Ameaças forçam Jurandy Pacífico, único filho vivo de Mãe Bernadete, a abandonar disputa por vaga na Câmara

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A decisão de Jurandy Pacífico, 42 anos, abalou o cenário político baiano na reta final para as eleições de 2026. Único filho vivo de Mãe Bernadete, líder quilombola assassinada há três anos, ele anunciou que não concorrerá mais ao cargo de deputado federal pelo estado da Bahia, citando risco iminente à própria vida. A renúncia foi comunicada primeiro nas redes sociais e, em seguida, formalizada em carta manuscrita entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ao recuar, Pacífico afirmou que o mesmo ciclo de violência que calou a mãe e o irmão, Binho do Quilombo, ainda ronda sua família. “É preciso, às vezes, dar um passo atrás para sobreviver e poder lutar no dia seguinte”, declarou em entrevista à Rádio Nacional, ressaltando que a decisão foi tomada após insistentes apelos de parentes e de lideranças do movimento quilombola.

Medo de novo ataque põe fim à corrida eleitoral

O agora ex-candidato planejava utilizar a campanha para defender melhorias estruturais nos mais de 400 quilombos baianos. Desde o início da pré-campanha, no entanto, ele passou a restringir deslocamentos e a evitar agendas públicas, comportamento motivado por informações extraoficiais de possíveis atentados. A tensão aumentou em julho, quando panfletos anônimos circularam em comunidades do Recôncavo com ameaças genéricas a “lideranças que insistirem em politizar terras de heranças questionáveis”.

Em nota divulgada em seu perfil oficial, Pacífico escreveu que “continuar exposto em um período tão sensível poderia trazer consequências irreversíveis” e agradeceu aos apoiadores que insistiram para que permanecesse no pleito. Segundo ele, o recuo não significa abdicar da causa: “A candidatura pode parar, mas a luta pelos direitos quilombolas não”.

Carta à Justiça Eleitoral

No documento enviado ao TSE, Jurandy classificou a renúncia como “dolorosa, porém inadiável”. Disse ter se lançado candidato movido pelo desejo de “traduzir em leis a resistência secular dos povos quilombolas”, mas acrescentou que, “após deliberação familiar”, percebeu que o caminho institucional poderia se tornar uma “sentença de morte”. O texto foi protocolado antes mesmo da análise judicial sobre a retirada, o que indica, segundo interlocutores, a urgência percebida por Pacífico.

Reações do governo baiano

O secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, Felipe Freitas, lamentou publicamente a desistência. Ele lembrou que, desde o homicídio de Mãe Bernadete, a Polícia Militar mantém esquema de proteção para Pacífico e outros membros da família. “É muito grave que um defensor de direitos humanos se sinta impedido de disputar uma eleição por medo. Colocamo-nos à disposição para reforçar as medidas necessárias e garantir participação política livre de intimidações”, disse.

Entidades como a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Bahia, divulgaram notas de solidariedade, cobrando investigação efetiva das ameaças e punição aos responsáveis.

Herança de violência contra defensores de quilombo

A renúncia de Jurandy Pacífico é mais um capítulo de uma sequência iniciada em agosto de 2023, quando sua mãe, a ialorixá e liderança comunitária Bernadete Pacífico, foi assassinada a tiros dentro de casa, no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho. Dois anos antes, em 2021, o primogênito Binho do Quilombo também havia sido morto sob circunstâncias semelhantes. Ambos lideravam frentes de oposição a grileiros e denunciavam ameaças constantes relacionadas a disputas fundiárias.

Mãe Bernadete e Binho: uma história silenciada

Mãe Bernadete era reconhecida nacionalmente pelo trabalho de regularização de territórios tradicionais e pela defesa das religiões de matriz africana. O crime chocou o país: homens armados invadiram sua residência e efetuaram disparos diante de familiares. As investigações apontaram motivação ligada a conflitos agrários, mas o inquérito permanece sem sentença definitiva.

Binho, por sua vez, fora alvejado em uma estrada vicinal próxima ao quilombo após reunião comunitária. Relatórios da Defensoria Pública do Estado indicam que, semanas antes, ele relatara ter visto carros desconhecidos circulando pelo local. O caso segue sem autores condenados.

Proteção estatal contestada

Os dois homicídios levaram o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores Sociais e Ambientalistas (PPDDH) a incluir a família Pacífico na lista de monitoramento prioritário. Ainda assim, organizações civis denunciam falhas na execução das medidas, como patrulhamento intermitente e ausência de escolta em deslocamentos fora da comunidade. Pacífico chegou a dizer, durante a pré-campanha, que “a proteção existe no papel, mas a sensação de vulnerabilidade é diária”.

Compromisso mantido com os quilombos

Mesmo afastado da corrida eleitoral, Jurandy pretende continuar articulando projetos de infraestrutura, saúde e educação para comunidades tradicionais. Ele coordena, desde 2024, um coletivo de jovens quilombolas que capta recursos para perfuração de poços artesianos e implantação de internet comunitária. A estratégia agora, segundo ele, é intensificar a atuação em redes já consolidadas, evitando a exposição midiática característica de uma campanha.

“Nenhuma candidatura vale a vida de um líder nem o luto de mais uma mãe. Recuar foi um ato de responsabilidade coletiva. Voltarei quando as condições forem mais seguras”, reforçou em áudio divulgado para militantes. Internamente, aliados discutem a possibilidade de transferir os votos construídos durante a pré-campanha para outro nome comprometido com a pauta quilombola, mas não há definição sobre apoio oficial.

Analistas políticos avaliam que a saída de Pacífico pode reduzir a visibilidade dada ao tema no Congresso, onde a bancada voltada a direitos territoriais de comunidades negras já é minoritária. Por outro lado, a repercussão do caso pressiona autoridades federais e estaduais a adotarem novas medidas de proteção para defensores de direitos humanos durante o período eleitoral.

Enquanto isso, a família Pacífico seguirá residindo em Pitanga dos Palmares, mas sob escolta fixa — determinação reforçada após a comunicação de desistência. Para Jurandy, o recado é claro: “A nossa luta não cabe apenas em urnas; ela está nas lavouras, nos terreiros e na memória dos que tombaram. Se for preciso, disputaremos de novo, mas vivos”.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.