
Resumo da Notícia
- Levantamento do O GLOBO estima que o fim das bets pode retirar R$ 2,623 bilhões do esporte nacional até 2027: R$ 497 milhões no último trimestre de 2026 e R$ 2,1 bilhões em 2027, a partir dos repasses previstos na Lei nº 14.790/2023.
- O COB prevê perder entre R$ 125 milhões e R$ 130 milhões em 2027, cerca de 20% do orçamento anual de R$ 600 milhões, a dois anos dos Jogos de Los Angeles-2028; a entidade deve congelar repasses às confederações e adiar projetos.
- A proibição foi oficializada por medida provisória assinada por Lula em 25 de setembro; sem nova fonte de financiamento, dirigentes alertam que o ciclo olímpico pode começar com o caixa em queda livre — e o preço pode ser pago em medalhas.
A decisão do governo de encerrar a operação das casas de apostas no Brasil já tem um alvo inesperado: o esporte olímpico. Segundo levantamento do jornal O GLOBO, o fim das bets pode retirar cerca de R$ 2,623 bilhões do ecossistema esportivo nacional até 2027, atingindo em cheio a preparação do país para os Jogos Olímpicos de Los Angeles-2028.
O cálculo considera dois períodos: R$ 497 milhões que seriam destinados ao esporte no último trimestre de 2026 e outros R$ 2,1 bilhões projetados para 2027, a partir dos repasses previstos na Lei nº 14.790/2023, o marco regulatório das apostas esportivas aprovado no Congresso. A projeção, levantada pela jornalista Carol Knoploch, parte de dados de arrecadação e estimativas das principais entidades olímpicas e paralímpicas do país.
O impacto vai além dos números. A dois anos dos Jogos de Los Angeles, as entidades esportivas já falam em rever o planejamento do ciclo olímpico, congelar repasses às confederações e adiar projetos — uma situação que, segundo dirigentes, pode retroceder o esporte brasileiro a patamares anteriores à regulamentação das apostas.
O que prevê a medida do governo
A proibição foi oficializada por medida provisória assinada pelo presidente Lula em 25 de setembro, encerrando a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, conforme apurou o InfoMoney. A decisão alcança apostas esportivas e jogos online, em ambientes físicos e virtuais, além de autorizações concedidas por estados e pelo Distrito Federal.
A justificativa do governo é combater o endividamento das famílias brasileiras e proteger consumidores vulneráveis. Como a extinção das autorizações é tratada como questão de interesse público, as empresas não terão direito a indenização por lucros cessantes, investimentos realizados ou restituição das outorgas pagas — foram 85 licenças concedidas, ao custo de R$ 30 milhões cada, somando R$ 2,55 bilhões recolhidos.
Os efeitos foram imediatos: desde a publicação, novos aportes estão vedados, e as plataformas tiveram de suspender novas ações de publicidade. Os apostadores tiveram até 5 de outubro para solicitar a retirada dos saldos de forma voluntária, e os sites e aplicativos devem sair do ar a partir do dia 6.
Para as entidades esportivas, porém, a interrupção dos repasses previstos na Lei 14.790/2023 cria um vácuo orçamentário. A legislação destinava uma fatia da arrecadação com as apostas ao esporte — e é essa fonte que secou de uma hora para outra.
COB estima perda de 20% do orçamento
O Comitê Olímpico do Brasil é uma das entidades mais atingidas. A instituição estima perder entre R$ 125 milhões e R$ 130 milhões em receitas em 2027, o equivalente a cerca de 20% do orçamento anual, que gira em torno de R$ 600 milhões, segundo o Esporte News Mundo.
“Nosso maior impacto será no ano que vem porque não terá arrecadação. Ou seja, são R$ 125 milhões a menos a dois anos dos Jogos Olímpicos, e claro isso terá consequências. Voltaremos ao patamar de antes de 2025”, afirmou Marco La Porta, presidente do COB, em entrevista ao O GLOBO durante a COB Expo.
