com 4,5%, do Ceará, com 3,1%, de Mato Grosso, com 2,3%, e de São Paulo, com recuo de 0,1%. Na direção oposta, o Distrito Federal exerceu a principal contribuição positiva do mês, com alta de 3,7%, seguido por Paraná, com 1,0%, Minas Gerais, com 0,8%, e Rio de Janeiro, com 0,5%. Na comparação com agosto do ano passado, apenas 11 estados avançaram, com São Paulo entre as principais contribuições positivas e Mato Grosso, Ceará, Mato Grosso do Sul e Goiás liderando as perdas. No acumulado do ano, 15 unidades da federação mostram expansão, com destaque para o Distrito Federal, que cresce 9,1%, e São Paulo, com 3,1%.
Sinal de desaceleração às vésperas da decisão do Banco Central
Os dados do IBGE reforçam o quadro de desaquecimento da atividade econômica brasileira em um cenário de juros ainda elevados, embora em trajetória de queda. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB, recuou 0,5% em julho frente a junho, no terceiro resultado mensal negativo consecutivo. É nesse contexto que o Comitê de Política Monetária voltará a se reunir, nos dias 3 e 4 de novembro, para decidir sobre a taxa básica de juros. A expectativa de economistas e analistas de mercado é de um sexto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na Selic, atualmente em 13,75% ao ano. A divulgação da PMS ocorreu, ainda, a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, o que aumenta a atenção sobre cada indicador da economia real. Para os próximos meses, a leitura do mercado é que a combinação de juros em queda gradual e renda ainda sustentada pelo mercado de trabalho pode devolver algum fôlego aos serviços, mas os números de agosto mostram que essa retomada ainda não apareceu.
