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Rotatividade no varejo de SP bate 63,3%, a maior registrada desde 2022

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A troca de funcionários no comércio paulista acelerou como não se via desde 2022. A rotatividade da mão de obra no varejo do estado de São Paulo chegou a 63,3% nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o maior patamar desde 2022, quando a taxa ficou em 51%. Os números fazem parte do Panorama do Comércio de outubro, publicação mensal da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) divulgada na sexta-feira (16), e colocam um problema caro no centro da gestão das lojas: recompor equipes o tempo todo custa dinheiro, tempo e qualidade de atendimento.

O indicador mede a intensidade das movimentações de trabalhadores no mercado de trabalho formal. Em termos práticos, para cada 100 vínculos com carteira assinada considerados no cálculo, cerca de 63 passaram por alguma movimentação ao longo do período. É como se, em um ano, quase dois terços do quadro de funcionários de uma loja típica tivessem sido substituídos.

Vestuário lidera a troca de funcionários

Entre os segmentos analisados, as lojas de vestuário, tecidos e calçados registraram a maior rotatividade do varejo paulista: 79,1%. Isso significa que, a cada dez postos de trabalho nessas lojas, quase oito trocaram de ocupante em 12 meses. São negócios que dependem fortemente de vendedores em contato direto com o público, o que torna a substituição constante ainda mais sensível para a operação.

Na sequência aparecem os supermercados, com taxa de 72,1%. O setor é um dos maiores empregadores do comércio e trabalha com margens apertadas, jornadas extensas e grande volume de funções operacionais, combinação que historicamente empurra o turnover para cima. Em terceiro lugar vêm as lojas de eletrodomésticos, eletrônicos e departamentos, com 61,5% — também acima da marca de seis em cada dez vínculos movimentados.

Mesmo os segmentos com os menores índices do levantamento giram em torno de 60%, o que mostra que a alta rotatividade não é um problema isolado de um ramo específico, mas um comportamento espalhado por todo o varejo paulista.

Quanto custa trocar tanta gente

A conta da rotatividade aparece em várias frentes. A primeira é a da saída: cada desligamento gera despesas com rescisão contratual, aviso-prévio, FGTS e multas. A segunda é a da reposição: divulgar a vaga, fazer a triagem de currículos, realizar exames admissionais e registrar o novo funcionário consome tempo de gestores e equipes de recursos humanos.

Depois vem a etapa menos visível e, muitas vezes, a mais cara. Um funcionário recém-contratado precisa de treinamento inicial e leva um período até atingir o nível pleno de produtividade de quem já conhecia a loja, os produtos e os clientes. Enquanto esse aprendizado não se completa, a operação rende menos — e quem sente a diferença na ponta é o consumidor, atendido por equipes em constante formação.

Para analistas da FecomercioSP, é exatamente esse conjunto que transforma a rotatividade em um desafio direto à rentabilidade das empresas. Quanto maior a frequência das substituições, maior o gasto necessário apenas para manter a loja funcionando no mesmo nível, sem que sobre fôlego para investir em expansão, tecnologia ou melhora do atendimento.

Por que o varejo troca tanto de funcionário

A alta rotatividade tem raízes conhecidas. O comércio é, historicamente, a principal porta de entrada para quem busca o primeiro emprego, o que concentra no setor muitos trabalhadores no início da trajetória profissional, com vínculos naturalmente mais curtos. Soma-se a isso uma rotina operacional intensa, com picos de demanda, escalas variáveis e trabalho frequente em fins de semana e feriados, o que dificulta a estabilidade das equipes.

O momento do mercado de trabalho também ajuda a explicar o índice. Com o emprego aquecido, o funcionário de loja encontra com mais facilidade outra colocação — muitas vezes no próprio comércio, em um concorrente da mesma rua ou do mesmo shopping. Nesse cenário, parte relevante da movimentação não representa criação de vagas novas, mas reposição: empresas contratando para preencher o lugar de quem saiu, em um ciclo contínuo de admissões e desligamentos.

O contraste com 2022 ajuda a dimensionar a mudança. Naquele ano, a taxa de 51% já era considerada elevada. Quatro anos depois, o índice subiu mais de 12 pontos percentuais, sinal de que a disputa por trabalhadores se intensificou e de que reter equipes virou uma tarefa mais difícil — e mais cara — para o lojista.

Retenção entra no planejamento de 2027

O tema não é tratado como um dado isolado dentro do Panorama do Comércio. A edição de outubro da publicação também discute os obstáculos para a construção do planejamento estratégico das empresas até 2027 e analisa os potenciais efeitos da chegada do Desenrola 3.0 sobre o ambiente de negócios. Nesse contexto, a gestão de pessoas passa a fazer parte das decisões centrais do setor: salários, benefícios, escalas e perspectivas de crescimento dentro da empresa entram na conta de quem quer reduzir a porta giratória.

Para o trabalhador, o índice alto tem dois lados. De um lado, indica um mercado com vagas abertas e mobilidade para quem procura melhores condições. De outro, vínculos curtos dificultam a construção de carreira, a evolução salarial e o acesso a benefícios que dependem de tempo de casa. Para o consumidor, o efeito aparece no balcão: lojas com equipes estáveis tendem a atender melhor, conhecer o cliente e vender com mais eficiência.

Com o fim do ano se aproximando — período em que o varejo contrata reforços para as vendas de Natal —, a tendência é que a movimentação de funcionários siga intensa nos próximos meses. O desafio das empresas será transformar parte dessas contratações temporárias e das reposições em vínculos mais duradouros, reduzindo o custo de recomeçar a equipe a cada ciclo.

Leia também: acompanhe no RS Notícias a cobertura de economia e mercado de trabalho, com os próximos levantamentos do comércio paulista, dados de emprego e os temas que afetam empresas e trabalhadores.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.