
Resumo da Notícia
- Milhares de pessoas foram às ruas em mais de 50 cidades da Espanha neste sábado (3) em protestos contra a crise de moradia, com a maior manifestação em Madri.
- Os atos, organizados pelo Sindicato de Inquilinas, pedem corte de 50% nos aluguéis, contratos por tempo indeterminado e a expropriação de imóveis de “fundos abutres”.
- As mobilizações ocorreram um dia depois de o Congresso espanhol rejeitar dois decretos do governo de Pedro Sánchez com medidas emergenciais para a habitação.
Dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas da Espanha neste sábado (3) em uma jornada nacional de protestos contra a crise de moradia. Convocadas pelo Sindicato de Inquilinas, as manifestações reuniram, segundo os organizadores, cerca de 500 mil pessoas só em Madri — a Delegação do Governo na região estimou o público em 70 mil. Ao todo, mais de 50 cidades espanholas tiveram atos, incluindo Barcelona, Valência, Sevilha, Málaga e Bilbao, segundo a agência EFE.
A passeata madrilenha partiu em quatro colunas de diferentes pontos da capital e convergiu para a Praça de Cibeles, diante da prefeitura, atrás de uma faixa com o lema “Rumo à greve geral”. Os manifestantes pedem uma redução de 50% nos valores dos aluguéis, contratos de locação por tempo indeterminado e a expropriação de imóveis nas mãos dos chamados “fundos abutres” — empresas de investimento que compram imóveis a preços baixos para maximizar a rentabilidade.
Os protestos haviam sido marcados antes mesmo da votação que os transformou em resposta direta ao Parlamento: na sexta-feira (2), o Congresso dos Deputados rejeitou os dois decretos com medidas emergenciais apresentados pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez para enfrentar a crise habitacional.
O estopim: o despejo de Maricarmen
A onda de mobilizações ganhou força há cerca de dez dias, com o despejo de Maricarmen Abascal, moradora de Madri de 87 anos, retirada do apartamento onde vivia havia sete décadas. O imóvel havia sido adquirido por uma empresa de investimento que pretendia aumentar o aluguel em 275%, segundo a imprensa espanhola.
O caso provocou comoção nacional e transformou a idosa em símbolo da crise habitacional. Após a pressão social, Maricarmen fechou um acordo com a empresa proprietária e poderá voltar para casa, mas a “faísca” — como definiu a porta-voz do Sindicato de Inquilinas, Valeria Racu — já havia se espalhado: acampamentos foram montados em Madri e em outras cidades, e cerca de cem ativistas mantêm há uma semana um acampamento na Puerta del Sol, no centro da capital.
A derrota do governo no Congresso
Na sexta-feira, o governo sofreu uma derrota dupla no Parlamento. O primeiro decreto foi rejeitado por 172 votos a favor e 178 contra; o segundo, por 166 a favor e 184 contra, entre os 350 deputados, segundo o acompanhamento ao vivo do El Político RD. Votaram contra os dois textos o Partido Popular (direita), o Vox (extrema direita) e o Junts (separatistas catalães) — cujo apoio, ou ao menos a abstenção, era necessário para a aprovação.
Os decretos previam a renovação automática dos contratos de aluguel no vencimento, medidas para restringir os despejos de inquilinos vulneráveis, a suspensão de determinados despejos até 2030 e a prorrogação de contratos até 2028, além de freios à atuação dos “fundos abutres”, informou a agência AFP.
“Esta não é uma sessão qualquer. Milhares de pessoas estão acompanhando a votação desta Câmara”, advertiu a ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, durante o debate. Em um movimento inédito — o presidente do governo espanhol nunca fala ao final das sessões do pleno —, Pedro Sánchez subiu à tribuna para pedir a aprovação: “A história os julgará antes do que imaginam e com mais contundência do que imaginam”, disse, dirigindo-se à oposição.
