A poucos meses do primeiro turno, analistas de relações internacionais, tecnologia da informação e geopolítica veem sinais de que os Estados Unidos podem acionar grandes empresas de tecnologia para influenciar o resultado das urnas no Brasil. O alerta ganhou força depois que o presidente Donald Trump assinou, na semana passada, um memorando que autoriza a Casa Branca a recorrer a companhias privadas em operações de vigilância, espionagem digital e sabotagem de sistemas de terceiros.
Para os especialistas consultados, a medida amplia o risco de invasões em redes governamentais brasileiras, criação de dossiês sobre eleitores e impulsionamento subterrâneo de perfis em redes sociais, estratégias capazes de desmoralizar candidatos, distorcer pautas de campanha ou até desacreditar o sistema eletrônico de votação.
Memorando abre brecha inédita para ações de hacking
O documento assinado por Trump em 12 de agosto autoriza, entre outras ações, o acesso “sem autorização do proprietário ou operador” a sistemas de informação no exterior. Também libera a chamada “Operação de Efeitos Cibernéticos”, que pode envolver manipulação, interrupção ou destruição de infraestruturas físicas e virtuais. Segundo Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, o texto inaugura um grau de permissividade que coloca qualquer servidor, banco de dados ou aplicativo brasileiro sob potencial vigilância de órgãos dos EUA e de suas parceiras do setor de tecnologia.
“Falamos de espionagem em altíssimo nível. As empresas podem entrar no perfil de qualquer pessoa, coletar informações e elaborar relatórios que favoreçam ou prejudiquem candidaturas”, observa Aragon, que também edita o portal Código Aberto.
Histórico recente de tensões
Desde o início do segundo mandato de Trump, medidas consideradas hostis contra Brasília se acumulam: tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, cancelamento de vistos de autoridades e, em julho, a tentativa de envio de dois funcionários do Departamento de Estado com suposta missão de “auditar” o processo eleitoral. O Itamaraty barrou a viagem, mas o episódio reforçou a leitura de que Washington pretende questionar a integridade das urnas eletrônicas se o resultado contrariar seus interesses.
Big techs como braços operacionais
Para Euclides Vasconcelos, professor de história e pesquisador de geopolítica, gigantes digitais não são apenas “plataformas neutras”. “Essas corporações mantêm vínculos estreitos com agências de segurança dos EUA e conseguem direcionar conteúdo a grupos demográficos específicos”, explica. A nomeação, em 2025, de executivos da Meta, da OpenIA e da Palantir ao posto de tenente-coronel do recém-criado Destacamento 201 do Exército norte-americano ilustra, segundo ele, a simbiose entre governo e setor privado em assuntos de defesa.
Vasconcelos lembra ainda o episódio de 2024, quando mais de 60 mil marroquinos atravessaram a fronteira para o enclave espanhol de Ceuta após boatos falsos sobre políticas migratórias da Espanha circularem em redes sociais. “É a prova de como rumores fabricados online podem produzir efeitos imediatos no mundo real”, afirma.
Disputa narrativa sobre a urna eletrônica
No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já demonstrou, em sessões públicas, os mecanismos de segurança da urna usada em 2026. Ainda assim, especialistas temem que campanhas de desinformação nas redes ressuscitem dúvidas infundadas sobre fraude. “O objetivo não é necessariamente invadir o sistema: basta semear incerteza para deslegitimar o resultado”, avalia Aragon.
Nova doutrina de segurança mira América Latina
A preocupação cresce porque a Casa Branca apresentou, em dezembro de 2025, uma doutrina que define a “proeminência incontestável” dos EUA na América Latina como prioridade estratégica. Analistas consideram o Brasil peça central desse tabuleiro. Manifestação recente do próprio Trump classificou a eleição de outubro como “teste decisivo” para a hegemonia de Washington no continente.
Segundo Vasconcelos, a interferência eleitoral na Colômbia, no ano passado, sinaliza o método: “Lá houve pressão diplomática, disparo de fake news e oferta de cooperação militar. Aqui não será diferente, mas com peso maior no front cibernético, pois o Brasil tem capacidade de contestar a influência dos EUA”.
Infraestrutura crítica sob risco
Boa parte dos sistemas sensíveis do Estado brasileiro — de cadastros fiscais a bancos de dados de saúde — roda em nuvens hospedadas por empresas norte-americanas. Aragon defende que o país invista em infraestrutura própria para reduzir a superfície de ataque. “Se Washington decidir sabotar ou exigir dados desses provedores, o governo brasileiro pouco poderá fazer”, alerta.
Possíveis caminhos de proteção
Enquanto iniciativas de soberania digital avançam lentamente no Congresso, órgãos responsáveis pela cibersegurança, como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e a Polícia Federal, elaboram protocolos de detecção de interferência estrangeira. Técnicos avaliam criar salas de situação com monitoramento em tempo real de redes sociais, além de ampliar testes de integridade nas urnas.
Especialistas, porém, lembram que o maior desafio é político. “Quando uma potência decide minar a confiança numa eleição, não há firewall que segure. É preciso comunicação transparente e rápida, capaz de neutralizar narrativas antes que viralizem”, pondera Vasconcelos.
O que pode acontecer até outubro
- Responsive data mining: coleta automatizada de dados de eleitores nas redes para criação de perfis psicográficos.
- Micro-segmentação de anúncios: distribuição de propaganda política segmentada, muitas vezes sem identificação do patrocinador.
- Choque de infraestrutura: tentativas de derrubar sites oficiais ou atrasar a divulgação de boletins de urna, gerando especulação.
- Campanhas de descrédito: difusão de teorias conspiratórias que ligam candidatos a fraudes imaginárias ou interesses estrangeiros adversários.
- Exfiltração de dados sensíveis: uso de brechas em provedores para acessar e vazar informações confidenciais de autoridades brasileiras.
Capacidade de resposta brasileira
O TSE reforçou seu programa de transparência: até setembro haverá nova bateria pública de testes nas urnas, com participação de universidades e entidades independentes. Já o GSI promete ampliar a cooperação com centros de defesa cibernética de países parceiros fora do eixo Washington-Silicon Valley, como França e Índia.
Apesar dessas ações, Aragon aponta que o principal gargalo continua sendo o domínio estrangeiro sobre ferramentas de busca, redes sociais e serviços de nuvem utilizados diariamente por milhões de brasileiros. “Enquanto não houver plataforma nacional competitiva, ficamos dependentes de políticas de moderação definidas a sete mil quilômetros de distância”, diz.
No horizonte, disputa pela narrativa eleitoral
Seja por meio de hackers ou da manipulação algorítmica de conteúdo, a avaliação dominante entre os pesquisadores ouvidos é que a eleição de 2026 deve ser travada também no campo invisível dos dados. O resultado nas urnas físicas pode depender, em parte, de batalhas digitais travadas em servidores escondidos em data centers fora do país. E, para muitos, isso recoloca a soberania informacional como tema urgente da agenda nacional.