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Ações de chips desabam após CEO da Broadcom comparar IA a cassino

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Resumo da Notícia

  • O CEO da Broadcom, Hock Tan, comparou a aposta em inteligência artificial a um cassino em evento em Singapura.
  • Ações de chips desabaram na Ásia e na Europa: SK Hynix caiu cerca de 10%, Samsung 7% e Kioxia 13%.
  • Nos Estados Unidos, Nvidia, AMD, Micron e a própria Broadcom também recuaram, em meio ao debate sobre bolha de IA.

Uma única frase foi suficiente para sacudir os mercados de tecnologia em três continentes. Na segunda-feira (12), durante uma conferência em Singapura, o CEO da Broadcom, Hock Tan, afirmou que muitos investidores em inteligência artificial “não fazem ideia do que estão investindo” e que as expectativas em torno do setor se parecem com as de quem aposta em um cassino. No dia seguinte, as ações das principais fabricantes de chips do mundo despencaram na Ásia e na Europa, e a pressão vendedora se espalhou por Wall Street.

Tan falou na DBS Asia Future Forward Conference, um dos eventos mais acompanhados do setor financeiro asiático. Segundo a Bloomberg, o executivo disse que parte dos investidores “estabelece expectativas extremas, para depois descobrir que é quase como se estivessem em um cassino”. Ele comparou ainda empresas que gastam fortunas em experimentos com IA a crianças que recebem fichas de fliperama e as gastam em poucos minutos, sem aprender nada com a experiência.

Coreia do Sul lidera as perdas

O tombo foi mais forte na Coreia do Sul, país das duas maiores fabricantes de chips de memória do planeta. De acordo com a Forbes, as ações da SK Hynix recuaram 10,1% na terça-feira (13), enquanto os papéis da Samsung caíram 7,4%. Juntas, as duas empresas respondem por cerca de metade do índice Kospi, que desabou mais de 5,4% no fechamento — ao longo do pregão, a baixa chegou a superar 6%.

A volatilidade foi tamanha que a bolsa coreana chegou a suspender temporariamente as negociações programadas para conter o movimento de vendas, na primeira intervenção desse tipo em dois meses. Investidores estrangeiros aceleraram a saída do mercado sul-coreano em outubro, em meio ao receio de que o ciclo de alta das ações de IA esteja perto do limite.

Queda se espalha por Japão, Taiwan e Europa

O mau humor não ficou restrito a Seul. No Japão, a Kioxia, fabricante de chips de memória, perdeu cerca de 13,3%, segundo a Forbes, e o SoftBank Group — um dos maiores investidores da OpenAI — recuou 8,5%. O índice Nikkei 225 encerrou o dia em baixa próxima de 2%. Em Taiwan, a TSMC, maior fabricante de chips sob encomenda do mundo, caiu quase 2%, arrastando o índice local.

Na Europa, o movimento atingiu as fornecedoras de equipamentos e componentes. A holandesa ASML, maior fornecedora mundial de máquinas para produção de semicondutores, caiu mais de 3%. A BE Semiconductor recuou até 6%, enquanto Infineon e STMicroelectronics perderam mais de 5% cada uma, em uma sessão de aversão generalizada ao setor de tecnologia.

Wall Street também sente o impacto

Nos Estados Unidos, o setor já vinha sob pressão desde a segunda-feira, quando a Micron caiu quase 4% e o índice de semicondutores da Bolsa da Filadélfia recuou 2,7%. Na terça-feira, antes da abertura do mercado, a Micron voltava a cair cerca de 3%, enquanto Nvidia recuava em torno de 0,9% e AMD e a própria Broadcom registravam perdas superiores a 1%, segundo a Forbes.

O episódio mostra como o humor dos investidores pode virar rapidamente mesmo em setores em expansão. É um contraste com o ambiente de otimismo que tem marcado os mercados globais — o mesmo que levou o comitê do Prêmio Nobel de Economia 2026 a premiar pesquisas sobre estabilização macroeconômica e o papel dos bancos centrais em momentos de turbulência.

