Depois de 250 dias contínuos em alto-mar, o porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln atracou na costa leste da Tailândia na quarta-feira (2), liberando quase cinco mil militares norte-americanos para um descanso aguardado desde novembro passado. A parada, a maior de um navio de guerra dos Estados Unidos na região desde a Guerra do Vietnã, recoloca a cidade de Pattaya sob os holofotes e faz renascer discussões antigas sobre a ligação entre presença militar, vida noturna e turismo sexual.
Empresários locais veem a chegada como alívio imediato em meio à queda no fluxo turístico provocada pelos conflitos entre EUA, Israel e Irã, que afastaram visitantes do Oriente Médio e esfriaram o consumo. Enquanto isso, autoridades tailandesas e comando naval norte-americano correm para impor limites que evitem novos escândalos na chamada “Cidade do Pecado” — rótulo que Bangcoc prefere enterrar.
Descanso após travessia recorde
O Abraham Lincoln zarpou de San Diego em novembro para uma missão prevista de seis meses pelo Indo-Pacífico e Mar do Sul da China. Em fevereiro, contudo, a embarcação recebeu ordens para seguir rumo ao Golfo Pérsico, em apoio a operações norte-americanas e israelenses contra o Irã. A mudança de rota prolongou a viagem em quase três meses e agravou problemas relatados a parlamentares dos EUA: escassez de mantimentos, sanitários defeituosos e estresse psicológico da tripulação.
Sob pressão, a Marinha dos EUA aceitou a parada na Tailândia, mas manteve silêncio público sobre logística e duração por “motivos de segurança operacional”. A única informação confirmada é que o navio deve retomar o caminho de volta pelo Pacífico em 6 de setembro.
Cidade quer faturar sem polêmica
As luzes de néon da Walking Street — artéria boêmia à beira-mar — voltaram a piscar com mais intensidade, mas os donos de bares ainda se queixam da escassez de clientes. Para eles, os bolsos cheios de salários economizados pelos fuzileiros representam chance de recuperar perdas acumuladas desde o início da guerra no Oriente Médio. “Não temos nada a perder; só esperamos que gastem aqui”, admite Anon Saiteer, que pendurou faixa de boas-vindas em sua joalheria.
A prefeitura também enxerga oportunidade de remodelar a imagem da cidade. O prefeito Poramase Ngampiches reconhece o estigma associado ao sexo comercial, mas defende uma Pattaya “mais diversificada”, com esportes, centros de bem-estar e atrações familiares. “As visitas militares há 50 anos nos puseram no mapa; agora precisamos mostrar que mudamos”, disse ele.
Ônibus, hotéis e vigilância
- Serviço de traslado entre porto e centro das 5h às 2h, todos os dias.
- Dois hotéis reservados a quem desejar pernoitar em terra.
- Centenas de policiais mobilizados para coibir abusos de preços e crimes.
O adido naval norte-americano Kristopher Robinson assegura que os marinheiros obedecerão às leis norte-americanas, regulamentos da Marinha e normas tailandesas. Ainda assim, oficiais de ambos os países definiram zonas proibidas e uma lista de atividades vetadas.
Restrições para evitar manchetes
Militares estão barrados em Soi 6, estreita rua costeira repleta de bares de strip-tease onde profissionais do sexo se exibem nas fachadas. Também não podem entrar em lojas de cannabis, liberadas no país desde 2022, nem praticar esportes aquáticos considerados de risco, como parasailing e jet ski. A polícia local reforçou que a prostituição permanece ilegal, embora estudos apontem de 25 mil a 50 mil trabalhadoras do sexo na cidade.
Na prática, a medida busca evitar imagens capazes de viralizar e reforçar estereótipos que governos dos dois países preferem esquecer. A proibição vale apenas para militares; turistas civis seguem livres para circular.
Preços sob monitoramento
Comércio e taxistas receberam alerta contra tarifas abusivas. Autoridades temem que denúncias de exploração financeira contaminem a narrativa de “turismo responsável” que a Tailândia vende ao mundo desde a pandemia.
Herança de uma guerra distante
Pattaya era uma aldeia de pescadores até o fim da década de 1950. O primeiro contato com uniformes norte-americanos ocorreu em 1959, quando fuzileiros lotados em bases próximas começaram a usar a praia para folga. O grande salto, porém, veio com a Guerra do Vietnã. Entre 1966 e 1967, até 16% de todos os estrangeiros que entravam na Tailândia eram militares dos EUA.
Para atender essa clientela, surgiram hotéis, boates, casas de massagem e uma legislação de 1966 que permitia às casas de entretenimento contratar mulheres para “serviços especiais”. A lei criou uma zona cinzenta que persistiu mesmo após a retirada das tropas em 1976, quando a infraestrutura já estava consolidada e o país buscava novo motor econômico no turismo internacional.
Dois dígitos de crescimento turístico
Dados oficiais mostram salto de 200 mil turistas em 1960 para cinco milhões em 1980. Pesquisas da London School of Economics indicam que, nos anos 1990, distritos vizinhos às antigas bases americanas abrigavam cinco vezes mais profissionais do sexo que outras regiões.
Mudança no perfil de visitantes
Com o fim da Guerra Fria, militares cederam espaço a mochileiros europeus, depois russos e, mais recentemente, chineses. A pandemia e as tensões no Oriente Médio, porém, derrubaram receitas. Atualmente, famílias árabes dividem calçadas com poucos frequentadores de casas noturnas, cenário considerado “anêmico” por comerciantes locais.
Nesse contexto, a estadia de poucos dias do Abraham Lincoln é vista como ressurgimento simbólico da antiga ponte aérea militar que moldou a cidade. Resta saber se o dinheiro dos marinheiros reforçará a lógica de diversão adulta ou ajudará a financiar o reposicionamento que a Tailândia promete promover.
Próximos passos
Quando o porta-aviões deixar o litoral tailandês em 6 de setembro, os cerca de cinco mil tripulantes devem voltar ao mar com suprimentos renovados e licença para finalmente regressar aos Estados Unidos. Pattaya, por sua vez, ficará com a missão de provar que pode lucrar sem repetir os excessos que lhe renderam o apelido de “cidade do pecado”.