Confrontos em Valência, chuva em Barcelona
A maior parte dos atos transcorreu de forma pacífica, mas em Valência houve confrontos entre manifestantes e policiais. Os choques ocorreram perto do Palau de les Arts Reina Sofía, onde se realizava uma cúpula do setor imobiliário. Segundo a Reuters, alguns manifestantes retiraram barricadas e atiraram objetos contra os agentes, que responderam com balas de borracha e gás lacrimogêneo. Em Madri, a marcha terminou sem incidentes.
Em Barcelona, a manifestação foi suspensa por causa das fortes chuvas que atingiram a cidade, informou o HuffPost Espanha.
O que dizem os números
A crise habitacional é hoje um dos principais problemas sociais da Espanha. Segundo o Banco da Espanha, o país, com cerca de 50 milhões de habitantes, tem um déficit de aproximadamente 700 mil moradias. Dados da Fundação de Fomento de Estudos Sociais e Sociologia Aplicada (FOESSA) indicam que, em 2024, uma em cada quatro famílias espanholas afirmava ter problemas para conseguir ou manter sua moradia.
O Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha (INE) informou em abril que 47,3% dos jovens espanhóis entre 26 e 34 anos continuam morando com os pais, diante da impossibilidade de comprar ou alugar um imóvel com os custos atuais. Os preços dos imóveis e dos aluguéis subiram nos últimos anos, sobretudo nas grandes cidades e nas regiões turísticas, onde a demanda de visitantes pressiona ainda mais a oferta — um reflexo do turismo em alta, como mostra a ampliação da malha aérea para o verão 2026/2027.
Eleições antecipadas no horizonte
A rejeição dos decretos reacendeu as especulações sobre uma possível antecipação das eleições gerais, previstas para 2027. Segundo a imprensa espanhola, Sánchez abriu um período de reflexão para decidir se convoca o pleito já em novembro, e estaria acompanhando a dimensão dos protestos deste sábado antes de tomar uma decisão. O gabinete do primeiro-ministro não quis comentar as informações, segundo a Reuters.
O governo de coalizão, formado pelo PSOE e pelo Sumar, não tem maioria parlamentar — o que explica a dificuldade em aprovar medidas sem o apoio de outras legendas. Questionada sobre o tema, a vice-presidente do governo, Yolanda Díaz, foi evasiva: “Conversei com ele e minha discrição será absoluta sobre esta questão”, disse à rádio Cadena Ser.
A voz das ruas
Para os organizadores, a queda dos decretos só aumentou a disposição de luta. “Ontem constatamos que temos um Congresso sequestrado pelo rentismo. Um Congresso totalmente separado da realidade das ruas, totalmente separado dessa maioria social, desse consenso social que existe entre toda a nossa população de que o rentismo é uma chaga para a nossa sociedade e que temos de acabar com ele”, afirmou Valeria Racu, porta-voz do Sindicato de Inquilinas, em declarações à imprensa no Paseo del Prado.
“O que se respira nas ruas é uma nova energia, uma energia que há muito tempo não víamos, uma energia que vem de demonstrar que oito dias de poder popular são capazes de fazer muito mais do que oito anos de governo progressista”, disse Racu em nota divulgada pelo sindicato. “Agora começa a política de verdade, a política que sempre pertenceu ao povo e que volta às ruas de uma vez por todas.”
Entre os manifestantes, o sentimento era de frustração com a classe política. “É uma vergonha”, disse Nando de Anguulo, de 26 anos, que participou do protesto em Madri, à Reuters. “Isso só prova que somos nós, o povo, que temos de nos adaptar aos partidos políticos, e não os políticos ao que o povo quer. E isso não pode continuar assim.”
Os atos contaram com o apoio do Podemos, por meio da secretária-geral Ione Belarra e da eurodeputada Irene Montero, que defendeu “acabar com o negócio da moradia” e chegou a falar em “paralisar o país com uma greve geral”.
Com o acampamento da Puerta del Sol mantido — o Sindicato de Inquilinas anunciou que se retira da acampada a partir deste sábado, mas outros manifestantes seguem no local — e novas convocatórias no horizonte, a crise habitacional promete continuar no centro do debate público espanhol nas próximas semanas. Nas ruas, a palavra de ordem já está dada: rumo à greve geral.
