O canibalismo representa uma ameaça direta à sobrevivência de grupos humanos ao aumentar exponencialmente o risco de transmissão de doenças, concluiu um estudo das universidades de Wroclaw, na Polônia, e Charles, na República Tcheca. A pesquisa, liderada pelos cientistas Michal Misiak e Petr Turecek, foi divulgada nesta quarta-feira (2/7/2026) e utilizou um modelo matemático para estimar os impactos de longo prazo da prática.
Energia versus perigo
De acordo com o levantamento, o corpo humano oferece valor calórico equivalente a uma refeição média. No entanto, os autores alertam que “os custos ocultos” superam qualquer benefício energético. “Os patógenos encontram um organismo quase idêntico ao seu hospedeiro anterior, o que facilita a infecção”, explicou Misiak em comunicado da Universidade de Wroclaw.
Doenças resistentes ao cozimento
O estudo destaca que nem mesmo o preparo em altas temperaturas é capaz de eliminar príons — proteínas mal dobradas ligadas a enfermidades neurológicas fatais. Por isso, quando canibais consomem outros canibais, o risco de surtos cresce de forma exponencial. Um exemplo citado pelos pesquisadores é o kuru, moléstia que atingiu o povo Fore, na Papua-Nova Guiné, onde parentes falecidos eram cozidos e ingeridos em rituais funerários.
Tabu como proteção
Para os autores, a combinação entre transmissão facilitada de patógenos e possíveis epidemias teria contribuído para o surgimento de um dos tabus mais fortes da humanidade. “O tabu funciona como uma salvaguarda evolutiva”, afirmou Misiak. Segundo o modelo, comunidades que não restringiram o canibalismo teriam desaparecido.
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Registros históricos
A prática já foi documentada em diferentes culturas, como na gravura de 1592 do alemão Theodor de Bry, que retrata um ritual tupinambá observado pelo mercenário Hans Staden no Brasil. Apesar de relatos esporádicos, os cientistas reforçam que a manutenção do canibalismo em qualquer sociedade tende a provocar declínio populacional a longo prazo.
O estudo não sugere que o canibalismo seja atualmente difundido, mas afirma que o risco sanitário inerente explica por que a rejeição a essa prática persiste globalmente.
Com informações de G1