Écône (Suíça) — A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, movimento católico ultratradicionalista, ordenou nesta quarta-feira, 1º de julho de 2026, quatro novos bispos sem a autorização do papa Leão 14, configurando ato considerado cismático pela Santa Sé.
Na véspera, o pontífice enviara carta ao superior da fraternidade pedindo que a cerimônia fosse cancelada, advertindo que a iniciativa provocaria cisma e acarretaria excomunhão automática dos envolvidos. O apelo não foi atendido.
A liturgia, celebrada em latim, durou cerca de quatro horas e ocorreu ao ar livre no mesmo campo onde, em 1988, o fundador do grupo, o bispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991), consagrou os primeiros prelados da comunidade. Fiéis de diversos países compareceram ao ato.
Foram elevados ao episcopado dois franceses, um norte-americano e um suíço. Com a ordenação sem mandato pontifício, os quatro religiosos e os dois bispos que já serviam à fraternidade foram declarados automaticamente excomungados.
“É um dia histórico. Algo muito importante está acontecendo agora, isso não vai parar aqui”, afirmou à agência AFP o fiel suíço Jean-Pierre Stauffer, 79 anos.
Reação do Vaticano
O Vaticano classifica a ordenação de bispos sem aval papal como ato de “insubordinação direta” que rompe a comunhão com Roma. A Santa Sé alertou que, em situação de cisma, sacramentos administrados pelos novos bispos — como matrimônio e confissão — não terão validade canônica.
Histórico de conflitos
A Fraternidade São Pio X foi criada em 1970 por Lefebvre, crítico das reformas aprovadas pelo Concílio Vaticano II, na década de 1960. O grupo defende interpretação rígida da doutrina católica, liturgia anterior ao concílio, modelo de sociedade patriarcal e ideal de Estado teocrático.
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Em 1988, o então papa João Paulo 2º fez apelo semelhante para evitar a ordenação de bispos, igualmente ignorado. As excomunhões aplicadas naquele ano foram anuladas em 2009 por Bento 16, mas a fraternidade não chegou a um acordo definitivo com Roma.
Presença global
Segundo dados da própria fraternidade, o grupo está presente em 77 países, reúne aproximadamente 600 mil fiéis, conta com 751 sacerdotes, 264 seminaristas e cerca de 800 locais de culto. Apesar da expansão, permanece minoria diante dos mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo.
A organização alega “necessidade pastoral” para ordenar novos bispos, afirmando dispor apenas de dois prelados em atividade, o que limitaria seu crescimento.
Com informações de Folha de S.Paulo