
Resumo da Notícia
- Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura uma nota técnica com 163 medidas para reduzir os riscos de perdas climáticas na agropecuária diante do El Niño da safra 2026/2027
- Painel brasileiro aponta 95% de chance de o fenômeno ser “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026, podendo estar entre os mais intensos desde 1950
- Sul deve ter chuvas acima da média com risco de cheias; Centro-Norte, seca e maior risco de incêndios; recomendações variam por região e cultura
A Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma nota técnica com 163 medidas para reduzir os riscos de perdas climáticas na agropecuária diante do El Niño da safra 2026/2027. O documento foi elaborado por cerca de 50 profissionais da Embrapa e especialistas do Inmet, no Grupo de Trabalho sobre El Niño criado pelo Mapa.
Das 163 medidas, 14 são transversais — valem para todo o setor —, 139 são específicas por segmento produtivo (grãos, fruticultura, silvicultura, horticultura, pastagens e pecuária) e 10 são de apoio a políticas públicas. A nota com as recomendações para o Sul já foi publicada no site da Embrapa; as de Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte estavam em preparação.
Um dos mais intensos desde 1950
O alerta não é exagero. O Painel El Niño 2026-2027 — formado por INPE, Inmet, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam — apontou no Boletim nº 4 uma probabilidade de 95% de que o fenômeno atinja intensidade “muito forte” no trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026, persistindo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027. Se confirmado, estará entre os mais intensos desde 1950.
A NOAA, agência americana, também vê mais de 90% de chance de intensidade muito forte, com anomalias da temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial oriental acima de +3,0°C — e 75% de chance de um evento “histórico” em outubro-dezembro. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno até o início de 2027.
O que esperar por região
O El Niño tem um padrão clássico de impactos no Brasil, e o painel confirmou o roteiro: o Sul deve ter chuvas acima da média, com possibilidade de cheias e enchentes; o Centro-Norte (Centro-Oeste, Norte e Nordeste) tende a condições mais secas, com maior risco de fogo e incêndios; e as temperaturas devem ficar acima da média em grande parte do país. Parte do Sudeste e o leste do Nordeste também podem ter chuvas acima da média.
No Centro-Oeste, Mato Grosso e Goiás estão entre os estados com maior possibilidade de déficit hídrico, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul tende a volumes maiores de chuva. A primavera deve ter atraso e irregularidade das chuvas, e o verão, veranicos e ondas de calor — com o período de novembro de 2026 a janeiro de 2027 como o de maior atenção para a seca, segundo o agro2.com.br.
No Nordeste e no Semiárido, as temperaturas devem ficar mais altas e as chuvas mais irregulares no último quadrimestre de 2026, com efeitos mais fortes no início de 2027. Há, porém, um ponto positivo em relação ao El Niño de 2015/16: os reservatórios nordestinos estão em cerca de 51% da capacidade, contra apenas 23% em agosto de 2015.
No Sul, a umidade adicional pode beneficiar o milho, mas traz riscos de doenças no trigo, erosão e plantio comprometido de soja e arroz.
As recomendações
Entre as 14 medidas transversais estão o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), o escalonamento da semeadura, o uso de cultivares adaptadas, a diversificação da produção, a integração lavoura-pecuária-floresta, a formação de reservas financeiras, o seguro rural e o acompanhamento das previsões oficiais (Inmet, CPTEC/INPE e Cemaden).
Para o Sul, as orientações incluem manter a palhada no solo (aveia, centeio, nabo forrageiro), semeadura em nível, terraços, cultivares resistentes a doenças como a podridão-radicular de fitóftora no trigo e o monitoramento da ferrugem-asiática da soja.
No Norte e Nordeste, o foco é reter água no solo com palhada (braquiária, milheto, crotalária), usar cultivares tolerantes à seca e monitorar a mosca-branca. Para a pecuária, as recomendações são formar reservas de forragem, bancos de palma-forrageira e adequar a lotação dos pastos.
No Centro-Oeste, as orientações para soja e milho incluem respeitar as janelas do Zarc, usar materiais tolerantes a seca e calor e manter a cobertura do solo — e, se houver atraso expressivo no plantio da soja, avaliar o sorgo ou o milheto em vez do milho segunda safra. Para o algodão, evitar o plantio tardio e preferir cultivares precoces. No Pantanal, a recomendação é monitorar os níveis dos rios e redobrar a prevenção de incêndios.
“Mesmo sendo um ano de risco, o produtor pode se precaver adotando, desde agora, diferentes práticas agrícolas que diminuam os efeitos deste fenômeno”, afirmou José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja, segundo o nutrinews.com.
O que é o Zarc e por que ele importa
Uma das recomendações transversais mais citadas na nota técnica é o respeito ao Zarc — o Zoneamento Agrícola de Risco Climático. Trata-se de um instrumento do governo que indica, para cada município, cultura e tipo de solo, as melhores janelas de plantio com menor risco climático. Em anos de El Niño, seguir o Zarc deixa de ser recomendação burocrática e vira ferramenta de sobrevivência: plantar fora da janela em um ano de seca ou de excesso de chuva pode significar a perda total da lavoura.
O escalonamento da semeadura — distribuir o plantio em diferentes datas — é outra medida simples e eficaz: se uma frente de calor ou uma enxurrada atinge a região num momento crítico, nem toda a lavoura está na mesma fase de desenvolvimento, e o prejuízo é diluído.
Seguro rural e reservas financeiras
A nota técnica também reforça dois pilares de proteção econômica: o seguro rural e a formação de reservas financeiras. O seguro rural (Proagro e o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, o PSR) é a rede de segurança do produtor contra perdas climáticas — e em anos de El Niño forte a adesão costuma crescer. Já as reservas financeiras funcionam como colchão para atravessar uma safra frustrada sem comprometer o plantio seguinte.
A integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), outra medida transversal, aparece como estratégia de longo prazo: sistemas diversificados são mais resilientes a extremos climáticos do que monoculturas, além de melhorarem a qualidade do solo e a retenção de água.
Monitoramento: a palavra de ordem
Todas as recomendações têm um denominador comum: o monitoramento constante das previsões oficiais. A Embrapa orienta os produtores a acompanharem os boletins do Inmet, do CPTEC/INPE e do Cemaden — e o Painel El Niño 2026-2027 publica boletins periódicos com a evolução do fenômeno. Num ano em que o fenômeno pode estar entre os mais intensos desde 1950, a informação atualizada é tão importante quanto a semente na terra.
Vale o cuidado: seca, cheias e incêndios aparecem nos documentos como cenários projetados — o próprio painel ressalta que são tendências sazonais e que os impactos variam por região.