O COB recebeu cerca de R$ 200 milhões em repasses no período entre 2025 e setembro de 2026 e ainda esperava outros R$ 25 milhões até o fim deste ano. Para 2027, a previsão era de até R$ 130 milhões — recursos que agora desapareceram do horizonte.
Para preservar a preparação dos atletas rumo a Los Angeles, o COB pretende utilizar recursos do seu fundo de reserva e reduzir despesas internas. Ainda assim, a entidade deverá congelar os valores destinados às confederações esportivas e adiar projetos, como a expansão dos Jogos da Juventude, segundo o jornal.
Paralímpico e clubes também sofrem
O impacto não se limita ao COB. O levantamento do O GLOBO considera recursos destinados ao Ministério do Esporte, ao Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), ao Comitê Brasileiro de Clubes (CBC) e a outras entidades do setor, segundo o iGaming Brazil.
O Comitê Paralímpico Brasileiro, que vive um ciclo de ascensão — o Brasil terminou Paris-2024 como a sexta melhor campanha paralímpica da história — também depende dos repasses para manter programas de alto rendimento. A interrupção ameaça justamente o planejamento montado para repetir ou superar os resultados dos Jogos anteriores.
Vale notar que a estimativa de R$ 2,623 bilhões não inclui os patrocínios diretos firmados individualmente pelas confederações esportivas com casas de apostas. Com esses contratos também em suspenso, o impacto financeiro real pode ser ainda maior do que o projetado.
Um vácuo a dois anos de Los Angeles
O timing é o pior possível para o esporte brasileiro. Faltando dois anos para os Jogos Olímpicos de Los Angeles-2028, o ciclo de preparação exige previsibilidade de caixa: contratos de comissões técnicas, intercâmbios internacionais, participação em etapas de circuitos mundiais e aquisição de equipamentos de alto padrão dependem de orçamento garantido.
Dirigentes ouvidos pela imprensa esportiva alertam que a perda de uma fonte de receita que representava um quinto do orçamento do COB obriga a escolhas dolorosas: ou se corta investimento na base e em projetos de desenvolvimento, ou se compromete o fundo de reserva que deveria servir para emergências.
A experiência de ciclos anteriores mostra que interrupções de financiamento às vésperas de Jogos costumam aparecer no quadro de medalhas. O Brasil vinha de uma sequência de crescimento nos Jogos, com campanhas recordes — um legado que agora corre risco.
O outro lado: o combate ao endividamento
O governo, por sua vez, sustenta que a proibição é uma medida de proteção social. Dados do Banco Central mostraram nos últimos anos o crescimento explosivo das transferências para sites de apostas, com impactos diretos no orçamento das famílias mais pobres e no endividamento do consumo.
A medida provisória determina ainda que as empresas terão de comunicar aos bancos, entre 7 e 8 de outubro, os valores que permanecerem nas contas dos apostadores, para devolução entre 9 e 14 de outubro. Se houver impedimento para o pagamento, a Caixa Econômica Federal assume o repasse a partir de 14 de outubro.
A publicidade das bets segue o mesmo cronograma: anúncios e peças de patrocínio veiculados em meios físicos e digitais devem ser retirados até 5 de outubro, e nenhuma nova ação de divulgação pode ser feita desde a publicação da medida.
Entidades do setor de apostas já indicaram que vão à Justiça em busca de ressarcimento, classificando a proibição como ruptura do marco regulatório — o que pode gerar um contencioso bilionário para o governo federal nos próximos anos.
O que acontece agora
Enquanto a batalha judicial não começa, o esporte brasileiro precisa se reorganizar. O COB avalia alternativas para manter os investimentos nos atletas, e o governo federal foi chamado pelos clubes de futebol — que também perderam patrocínios — para negociar compensações e linhas de crédito para reestruturar dívidas.
A questão central, porém, permanece sem resposta: de onde virão os R$ 2,6 bilhões que o esporte olímpico esperava receber até 2027? Se o governo não apresentar uma fonte substituta de financiamento, o ciclo de Los Angeles-2028 pode ser o primeiro em uma década a começar com o caixa em queda livre — e o preço dessa conta pode ser pago em medalhas.
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