São Paulo – Um levantamento do Observatório Europeu Austral (ESO) divulgado na quarta-feira (1º) na revista Astronomy & Astrophysics conclui que o número de satélites em órbita da Terra não deveria ultrapassar 100 mil unidades para que telescópios terrestres continuem a produzir imagens científicas de qualidade.
Risco de “poluição” luminosa
Atualmente há cerca de 14 mil satélites ativos, a maioria pertencente à constelação Starlink, da SpaceX. O estudo alerta que projetos já anunciados podem elevar esse total para mais de 1,7 milhão de artefatos, o que criaria rastros luminosos capazes de ocultar objetos celestes nas fotografias dos observatórios.
A SpaceX, por exemplo, prevê lançar até 1 milhão de satélites para operar centros de dados no espaço. Outros planos em análise incluem o projeto “Cinnamon”, da empresa E-Space, as constelações chinesas CTC-1 e CTC-2 e até 50 mil satélites semelhantes a espelhos propostos pela norte-americana Reflect Orbital, com objetivo de refletir luz solar durante a noite.
Impacto observado nos grandes observatórios
Segundo o astrônomo Olivier Hainaut, autor principal do trabalho, cada passagem de um satélite luminoso deixa uma faixa brilhante nas imagens captadas. “Hoje isso já acontece diariamente, mas ainda é gerenciável. Se saltarmos de 14 mil para 1,7 milhão de satélites, a situação se tornará crítica”, disse.
Mesmo sem apontar diretamente seus refletores para a Terra, aparelhos altamente brilhantes poderiam aparecer no firmamento “como milhares de Vênus”, comparou Hainaut, referindo-se ao planeta facilmente visível a olho nu. O resultado, alerta, seria um céu semelhante ao visto nos arredores de grandes cidades, mesmo em áreas remotas como o deserto do Atacama, no Chile.
Documento enviado à agência reguladora dos EUA
As conclusões embasam um relatório formal encaminhado pelo ESO, pela Royal Astronomical Society do Reino Unido e pela União Astronômica Internacional à Comissão Federal de Comunicações (FCC), órgão que analisa pedidos de lançamento feitos pela SpaceX e pela Reflect Orbital.
“Para a astronomia óptica, essa é uma ameaça existencial e esperamos que os reguladores reconheçam isso”, declarou Betty Kioko, responsável por assuntos institucionais do ESO.

Imagem: Internet
Empresas prometem diálogo
Procurada, a Reflect Orbital informou à agência AFP que encomendou estudos independentes sobre o efeito de sua tecnologia e que seus satélites permanecerão “desligados” por padrão, evitando redirecionar luz nas proximidades de observatórios. A SpaceX, segundo o ESO, mantém “colaboração razoavelmente boa” com ajustes para reduzir o brilho de suas unidades.
Efeitos além da astronomia
O estudo lembra que a luminosidade artificial noturna pode afetar relógios biológicos de diversas espécies e perturbar ecossistemas. Além disso, as operações de lançamento e a reentrada de grandes frotas de satélites na atmosfera contribuem para a emissão de poluentes, impactando a qualidade do ar.
Os autores reforçam que não se opõem ao uso de satélites, mas defendem limites que permitam a convivência entre tecnologia de telecomunicações e a pesquisa astronômica.
Com informações de G1