
Uma cena comum nas redes sociais brasileiras agora salta para praias, praças e monumentos de toda a América Latina: dezenas de jovens fantasiados se revezam dançando, fazendo poses extravagantes e disputando quem arranca mais aplausos da plateia. É a batalha de “farmar aura”, fenômeno que nasceu no Brasil e, em poucos meses, virou programa de fim de semana em Lima, Cidade do México, Caracas, Buenos Aires e outras capitais da região.
O campeonato informal, inspirado em videogames e no humor da internet, segue um roteiro simples: cada competidor tem poucos segundos para “cultivar” sua aura — ou seja, irradiar carisma e criatividade diante de quem assiste. O público decide o vencedor pelo barulho, e o único prêmio é o prestígio instantâneo. Mesmo sem troféu, a disputa já mobiliza multidões e começa a enfrentar tanto o entusiasmo de jovens quanto a resistência de algumas autoridades.
Da internet brasileira às ruas latino-americanas
As primeiras rodadas de “aura farming” apareceram em 2026 em vídeos curtos produzidos no Brasil. Rapidamente, os registros ganharam versões legendadas em espanhol e circularam por TikTok, X e Instagram, chamando a atenção de criadores de conteúdo de outros países. Um desses influenciadores é o peruano Fernando Lícito, 25 anos. Depois de assistir a um clipe brasileiro em junho, ele organizou três eventos no Peru, incluindo o mais recente, em 29 de agosto, na praia Las Sombrillas, em Lima, onde dezenas de adolescentes tomaram a pista de areia ao som de batidas eletrônicas.
Do outro lado do continente, a capital argentina reuniu praticantes em frente ao Obelisco, cartão-postal de Buenos Aires. Quito, Caracas e Cidade do México também registraram encontros. Fora da região, Madri, Burgos e Saragoça, na Espanha, já tiveram suas primeiras edições, mostrando que a tendência começa a atravessar o Atlântico.
Como funciona uma batalha de aura
Não há contato físico nem ofensas entre os competidores. Cada um se apresenta sozinho, tentando produzir a reação mais ruidosa possível. A vibração da plateia mede a pontuação imaginária, numa lógica semelhante à dos jogos em que personagens somam pontos para fortalecer seus atributos. A referência aos games, aliás, é assumida pelos próprios participantes.
Personagens improváveis dominam a pista
Fantasias de super-heróis, vilões de animações e figuras públicas estampam o “line-up” improvável das batalhas. Em Lima, um concorrente vestido de Homem-Aranha fez cambalhotas e flexões coreografadas ao ritmo de techno. Outro saltitou em um pé só, chutando o ar como se fosse um joystick humano. Entre os mais aplaudidos estava Liam González, 20 anos, estudante de cinema caracterizado como Shrek. “Farmar aura é deixar sua essência fluir sem vergonha”, explicou ele, minutos antes de subir ao improvisado palco de areia.
Nem mesmo a política escapou da brincadeira. O venezuelano Gonzalo Cornelio, 19, apareceu com um agasalho cinza em referência ao ex-presidente Nicolás Maduro e reproduziu passos caricatos diante do público. “Quem faz a plateia gritar mais alto avança”, resume Lícito, o organizador peruano.
Entre aplausos e proibições
O crescimento rápido chamou a atenção de autoridades. Em Miraflores, bairro turístico de Lima, um torneio foi cancelado por falta de licença para uso de espaço público. No Brasil, a prefeitura de Cuiabá vetou um evento em julho sob o argumento de “falta de interesse público”; a competição migrou para o campus de uma universidade. Na Costa Rica, o Ministério da Educação proibiu as batalhas em escolas, temendo conflitos entre estudantes e queda no rendimento escolar.
Nem todos, porém, enxergam problemas. No México, o secretário de Educação gravou vídeo sorrindo e dizendo estar “cultivando uma boa educação” enquanto praticava alguns passos, gesto que foi visto como endosso oficial à brincadeira. Para os defensores, a atividade estimula interação presencial em uma geração marcada pelo convívio digital.
Visões acadêmicas sobre o fenômeno
A professora María Paula Martínez, da Faculdade de Artes da Universidade de Los Andes, na Colômbia, afirma que o “aura farming” oferece um espaço de expressão para adolescentes: “Não se trata de popularidade, mas de transmitir boas vibrações e receber o reconhecimento coletivo”. Ela destaca que, ao sair do ambiente virtual, a tendência cria oportunidades de socialização além das telas.
Embora não exista premiação material, a recompensa simbólica — o grito da multidão, a curtida online — basta para mover a roda. Esse “ponto extra” no status social, segundo Martínez, é compreendido pelos jovens como uma espécie de poder especial dos videogames, agora aplicado à vida real.
Quando a avó não entende (e tudo bem)
Para alguns praticantes, explicar a nova febre à família pode ser mais difícil que realizar um mortal na areia. Liam González, o Shrek peruano, conta que a avó considera o hobby uma bobagem. “Nós nascemos em épocas diferentes”, diz ele, rindo. Entre os participantes, a diferença geracional é encarada com leveza: a própria natureza efêmera da brincadeira dispensa longas justificativas.
Enquanto críticos temem aglomerações sem autorização ou distração escolar, adeptos defendem que o ato de “farmar aura” é apenas uma forma inofensiva — e barulhenta — de ocupar o espaço público. Nada impede que a discussão avance para regras de segurança e organização, mas, por ora, a energia que move o movimento continua sendo a mesma que reina nas arenas virtuais: quem tiver mais criatividade leva a melhor.
