O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega a Assunção nesta terça-feira, 30 de junho, para a cúpula do Mercosul em meio a dois desafios simultâneos: a virada eleitoral que colocou governos de direita no comando de vários países do bloco e a pressão por uma atuação mais robusta do Brasil diante dos terremotos que devastaram a Venezuela.
Cenário político altera margem de manobra brasileira
A composição ideológica do Mercosul mudou desde o início do terceiro mandato de Lula, em 2023. Eleições recentes levaram chefes de Estado conservadores ao poder em Argentina, Chile, Equador e Peru, reduzindo a convergência política antes favorável ao Palácio do Planalto.
Para a analista Yolanda Tolentino, especialista em política internacional pela FAAP e UFRJ, “o Brasil deixa de falar em nome de uma maioria e passa a operar como exceção dentro do próprio Mercosul”. Segundo ela, a dinâmica de consenso do bloco tende a concentrar as conversas em temas comerciais, afastando-se de pautas de integração política, direitos humanos e meio ambiente defendidas por Brasília.
Pauta da cúpula
Em Assunção, os presidentes devem discutir o andamento de negociações com parceiros externos e a modernização das regras do bloco. Lula não tem agendas bilaterais previstas e retorna a Brasília no mesmo dia para o lançamento do Plano Safra.
Ajuda humanitária na Venezuela sob escrutínio
O terremoto venezuelano se transformou em teste de liderança regional. Até o momento, o Brasil enviou três voos com 71 bombeiros, um hospital de campanha operado por 48 militares da Marinha, 100 purificadores de água e mais de 111,8 mil medicamentos e insumos médicos. Analistas consideram o volume expressivo, mas aquém da capacidade logística do país.
“A velocidade da resposta influencia a percepção sobre a capacidade de liderança”, afirma o consultor de relações internacionais Cezar Roedel. O cientista político Elton Gomes observa que a estrutura poderia ter sido acompanhada por maior mobilização de pessoal.

Imagem: André Borges
Outros países intensificam operações
Estados Unidos, Argentina e El Salvador, cujos governos não se alinham ao regime venezuelano, também enviaram socorro:
- Estados Unidos: pacote de US$ 150 milhões, equipes de busca e resgate, suspensão pontual de sanções, 100 militares da Força Aérea e 130 fuzileiros navais, seis aeronaves C-17 e o navio USS Fort Lauderdale como base de apoio.
- Argentina: bombeiros especializados, profissionais de saúde, integrantes da Defesa Civil, tendas, medicamentos e apoio à reabilitação do aeroporto de Caracas.
- El Salvador: cerca de 300 resgatistas, cães farejadores e 50 toneladas de suprimentos em seis voos.
Repercussões internas
No Brasil, a sucessão presidencial entrou na cena diplomática: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, reuniu-se no domingo com o presidente argentino Javier Milei, que elogiou nas redes sociais a possibilidade de uma “onda azul” chegar ao país.
A cúpula em Assunção ocorre, portanto, sob a combinação de um Mercosul com novas correlações políticas e a necessidade de respostas rápidas à crise humanitária venezuelana — fatores que devem pautar as negociações desta terça-feira.
Com informações de Gazeta do Povo