A Síria começou a inutilizar bombas e insumos químicos remanescentes do programa clandestino conduzido durante o governo Bashar al-Assad, marcando a primeira operação formal de desmantelamento em dez anos. A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) confirmou a destruição de 42 bombas aéreas e atestou que o material não poderá mais ser empregado como arma.
O avanço, anunciado em sessão do Conselho de Segurança da ONU nesta quinta-feira (3), ocorre quatro meses depois de autoridades sírias localizarem depósitos com matérias-primas, munições vazias e até um agente neurotóxico ainda não catalogado. Damasco afirma que a iniciativa neutraliza riscos para toda a região, mas denuncia que bombardeios israelenses atrasam as buscas e colocam em perigo as equipes em campo.
Primeira verificação da OPAQ desde 2014
Responsável pelo monitoramento global de armas químicas, a OPAQ não visitava instalações sírias desde 2014, quando o país entregou oficialmente seu arsenal. Segundo Izumi Nakamitsu, alta representante da ONU para Assuntos de Desarmamento, a nova missão conseguiu “verificar in loco a destruição irreversível” do lote de bombas e confirmar a inexistência de agentes tóxicos ainda ativos nessas ogivas.
A operação foi classificada como “categoria 3”, conjunto que abrange munições não carregadas e dispositivos projetados para liberar agentes letais. Técnicos internacionais também inspecionaram dois depósitos onde estavam armazenados tonéis de precursores químicos e munições vazias localizadas em maio.
Descobertas de maio ampliam preocupação
- Instalação adicional de produção de armamento químico, até então desconhecida.
- Produto químico recém-identificado, usado na fabricação de agentes neurotóxicos.
- Munições vazias compatíveis com as empregadas em ataques fatais durante a guerra civil.
Esses achados reforçaram suspeitas de que parte do aparato bélico de Assad jamais fora declarado. Após o escândalo internacional de 2013, Damasco entregou cerca de 1.300 toneladas de substâncias tóxicas, mas inspetores sempre alegaram falta de acesso a todos os locais citados em relatórios de inteligência ocidental.
Damasco promete transparência, mas condena Israel
Ibrahim Olabi, embaixador sírio na ONU, afirmou que o país “protege o mundo” ao eliminar o material proibido. Na mesma fala, atacou Israel, que promove bombardeios frequentes contra alvos ligados ao Hezbollah e às forças iranianas em território sírio. “Não podemos garantir a segurança regional se a nossa estiver sob mísseis israelenses”, declarou, alegando que as ofensivas dificultam transporte de equipes e equipamentos.
O governo israelense, contatado por repórteres presentes na sede da ONU, não se manifestou sobre as acusações.
Próximos passos e processo judicial inédito
Além da destruição do primeiro lote, Damasco comunicou ao Conselho de Segurança que:
- prepara nova varredura em instalações militares ainda não periciadas;
- solicitou apoio técnico adicional da OPAQ para neutralizar o agente químico recém-descoberto;
- marcará, nas próximas semanas, a primeira audiência de 18 suspeitos de envolvimento no antigo programa.
Entre os detidos estão oficiais de alta patente e funcionários civis que teriam autorizado compras e armazenamento de substâncias tóxicas. Caso condenados, poderão responder por crimes contra a humanidade na jurisdição síria, ainda que organizações de direitos humanos defendam julgamento em tribunal internacional.
Contexto: legado tóxico da guerra civil
O arsenal químico sírio veio à tona em 2013, após ataques com gás sarin que mataram centenas de civis em Ghouta Oriental. Sob pressão de Rússia e Estados Unidos, Assad concordou em aderir à Convenção sobre Armas Químicas e entregar seus estoques. As Nações Unidas consideraram o processo bem-sucedido, mas mantiveram dúvidas sobre a totalidade da declaração apresentada.
Nos anos seguintes, investigações da ONU e da OPAQ atribuíram a forças governistas novos episódios de uso de cloro e sarin. O Ocidente impôs sanções, enquanto Moscou vetou resoluções que previam punições diretas ao regime sírio. Desde 2020, a agenda de verificação estava paralisada por falta de consenso político e questões de segurança.
Riscos ainda presentes
Analistas lembram que a eliminação de bombas vazias não encerra a preocupação. “O mais perigoso são os precursores químicos, que podem ser reconvertidos em agentes letais”, explica um ex-inspetor da OPAQ ouvido sob condição de anonimato. “A Síria precisa comprovar destruição total dos estoques líquidos e sólidos, algo que exige unidades especializadas e monitoramento contínuo.”
Nakamitsu reconheceu “progresso tangível”, mas pediu cooperação permanente de Damasco e acesso irrestrito a qualquer instalação suspeita. Um novo relatório técnico deve ser apresentado ao Conselho de Segurança até o fim do ano.
Implicações diplomáticas
O movimento sírio ocorre em um momento de tentativa de reaproximação com países árabes que haviam isolado Assad politicamente. A Jordânia e os Emirados Árabes cobram gestos concretos na área humanitária e de segurança, incluindo a eliminação total de armas de destruição em massa. Para Washington e Bruxelas, a colaboração com a OPAQ é condição preliminar antes de discutir a revogação de sanções econômicas.
Se mantido o cronograma, a Síria poderá, pela primeira vez desde 2014, apresentar-se à convenção internacional sem pendências declaradas. Ainda assim, a extensão do estrago provocado pelo programa químico — tanto no campo militar quanto no custo humano — continua a alimentar processos judiciais em diversos países europeus contra antigos comandantes do regime.
Calendário previsto
- Outubro: conclusão da destruição do novo lote de precursores químicos.
- Novembro: publicação de relatório detalhado da OPAQ ao Conselho de Segurança.
- Dezembro: primeira audiência dos 18 detentos acusados de participar do programa.
Enquanto isso, grupos de defesa civil sírios pedem a criação de um fundo internacional para descontaminação de áreas expostas a agentes tóxicos ao longo da guerra. Estimativas locais apontam que centenas de hectares agrícolas permanecem inaptos ao cultivo devido a resíduos de cloro e sarin.
O que está em jogo
O desmonte do arsenal químico não apenas elimina uma ameaça direta à população, mas também pode reconfigurar alianças no Oriente Médio. A permanência de arsenais proibidos era um embaraço para aliados de Assad, entre eles Rússia e Irã, que agora buscam consolidar ganhos políticos e econômicos na reconstrução do país.
Para a ONU, a destruição verificada de bombas e instalações serve de sinal de que a Convenção sobre Armas Químicas mantém força normativa mesmo em cenários de conflito prolongado. Contudo, diplomatas alertam: sem pressão constante e transparência total, antigos praticantes podem tentar reconstruir capacidades em sigilo.
Por ora, inspetores internacionais permanecem em alerta, enquanto famílias sírias esperam que o fim do estoque tóxico abra caminho para a tão adiada reconstrução e para a responsabilização de quem ordenou ataques mortais com gás durante os anos mais sangrentos da guerra civil.