Resumo da Notícia

  • Tesla e SpaceX formaram comitês especiais de diretores independentes para avaliar uma possível fusão entre as duas empresas de Elon Musk, a pedido de acionistas.
  • A soma dos valores de mercado das duas companhias chega a cerca de US$ 3,5 trilhões, mas não há acordo, preço definido nem garantia de que a operação aconteça.
  • Musk, em conflito de interesses, não participa das discussões; no lado da Tesla, a aprovação exigiria o voto favorável de 50% de todas as ações da empresa.

A Tesla e a SpaceX deram o passo mais concreto até agora em direção a uma possível fusão entre as duas maiores empresas de Elon Musk. Durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre da SpaceX, na terça-feira (20), o empresário revelou que as duas companhias formaram comitês especiais, compostos por diretores independentes, para avaliar uma combinação dos negócios. Segundo a Reuters, os comitês foram criados a pedido de acionistas das empresas, que, em última instância, seriam os responsáveis por aprovar ou barrar qualquer operação desse porte.

É importante sublinhar o estágio inicial do processo: o que existe, por enquanto, é uma avaliação formal em curso, e não uma fusão anunciada. Não há preço definido, não há relação de troca de ações acertada e não há cronograma. Os comitês podem passar meses discutindo e, ao final, simplesmente não chegar a nenhum acordo — hipótese que o próprio Musk fez questão de não descartar.

Comitês independentes e Musk fora da conversa

A estrutura escolhida para conduzir as conversas reflete o tamanho do conflito de interesses envolvido. Musk é o executivo-chefe e um dos maiores acionistas das duas empresas ao mesmo tempo: detém cerca de 20% da Tesla e aproximadamente 45% da SpaceX, com cerca de 82% do poder de voto na companhia espacial. Justamente por estar dos dois lados da mesa, ele afirmou que não pode participar das discussões dos comitês, formados por diretores independentes de cada conselho.

De acordo com a Reuters, Musk descreveu a situação com bom humor, chamando o processo de uma “estranha dança kabuki”, em que dois grupos conversam enquanto ele permanece do lado de fora da sala. Questionado sobre o mérito da ideia, porém, não hesitou: disse que considera a combinação “uma boa ideia”. Ao mesmo tempo, moderou o entusiasmo de quem já trata o negócio como certo. Para o empresário, presumir que a fusão entre SpaceX e Tesla é uma certeza seria um exagero, porque os comitês especiais ainda não concordaram com os termos de nenhuma transação — e podem nunca concordar.

De onde sai o número de US$ 3,5 trilhões

A cifra que ganhou as manchetes resulta de uma conta simples. Pelos valores de mercado atuais, a SpaceX vale cerca de US$ 2 trilhões, enquanto a Tesla está avaliada em aproximadamente US$ 1,5 trilhão. Somadas, as duas chegariam a algo em torno de US$ 3,5 trilhões, o que colocaria a eventual empresa combinada entre as mais valiosas do planeta.

Analistas ouvidos pela imprensa especializada, porém, fazem uma ressalva essencial: esse total é apenas a soma aritmética das avaliações de mercado das duas companhias. Ele não representa um valor oficial da transação, uma avaliação formal feita por bancos nem a relação de troca que os acionistas de cada lado receberiam se o negócio avançar. Todos esses pontos — estrutura da operação, financiamento, governança da nova empresa e eventual diluição dos atuais acionistas — continuam em aberto e dependerão do trabalho dos comitês. Se a combinação se concretizar, estimativas citadas pela Reuters indicam que Musk ficaria com cerca de um terço da empresa resultante.

O obstáculo: metade de todas as ações da Tesla

Mesmo que os dois comitês cheguem a um desenho de operação, o caminho até a assinatura é longo. Do lado da Tesla, segundo o próprio Musk, seria necessário o apoio de acionistas que representem 50% de todas as ações da empresa — e não apenas a maioria dos votos dos acionistas que comparecerem à votação. É uma régua bem mais alta do que a usual, porque ações que não votarem contam, na prática, contra a aprovação. O empresário classificou esse requisito como um obstáculo bastante elevado a ser superado.

