Resumo da Notícia

  • Uma nova falha no Smart Sampa, programa de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo, deixou cerca de 17 mil câmeras de empresas parceiras acessíveis por cinco dias, sem login, sem senha e sem qualquer confirmação de segurança — bastava abrir o link da transmissão no navegador.
  • A brecha estava no código-fonte de um site ligado à Sentinelx, empresa responsável pela plataforma tecnológica do programa: arquivos públicos traziam os endereços dos serviços usados para consultar dados de empresas e câmeras, o que liberava cadastros, documentos de parceiros e os endereços completos das transmissões, hospedadas na nuvem da Monuv.
  • É a segunda exposição de larga escala em duas semanas: em 20 de outubro, 181 logins e senhas vazados abriram acesso a mais de 58 mil câmeras por cerca de 11 meses. A Prefeitura nega que os links estivessem públicos, diz que a lista saiu de uma planilha de auditoria interna da PRODAM e anunciou uma nova investigação.
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Duas semanas depois de um vazamento de senhas expor a maior rede de videomonitoramento do país, o Smart Sampa falhou de novo — e, desta vez, nem senha era preciso. Uma brecha revelada nesta terça-feira (3) deixou cerca de 17 mil câmeras de empresas parceiras da Prefeitura de São Paulo acessíveis por cinco dias: cada link de transmissão abria direto no navegador, fora da plataforma oficial, sem login, sem senha e sem nenhuma confirmação de segurança. As imagens estavam hospedadas na Monuv, empresa que oferece armazenamento em nuvem para câmeras de vigilância, e só saíram do ar na sexta-feira (30), um dia depois de a prefeitura, a operadora da plataforma e a empresa de nuvem serem questionadas sobre o problema.

O episódio é a segunda exposição de larga escala do programa em menos de um mês e reacende o debate sobre até que ponto a cidade está sendo vigiada por um sistema que não consegue vigiar a si mesmo. Entre os pontos alcançados pelas transmissões abertas estavam ruas próximas às residências do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e dos ex-presidentes Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso, além de entradas de clubes paulistanos, como a Hebraica e a Sociedade Hípica Paulista.

Como a nova brecha funcionava

Desta vez, nenhuma senha vazou. O problema estava no código-fonte de um site ligado à Sentinelx, a empresa responsável pela plataforma tecnológica do Smart Sampa. Arquivos disponíveis publicamente na internet traziam os endereços dos serviços que a plataforma usa para buscar dados de empresas e câmeras cadastradas. A partir dessas referências, era possível acessar cadastros, documentos das empresas parceiras e os endereços completos das transmissões — inclusive fora do ambiente fechado do programa.

Especialistas em cibersegurança apontam entre as falhas o chamado IDOR, sigla em inglês para referência direta insegura a objeto: nesse tipo de vulnerabilidade, basta alterar códigos de cadastros ou documentos em endereços de páginas para alcançar informações restritas, porque o sistema não verifica se quem pede tem autorização para ver aquilo. Na prática, a porta não tinha fechadura — tinha apenas um número, e quem mudasse o número entrava na sala seguinte. Os dados das empresas conveniadas alcançados pela brecha são protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O que diz a Prefeitura

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana nega que a lista de links estivesse disponível publicamente na internet. Segundo a gestão municipal, o arquivo é uma planilha de Excel produzida pela PRODAM, a empresa de tecnologia do município, dentro de uma revisão de segurança aberta em 20 de outubro, a pedido do prefeito Ricardo Nunes — justamente a auditoria iniciada depois da primeira falha. Para a prefeitura, o envio desse material à imprensa configurou vazamento ilegal de dados sigilosos, e uma nova investigação foi aberta para apurar o caso, com medidas administrativas e legais.

A administração afirma ainda que o programa segue funcionando normalmente, que não há evidências de ataques externos aos servidores do Smart Sampa e que as mais de 20 mil câmeras próprias do município não constavam da planilha: todas as 17 mil câmeras alcançadas pertencem a empresas parceiras conveniadas, e a prefeitura sustenta que a segurança desses equipamentos cabe às próprias empresas. A Monuv, por sua vez, afirmou manter controles de acesso, autenticação e proteção de dados e das transmissões, e disse que o acesso às câmeras compartilhadas pelo programa segue as especificações de segurança definidas pelo próprio Smart Sampa. A Sentinelx não se manifestou.

