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Relatório da ONU revela rede internacional que abastece a guerra no Sudão

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A guerra que há três anos devasta o Sudão e empurrou o país para a pior crise humanitária do planeta não se sustenta apenas pela rivalidade interna entre Forças Armadas Sudanesas (SAF) e Forças de Apoio Rápido (RSF). Um novo relatório da Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos da ONU, divulgado nesta quinta-feira (3), detalha como uma teia de governos, empresas e indivíduos estrangeiros fornece armas, tecnologia militar, rotas logísticas e até combatentes para manter o confronto ativo.

De acordo com o documento “Alimentar o conflito no Sudão: armas, combatentes e redes de apoio externo”, Emirados Árabes Unidos, Chade, Colômbia, Líbia, Somália, Sudão do Sul, Etiópia e o estado não reconhecido de Puntlândia formam o núcleo dessa engrenagem transnacional, que tem prolongado a violência e ampliado o custo humano do embate entre os generais Abdel Fattah al-Burhan (SAF) e Mohamed Hamdan Dagalo (RSF).

Rede internacional de suprimento bélico

Investigadores da ONU afirmam ter reunido indícios de que entidades sediadas nos Emirados Árabes Unidos se tornaram a principal fonte de armamentos avançados destinados às RSF. O carregamento, segundo o relatório, costuma ser remetido por via aérea ou marítima até pontos na Somália, no sul da Líbia, no Chade e em Puntlândia. Desses locais, comboios terrestres atravessam fronteiras porosas até atingir regiões controladas pelos paramilitares no Sudão.

Embora o texto mencione especialmente o fluxo em direção às RSF, analistas ouvidos pela missão descrevem um quadro de corrida armamentista que afeta ambos os lados. O exército regular, dizem os peritos, recorre a canais próprios de importação e recicla equipamentos já presentes no país, mas enfrenta dificuldade para igualar o volume de suprimentos estrangeiros entregue aos rivais.

Documentação obtida pela ONU

  • Registros alfandegários que ligam empresas dos Emirados a carregamentos de fuzis, munições e peças de drones.
  • Imagens de satélite que mostram pousos não declarados em pistas no sul da Líbia, apontadas como escalas de voos cargueiros rumo ao Sudão.
  • Depoimentos de transportadores terrestres relatando pagamentos em dólar para atravessar zonas desérticas fora dos postos de controle oficiais.

Mercenários e tecnologia como armas de pressão

O mesmo levantamento dedicou um capítulo ao recrutamento de ex-militares colombianos. Estimativas dos investigadores apontam que até dois mil sul-americanos podem ter sido contratados, em parte por agências privadas de segurança que já atuaram no Oriente Médio. Eles reforçam sobretudo as fileiras das RSF, atraídos por salários superiores aos que receberiam na América Latina.

Além da mão de obra estrangeira, a ONU chama atenção para o uso intensivo de drones. Veículos não tripulados, equipados tanto para vigilância quanto para ataque, transformaram o campo de batalha sudanês. Desde 1º de janeiro, mais de mil civis morreram em bombardeios ou disparos aéreos coordenados por esses aparelhos, número que representa a face mais letal de uma tecnologia relativamente barata e de fácil aquisição no mercado internacional.

Alvos civis sob fogo cruzado

Hospitais, escolas, redes elétricas, locais de trabalho, funerais e até casamentos foram atingidos em operações conduzidas tanto pelas SAF quanto pelas RSF. Para os especialistas, a combinação de armamento pesado de longo alcance e drones amplia a distância entre quem atira e quem morre, reduzindo o constrangimento político de autorizar ações que inevitavelmente vitimam não combatentes.

Raízes e desdobramentos de uma guerra entre ex-aliados

SAF e RSF lutam lado a lado até 2021, quando depuseram o governo civil e instalaram uma junta liderada por Burhan e Dagalo. A parceria ruiu em 2023, após divergências sobre a integração das tropas paramilitares ao exército regular. Desde então, as duas facções disputam o controle da capital Cartum e de regiões ricas em recursos, como Darfur.

No terreno, a geografia do conflito é marcada por frentes móveis e multiplicação de feudos armados. A presença de rotas internacionais de abastecimento contribui para que nenhuma das partes sofra asfixia logística decisiva, prolongando uma guerra que já deslocou 12,8 milhões de pessoas dentro e fora do Sudão.

Impacto regional

  1. Chade e Sudão do Sul abrigam centenas de milhares de refugiados, sobrecarregando serviços de saúde e segurança alimentar.
  2. O fluxo de armas pelas fronteiras fragiliza países vizinhos, onde milícias locais tentam se apropriar de carregamentos.
  3. Organismos humanitários relatam crescimento do tráfico de pessoas e da exploração de migrantes em rotas desérticas.

Custo humanitário atinge patamar sem precedentes

A dimensão da tragédia humanitária impressiona: cerca de 20 milhões de sudaneses sofrem fome aguda, e 135 mil correm risco iminente de morrer por falta de alimento, segundo projeções das agências da ONU. Com o sistema de saúde colapsado, doenças evitáveis se propagam em acampamentos improvisados, onde água potável e saneamento são escassos.

Diante desse quadro, o novo estudo dos peritos da ONU reforça dois recados. Primeiro, sem cortar o fornecimento externo de armamentos e dinheiro, qualquer cessar-fogo será instável. Segundo, enquanto a comunidade internacional não pressionar de forma coordenada os atores estrangeiros referidos no relatório, o Sudão continuará a ser palco do que as Nações Unidas descrevem como a “crise humanitária mais grave do mundo na atualidade”.

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Equipe RSO Notícias