Concorrência chinesa adiciona pressão

A declaração de Tan não foi o único gatilho da liquidação. Ao mesmo tempo, investidores reagiram ao anúncio da chinesa CXMT, uma das principais fabricantes de chips de memória da China, que relatou avanços em uma nova arquitetura de memória DRAM. Segundo dados da Counterpoint Research citados no noticiário financeiro, a CXMT alcançou 10% da receita global de DRAM no segundo trimestre de 2026, contra apenas 4% um ano antes — e avança para segmentos dominados pelas rivais coreanas e americanas.

O temor é que a concorrência chinesa, com produtos mais baratos, corroe o poder de preço de Samsung, SK Hynix e Micron justamente quando o mercado passou a questionar a durabilidade dos gastos bilionários com infraestrutura de IA. Analistas ouvidos pelo Barron’s apontaram a competição chinesa como um dos principais combustíveis da onda de vendas, ao lado das declarações do executivo da Broadcom.

Debate sobre bolha ganha força

O comentário de Tan alimenta um debate que já vinha ganhando corpo entre executivos e analistas: o de que pode haver uma bolha em torno da inteligência artificial. Nomes como Sam Altman, da OpenAI, Jeff Bezos, da Amazon, e Sundar Pichai, do Google, já haviam feito alertas na mesma direção nos últimos meses.

Tan questionou a economia dos laboratórios de IA que operam no prejuízo. Mesmo reconhecendo que a receita anualizada da OpenAI, em torno de US$ 50 bilhões até setembro, demonstra demanda real, ele observou que os custos elevados de treinamento dos modelos dizem pouco sobre o lucro de longo prazo dessas empresas. Para o executivo, o financiamento — e não a escassez de chips — pode se tornar o maior gargalo do setor.

Nem todos, porém, leram as falas como um sinal de virada. Segundo a MarketWatch, o estrategista Rich Privorotsky, do Goldman Sachs, afirmou que os comentários foram “tirados de contexto” e que Broadcom e Intel reafirmaram, no mesmo evento, uma demanda excepcionalmente forte para os próximos dois a três anos, potencialmente até 2030. O CEO da Intel, Lip-Bu Tan, que dividiu o painel com Hock Tan, destacou a força da procura por hardware, embora tenha alertado para gargalos de oferta.

A contradição da própria Broadcom

Chama a atenção que o alerta parta de um dos maiores beneficiários do boom. A receita da Broadcom com chips de IA mais do que triplicou no seu terceiro trimestre fiscal, para cerca de US$ 17 bilhões, e a empresa projeta aproximadamente US$ 22 bilhões no quarto trimestre. O próprio Hock Tan prevê que a receita anual com semicondutores de IA salte de cerca de US$ 58 bilhões neste ano fiscal para US$ 230 bilhões no ano fiscal de 2028, impulsionada por clientes como OpenAI e Anthropic.

O contraste ajuda a explicar a reação intensa do mercado: quando até quem mais vende infraestrutura questiona o comportamento de quem investe, os preços das ações — que acumulavam altas expressivas, de 150% na Samsung e de 250% na SK Hynix em 12 meses — sofrem correção rápida. Movimentos assim costumam ter efeitos que vão além das bolsas de tecnologia, atingindo o apetite global por risco, em um cenário já sensível a fatores geopolíticos, como a trégua energética entre Ucrânia e Rússia anunciada por Trump.

O que observar nos próximos dias

Os investidores terão dados concretos para reavaliar o setor ainda nesta semana. A ASML divulga seus resultados nesta quarta-feira, e a TSMC apresenta o balanço na quinta — dois termômetros centrais da demanda por semicondutores. Na semana seguinte, será a vez de gigantes como Microsoft e Meta, cujos gastos com IA serão examinados em busca de sinais sobre o retorno dos investimentos.

Até lá, a frase de Hock Tan seguirá ecoando nos pregões. Se foi um exagero de leitura do mercado ou o primeiro sinal de uma correção maior, só os próximos balanços dirão — mas a terça-feira deixou claro que, depois de meses de euforia, bastou um executivo falar em “cassino” para bilhões de dólares em valor de mercado evaporarem em poucas horas.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.