Imagens de ruas, cafés e pátios universitários lotados, exibidas nas redes sociais durante a atual Copa do Mundo, mostram milhares de bengaleses vestidos de amarelo comemorando gols do Brasil mesmo quando a bola rola às 4h da manhã no horário local. A mobilização confirma uma relação de décadas entre o país asiático e a seleção pentacampeã.
Tradição construída fora dos gramados
Bangladesh, atualmente no 181º lugar do ranking masculino da Fifa e sem participações em Copas, transformou o torneio em um evento coletivo após conquistar a independência em 1971. Naquele período, a televisão estatal passou a transmitir as partidas, oferecendo uma rara conexão com o exterior em meio à reconstrução nacional marcada por crises econômicas e instabilidade política.
A seleção brasileira entrou nesse cenário como referência de jogo ofensivo e vitorioso. O terceiro título mundial, conquistado em 1970 com Pelé, encantou torcedores que viam no craque a representação de superação vinda do Sul Global, sentimento que dialogava com a realidade bengalesa pós-guerra.
Televisão consolidou a divisão Brasil x Argentina
A cobertura ao vivo da Copa de 1986 pela Bangladesh Television fortaleceu duas correntes de torcida: Brasil e Argentina. De um lado, a aura criada por Pelé, Zico e o chamado “futebol arte”; do outro, o protagonismo de Diego Maradona contra a Inglaterra, antiga potência colonial na região. Desde então, famílias inteiras se dividem entre as duas seleções e repassam a paixão às novas gerações.
Camisas que mudam de mãos
Jamal Bhuyan, capitão da seleção bengalesa, assistiu a Brasil x Japão no estádio, nos Estados Unidos, e lembrou que sua primeira camisa de futebol, presente do irmão em 1997, trazia o número 9 de Ronaldo. Para ele, a ausência de Bangladesh na Copa explica parte do entusiasmo: “Se tivermos um estádio para 100 mil pessoas, ele lota”, disse.
O estudante Habibur Rahman Akash, 25 anos, de Sylhet, começou a torcer em 2010 influenciado por um tio. Hoje, exibe orgulhoso uniformes de Neymar, Vinicius Junior e Gabriel Martinelli e relata que, em dias de jogo, bairros inteiros penduram bandeiras, organizam telões e promovem carreatas após vitórias.
Imagem: Internet
Rivalidade faz parte da festa
Em Daca, Muhammad Shakib publicou foto tampando o nariz ao segurar uma camisa argentina, gesto que gerou trocas de memes com amigos e até com o próprio irmão, fã da Albiceleste. “É só provocação saudável”, garante.
Torcida ganha vitrine digital
Para mostrar o movimento ao mundo, Arif Islam Rana criou em 1º de junho o perfil “CBF Bangladesh” em redes sociais. O espaço reúne vídeos de canções, bandeiras gigantes e “watch parties” que reúnem centenas de torcedores. O alcance chamou atenção dos jogadores: após a vitória contra o Japão, o goleiro Alisson agradeceu publicamente o apoio vindo do país asiático.
Ainda que separados por fusos horários e mais de 15 mil quilômetros, milhões de bengaleses seguem transformando cada partida do Brasil em um evento nacional, reforçando um laço que atravessa gerações.
Com informações de UOL Esporte