A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, movimento que se apresenta como fiel à tradição de Leão XIII, provocou uma crise no Vaticano ao nomear quatro bispos sem a autorização do papa Leão XIV. De acordo com a legislação canônica, a consagração episcopal à revelia do pontífice implica excomunhão automática (latae sententiae) tanto para os clérigos ordenados quanto para quem realizou a cerimônia.
O ato, revelado nos últimos dias, foi seguido por uma carta aberta datada de 24 de maio. No documento, o superior-geral da Fraternidade, o padre italiano Davide Pagliarani, dirige-se ao papa e cita seis vezes a palavra “Tradição”, defendendo que essa seja a base da vida da Igreja, ao lado da “pureza da fé”.
Questionamento da autoridade papal
Para o vaticanista Filipe Domingues, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana e diretor do Lay Centre, em Roma, a atitude configura ruptura doutrinal. “Não se trata de conservadorismo; trata-se de desobedecer à doutrina ao ordenar bispos sem mandato pontifício”, afirmou. Ele avalia que ignorar o episódio seria “tolerar um ato de rebeldia” capaz de incentivar novas cisões.
Analistas ouvidos pelo jornal consideram o episódio um desafio direto aos esforços de Leão XIV de manter a unidade interna. Segundo Ribeiro Neto, a Santa Sé deverá equilibrar disciplina e acolhimento, enquanto o teólogo Borba entende que o pontífice busca “reunir o rebanho disperso”, mais do que punir.
Presença no Brasil
No país, a Fraternidade mantém atividades em São Paulo, Indaiatuba, Ribeirão Preto, Sorocaba, Itapetininga, São José do Rio Preto, Passos, Curitiba, Cuiabá, Campo Grande, Fortaleza, Parnaíba, Teresina e São Luís.

Imagem: Edis Veiga
O Vaticano ainda não divulgou decisão oficial, mas a legislação canônica prevê que a penalidade aplique-se de imediato, sem necessidade de decreto, diante da ordenação episcopal realizada sem bula papal.
Com informações de Estadão