
Resumo da Notícia
- Na reunião ministerial pré-COP31 em Nadi, Fiji, representantes de cerca de 30 nações adotaram declaração exigindo cortes profundos, rápidos e sustentados de emissões;
- As ilhas do Pacífico definiram quatro prioridades, incluindo manter o limite de 1,5°C ao alcance e financiamento climático por doações, não empréstimos;
- O chefe de Clima da ONU, Simon Stiell, alertou que o calor extremo virou uma “nova linha de falha” para gravidez e parto, citando pesquisa com 1.000 profissionais de saúde em 5 países.
Os países do Pacífico usaram a reunião ministerial pré-COP31, realizada de 5 a 8 de outubro em Nadi, Fiji, para cobrar do mundo metas mais ambiciosas de corte de emissões e manter vivo o limite de 1,5°C de aquecimento global. Representantes de cerca de 30 nações adotaram uma declaração exigindo “reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões” para minimizar a magnitude e a duração da ultrapassagem da meta.
O encontro é a preparação oficial para a COP31, a conferência do clima da ONU que acontece em novembro de 2026 em Antalya, na Turquia. Fiji retorna ao palco global nove anos depois de ter sido o primeiro pequeno Estado insular a presidir uma COP, em 2017.
As linhas vermelhas do Pacífico
As ilhas do Pacífico definiram quatro prioridades para as negociações, apresentadas pela ministra do Clima de Fiji, Lynda Tabuya: manter o limite de 1,5°C ao alcance, garantir acesso a financiamento climático, colocar o oceano no centro da ação climática e fortalecer a liderança do Pacífico nas negociações.
“Nosso primeiro-ministro levará três mensagens claras aos líderes esta semana: manter 1,5 grau ao alcance, fazer o financiamento chegar às comunidades que precisam e dar ao oceano seu lugar de direito no regime climático”, disse Tabuya na abertura, em Nadi.
Na sessão ministerial de quarta-feira, o tom subiu: “Estamos ultrapassando rapidamente o limite de temperatura de 1,5 grau”, afirmou a ministra, defendendo que “manter a meta de 1,5 viva é a principal obrigação legal e o dever que viemos aqui defender”.
A declaração adotada na terça-feira, após a visita das delegações a Tuvalu — nação-atol de cerca de 10 mil habitantes ameaçada pela elevação do mar — também reafirmou a soberania continuada dos Estados insulares e seus direitos sobre zonas marítimas, mesmo com a elevação do nível do mar redesenhando as costas.
“À medida que os aumentos da temperatura global se aproximam de 1,5°C e enfrentamos fortes condições de El Niño, reiteramos que cada fração de grau de aquecimento acelera os impactos da mudança climática e aumenta o risco de perdas e danos irreversíveis para comunidades vulneráveis”, diz o texto.
O nível do mar em Tuvalu subiu cerca de 15 centímetros nas três décadas até 2023 — o dobro da média global, segundo dados da NASA citados pela Reuters. Um relatório da ONU de agosto estima que até 1,2 bilhão de pessoas podem ser deslocadas até 2050, com as ilhas do Pacífico sofrendo elevação do mar no dobro da média global.
O alerta sobre calor extremo e gestações
O momento mais forte do encontro veio do secretário-executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Simon Stiell, que chamou a gravidez e o parto de “nova linha de falha na crise climática global” — potencialmente fatal.
“As temperaturas em alta significam perigo crescente na gravidez”, disse Stiell em evento da fundação Wellcome no primeiro dia da ministerial. “O quadro é claro e muito perturbador: à medida que o calor extremo piora, gravidez e parto são agora uma nova linha de falha na crise climática global, e uma que é potencialmente fatal.”
O alerta se baseia em pesquisa inédita encomendada pela Wellcome, com 1.000 parteiras e médicos em cinco países de cinco continentes — Reino Unido, Austrália, Índia, Brasil e Zimbábue. Os números são impressionantes: 98% dos profissionais já cuidaram de uma gestante cuja saúde acreditam ter sido afetada pelo calor extremo; 99% disseram o mesmo sobre um bebê; 73% relataram aumento de casos e complicações ligados ao calor nos últimos cinco anos.
Dados complementares indicam que cada 1°C a mais de aquecimento eleva em 5% o risco de parto prematuro e em 7% o risco de diabetes gestacional. O calor extremo na gravidez está cada vez mais associado a parto prematuro, natimorto, baixo peso ao nascer e complicações maternas.
“Calor extremo é um assassino invisível, mas as gestantes não podem ser invisíveis. Os líderes têm as evidências e as soluções de que precisam — agora precisam agir”, afirmou Julia Gillard, ex-primeira-ministra da Austrália e presidente da Wellcome.
Stiell pediu que a saúde materna e neonatal entrem nos planos climáticos nacionais, com unidades de saúde resilientes, água e eletricidade confiáveis, alertas de calor e melhor preparo de emergência.
O dinheiro que não chega
Outro ponto de tensão é o financiamento. Os países em desenvolvimento precisam de US$ 310 a 365 bilhões para adaptação climática, mas apenas US$ 26 bilhões estavam disponíveis em 2023. O Pacífico exige que o dinheiro chegue por doações — não empréstimos — e destaca o Pacific Resilience Facility, mecanismo liderado pela região.
“Sem decisão é melhor que uma má decisão”, disse Sivendra Michael, negociador-chefe de clima de Fiji, sinalizando que o Pacífico não aceitará textos que não reconheçam suas linhas vermelhas. Ele também cobrou apoio financeiro rápido, lembrando que 56 países ainda não entregaram seus planos climáticos nacionais exigidos pelo Acordo de Paris.
Baixa adesão global
Apesar da importância, a reunião sofreu com a baixa presença de líderes de fora da região: menos de uma dúzia de líderes mundiais confirmaram presença, e a oposição australiana classificou a ausência como “desastre diplomático”. Cerca de 4.000 participantes de 50 a 60 nações eram esperados em Fiji, mas a maioria dos chefes de Estado ficou de fora.
Chris Bowen, ministro do Clima da Austrália e presidente das negociações da COP31, cobrou os parceiros ausentes: “Hoje em Fiji, estamos novamente pedindo ao mundo que combine ambição com entrega. Se você é um parceiro de verdade, então entregue.”
O órgão ambiental da ONU alertou no mês passado que o mundo ultrapassará 1,5°C “dentro de poucos anos”. Em Tuvalu, os líderes viajaram de canoa e viram terras recuperadas projetadas para resistir à elevação do mar — e ouviram do ministro do Clima tuvaluano, Maina Talia: “Nosso destino será definido pelos grandes poluidores.”