Duas falhas, dois problemas diferentes

Embora o resultado seja parecido — câmeras da cidade ao alcance de quem não devia —, as duas brechas têm naturezas opostas. A de 20 de outubro dependia de senha: 181 combinações de login e senha ficaram expostas em um repositório público por cerca de 11 meses, e em vários casos o registro funcional do guarda servia, ao mesmo tempo, como login e como senha. Com essas credenciais, o acesso alcançava mais de 58 mil câmeras, incluindo equipamentos em escolas, hospitais e unidades de saúde, além de dados cadastrais de mais de 6 mil agentes de segurança. O caso levou o Ministério Público de São Paulo a abrir investigação e o Conselho Nacional de Direitos Humanos a recomendar a suspensão do programa.

Depois daquela revelação, a prefeitura anunciou que o acesso ao sistema passou a exigir reconhecimento facial dos operadores — movimento na mesma direção de outras frentes de identificação biométrica no país, como a biometria obrigatória que a Anatel impôs às linhas de celular. A nova falha, porém, contornava qualquer credencial: não havia o que roubar, porque não havia o que digitar. O tempo de exposição também foi menor — cinco dias de acesso verificado, contra cerca de 11 meses da brecha anterior —, mas o suficiente para demonstrar que o problema não era apenas de senhas fracas, e sim de arquitetura.

Um modelo vendido a outras cidades sob questionamento

O peso do episódio vai além da capital paulista. A Sentinelx usa o próprio Smart Sampa como vitrine para vender seu modelo tecnológico a outros municípios, e endereços ligados à empresa carregam nomes como Guarulhos, Campinas, Joinville, Goiânia, Mairiporã e Catanduva. Análises de especialistas sobre informações públicas do programa também encontraram 15 credenciais de acesso ao Smart Sampa em bases de dados vazadas de 2024, 2025 e 2026, capturadas por programas maliciosos que roubam senhas salvas em navegadores — e há registros de que vulnerabilidades do sistema permitiam alcançar até equipamentos de outros municípios a partir de um acesso de São Paulo. Para um dos especialistas ouvidos, concentrar os endereços de acesso sob o mesmo domínio usado para divulgar o produto é um risco em si: se esse domínio for comprometido, todas as câmeras podem ficar comprometidas junto.

O programa é operado pelo consórcio Smart City SP, em um contrato de R$ 588 milhões por cinco anos, com pagamentos mensais de R$ 9,8 milhões; a Sentinelx entrou no grupo em dezembro de 2025, substituindo formalmente a Camerite. Incidentes de segurança em sistemas digitais têm se repetido em escala cada vez maior — no setor financeiro, a Binance chegou a travar saques e depósitos depois de um ataque que congelou bilhões —, mas, no caso de um sistema público de vigilância, o que está em jogo não é dinheiro: são imagens da vida cotidiana de milhões de pessoas, protegidas pela LGPD e pela Constituição.

Segurança pública versus privacidade: o nó que não desata

O Smart Sampa nasceu com a promessa de usar câmeras e reconhecimento facial para localizar foragidos e veículos roubados e dar resposta rápida a ocorrências. A sequência de falhas, no entanto, inverteu a pergunta que a cidade faz sobre o programa: não é mais só “quem o sistema consegue vigiar?”, mas também “quem consegue vigiar o sistema?”. É o mesmo nó que aparece sempre que o poder público amplia a vigilância em nome da segurança — debate que também cerca projetos inspirados no modelo Bukele que esbarram nos limites da Constituição.

Com uma investigação nova aberta pela prefeitura, o escrutínio do Ministério Público sobre a primeira falha e a pressão de órgãos de direitos humanos, o programa entra nas próximas semanas sob o maior nível de cobrança desde a sua criação. A resposta oficial, por enquanto, combina negar a exposição pública dos links, tratar o caso como vazamento criminoso de um documento interno e garantir que o monitoramento segue no ar. Para os moradores das ruas que apareceram nas transmissões abertas — autoridades ou não —, a questão prática continua sem resposta: durante cinco dias, qualquer pessoa com o endereço certo podia assistir, ao vivo, ao que as câmeras viam. E essa já é a segunda vez em duas semanas que São Paulo descobre isso depois do fato.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.