Além do voto dos acionistas, uma operação dessa magnitude passaria por análises regulatórias e pela definição de uma série de detalhes sensíveis: como seriam tratados os contratos governamentais da SpaceX dentro de uma estrutura que também abrigaria uma montadora de veículos, como ficaria a participação de Musk e qual empresa, juridicamente, incorporaria a outra. Nada disso está definido neste momento, e nenhuma proposta formal foi apresentada até agora.

Por que juntar carros elétricos, foguetes e inteligência artificial

A lógica defendida por Musk é a da integração tecnológica. Na teleconferência, ele afirmou que há muito a ganhar com a cooperação entre as duas empresas no desenvolvimento de software de superinteligência, no design de chips, na robótica, na conectividade e na colocação de infraestrutura em órbita com a constelação Starmind. Um exemplo concreto dessa convergência é a Terafab, a fábrica de chips que Tesla e SpaceX desenvolvem em conjunto: segundo Musk, o primeiro chip de teste deve sair entre maio e junho do próximo ano, com produção em volume prevista para o terceiro trimestre de 2028. O RS Notícias já mostrou como a divisão de inteligência artificial da SpaceX vem se reorganizando em torno dessa aposta em superinteligência e em chips próprios, movimento que ajuda a explicar por que as fronteiras entre as empresas do grupo estão cada vez mais tênues.

Uma eventual fusão também colocaria a Tesla sob o mesmo teto corporativo da operação de inteligência artificial da SpaceX — responsável pelo Grok — e da plataforma X, incorporada pela empresa espacial em fevereiro. Na prática, nasceria um conglomerado que reuniria veículos elétricos e autônomos, foguetes e internet via satélite, redes sociais e alguns dos maiores supercomputadores do mundo.

O pano de fundo: a IA virou o maior negócio da SpaceX

As conversas sobre a fusão foram reveladas no mesmo dia em que a SpaceX apresentou resultados que ajudam a entender a mudança de eixo do império de Musk. De acordo com os números divulgados pela companhia, a receita do terceiro trimestre saltou 161% na comparação anual, para US$ 14,58 bilhões, com lucro líquido de aproximadamente US$ 4,4 bilhões. O destaque foi o negócio de superinteligência, cuja receita cresceu cerca de 830% em um ano, alcançando US$ 7,56 bilhões e se tornando, pela primeira vez, a maior fonte de receita da empresa — à frente da unidade de conectividade, que faturou em torno de US$ 5,25 bilhões no período.

O ritmo de investimento acompanha essa guinada: os gastos de capital da SpaceX no trimestre somaram cerca de US$ 19,6 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 16,4 bilhões foram direcionados à infraestrutura de inteligência artificial, como capacidade de computação e data centers. É esse cenário — em que a IA deixou de ser um projeto lateral e passou a ser o centro de gravidade das duas empresas — que dá plausibilidade econômica à discussão sobre a fusão.

Reação do mercado e os próximos passos

O mercado reagiu de imediato ao anúncio dos comitês. Segundo a TradingKey, as ações da SpaceX subiram mais de 8% no pregão estendido após a divulgação dos resultados e das declarações de Musk, enquanto os papéis da Tesla avançaram 1,76%. O movimento ocorre em um ambiente de forte apetite por tudo o que envolve inteligência artificial — o mesmo que levou a Nasdaq a bater recorde de fechamento puxada por Nvidia e Microsoft —, mas também de volatilidade, como mostrou a recente queda das ações de chips depois que o CEO da Broadcom comparou a corrida da IA a um cassino.

Um detalhe curioso da possível combinação é o caixa em criptomoedas: de acordo com a CoinDesk, com base nos relatórios trimestrais das duas empresas, a SpaceX detinha 18.712 bitcoins e a Tesla, 11.509 — juntos, 30.221 BTC que passariam a figurar no balanço de uma única companhia.

Por ora, o processo segue nas mãos dos comitês especiais. Caberá a eles dizer se existe um desenho de fusão que faça sentido para os acionistas dos dois lados — e, havendo, submeter a proposta a votações que estão longe de ser uma formalidade. Até lá, a possível união de US$ 3,5 trilhões permanece exatamente o que é hoje: a maior negociação em potencial do mundo corporativo, ainda sem data, sem preço e sem garantia de que sairá do papel.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.