O canto característico dos grilos, presente na Terra há pelo menos 200 milhões de anos, deixou de existir em várias linhagens. Pesquisa coordenada por Lucas Denadai de Campos, da Universidade de São Paulo, e publicada na revista Journal of Systematics and Evolution, identificou como e quando esse silêncio apareceu na família Oecanthidae, grupo que reúne mais de 1.400 espécies de grilos arborícolas distribuídas pelo mundo.
Como o estudo foi conduzido
Os cientistas analisaram dados genéticos de mais de cem espécies para montar uma árvore filogenética do grupo. O diagrama funcionou como “linha do tempo” e permitiu datar mudanças evolutivas — entre elas, a perda da capacidade de cantar e de ouvir.
Resultados principais
• O ancestral dos Oecanthidae cantava e possuía ouvidos funcionais.
• A aptidão para cantar desapareceu pelo menos 11 vezes de forma independente, fenômeno classificado como evolução convergente.
• A audição também se perdeu em diversos ramos, sem ligação direta com a ausência do canto.
Por que o canto some
Segundo os autores, cantar é vantajoso para atrair parceiros, mas tem custo elevado: o som facilita a localização por predadores e parasitas, como moscas que depositam larvas nos machos. Em ambientes onde o risco é maior ou onde o som não se propaga bem — fendas de rochas, galerias na madeira ou vegetação baixa — o silêncio torna-se benéfico e acaba favorecido pela seleção natural.
Exceções curiosas
O trabalho identificou “cantores surdos” (grilos que perderam a audição, mas continuam produzindo som) e “ouvintes silenciosos” (espécies que mantêm os tímpanos, porém não cantam). Entre as hipóteses, os ouvidos remanescentes poderiam ajudar a detectar predadores, enquanto indivíduos mudos podem ter migrado para outra forma de comunicação, usando vibrações em galhos ou folhas — prática conhecida como biotremologia. Em laboratório, exemplares do gênero Tafalisca foram vistos tamborilando o corpo contra a superfície.
Imagem: Internet
Apoio financeiro
A pesquisa recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processos nº 2024/01332-1, 2017/11568-9 e 2018/23224-5. Também assinam o estudo Jorge Alves Audino e Silvio Shigueo Nihei (IB-USP) e Laure Desutter-Grandcolas (Museu Nacional de História Natural de Paris).
O trabalho reforça que a perda de sentidos pode abrir caminho para novas estratégias de comunicação, apontam os autores.
Com informações de G1