Pesquisas conduzidas desde a década de 1990 pelo professor Célio Antônio Alcântara, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), indicam que a manutenção da escravidão no Brasil, aliada à oferta de terras e ao apoio do governo imperial, foi determinante para que ex-combatentes sulistas da Guerra Civil dos Estados Unidos se instalassem no país entre 1864 e 1874.
Fluxo migratório
Dados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estimam que 3.691 norte-americanos desembarcaram no porto do Rio de Janeiro no período. Aproximadamente 800 fixaram residência em Santa Bárbara d’Oeste (SP), município que volta a celebrar, em 4 de julho, a tradicional festa dos descendentes após sete anos de interrupção. As novas regras do evento proíbem símbolos considerados de apologia ao racismo, incluindo a bandeira confederada.
Cartas pedindo “preço dos escravos”
Correspondências enviadas por sulistas a consulados brasileiros antes da viagem revelam questionamentos sobre o valor de pessoas escravizadas, a legalidade da instituição e a possibilidade de trazer ex-escravizados dos Estados Unidos. Para Alcântara, esses documentos comprovam que a escravidão foi “fator fundamental” na escolha do destino.
Registro de compra de pessoas
Levantamentos em cartórios de Campinas e Santa Bárbara d’Oeste identificaram a compra de 180 a 200 escravizados por imigrantes norte-americanos. Entre 1866 e 1887, eles responderam por cerca de um terço das transações de escravos registradas em Santa Bárbara, segundo a Unicamp.
Recepção e tensões
Ao chegar, os confederados foram recebidos com banquetes, música e até visitas do imperador Dom Pedro II. O apoio incluía incentivo de políticos como Tavares Bastos e estava alinhado a uma política eugenista que preferia imigrantes “brancos anglo-saxões”.
Apesar da acolhida oficial, surgiram conflitos:
Imagem: que perdedores de guerra civil nos EUA e
- Expectativa trabalhista: fazendeiros brasileiros desejavam mão de obra; os norte-americanos pretendiam ser proprietários.
- Religião: houve resistência de setores da Igreja Católica a vender terras a protestantes.
Versões conflitantes
A Federação dos Descendentes de Americanos (FDA) nega que a escravidão tenha motivado a migração, atribuindo o deslocamento à cultura do algodão e ao desejo de recomeçar. A entidade afirma repudiar qualquer forma de discriminação ou racismo e diz concentrar suas atividades na manutenção do Cemitério dos Americanos, erguido na época por motivos religiosos.
Alcântara, entretanto, sustenta que documentos contradizem relatos memorialistas que minimizam a escravidão, apontando “estrutura rígida” criada pelos imigrantes para preservar o status social perdido após a derrota nos Estados Unidos.
Com informações de G1