Canadá define data para sobretaxar produtos dos EUA e promete resposta “proporcional” às tarifas de Trump

0

Ottawa marcou para 8 de setembro o início de uma lista de tarifas de retaliação contra os Estados Unidos, depois que o presidente Donald Trump elevou para 50% as cobranças sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses. O governo comandado pelo primeiro-ministro Mark Carney divulgará detalhadamente, nesta terça-feira (25/8), quais mercadorias norte-americanas serão alvo da nova rodada de impostos e quais ações internas tentarão blindar empregos e fábricas no país.

A decisão aprofunda o atrito comercial entre dois dos parceiros mais integrados do mundo. Dirigentes canadenses classificam a medida de Washington como “pressão política” e prometem revidar “na mesma moeda”, ao mesmo tempo em que mantêm a porta aberta para retomar as negociações que fracassaram nas últimas semanas.

Fracasso das conversas acende o pavio

As delegações dos dois países passaram meses tentando redesenhar o regime de trocas bilaterais e aliviar sobretaxas que vinham atingindo aço, alumínio, madeira e automóveis. O diálogo naufragou quando a Casa Branca apresentou novas exigências consideradas, por Ottawa, uma ameaça direta à autonomia canadense em tratados futuros. Horas depois do impasse, Trump assinou a ampliação das tarifas, atingindo bebidas, laticínios, móveis, equipamentos esportivos, tecidos, papel e aparelhos eletrônicos.

Alguns produtos estratégicos — energia, potássio e pescado — ficaram fora da lista norte-americana, mas o impacto estimado sobre exportadores do Canadá superou imediatamente os US$ 20 bilhões por ano. Para Carney, “a única resposta possível é a proporcionalidade”, argumento que embasa a lista de retaliações a ser detalhada pelo Ministério das Finanças em conjunto com as pastas de Indústria e Trabalho.

Setor automotivo sente o primeiro baque

O anúncio de que as tarifas sobre carros, caminhões e peças fabricados no Canadá poderão chegar a 50% a partir de janeiro de 2027 disparou alertas em ambos os lados da fronteira. Montadoras e sindicatos lembram que a cadeia de montagem de um veículo atravessa várias vezes os dois países antes da conclusão, o que multiplica custos e ameaça competitividade. Analistas projetam que, mantido o ritmo de escalada, milhares de empregos e novos investimentos podem ser suspensos na região conhecida como corredor automotivo do Meio-Oeste.

Estratégia de Ottawa para rebater Washington

Embora a resposta principal seja o espelho das tarifas de Trump, o governo canadense estuda formas adicionais de pressionar sem provocar um efeito bumerangue na própria economia. Entre elas está a possibilidade de limitar a exportação de eletricidade e de minerais considerados críticos pela indústria dos EUA. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, sugeriu recorrer a essa alavanca, mas a proposta ainda divide o gabinete porque afeta setores que dependem da venda à potência vizinha.

Energia e minerais entram na disputa

A relação energética entre os dois países é simbiótica: províncias canadenses abastecem parte significativa do nordeste norte-americano com eletricidade, enquanto refinarias dos EUA processam petróleo vindo de Alberta. Alterar esse fluxo exigiria estudos de impacto e poderia encarecer a conta de luz de consumidores canadenses, risco que o Ministério de Recursos Naturais tenta mapear antes de qualquer anúncio.

Pacote de apoio a indústrias e trabalhadores

O governo federal também prepara subsídios, linhas de crédito e programas de qualificação para empresas atingidas. Ao menos três frentes estão em discussão: compensação a indústrias exportadoras, proteção a pequenas empresas que dependem de insumos norte-americanos e um fundo de transição para trabalhadores demitidos. Segundo interlocutores do Ministério do Trabalho, a ideia é impedir que a retaliação gere um ciclo de perda de postos de trabalho que acabe minando o apoio interno à própria estratégia de Ottawa.

De aliados históricos a rivais comerciais

Canadá e Estados Unidos movimentam diariamente cerca de US$ 1,7 bilhão em mercadorias, o que faz da fronteira compartilhada uma das mais importantes rotas de comércio do planeta. A recente escalada, porém, revelou fragilidades em uma relação que sempre alternou cooperação e disputas pontuais. Para Mark Carney, Washington passou a usar o peso do mercado norte-americano como ferramenta de pressão política, o que torna “urgente diversificar parceiros” e reduzir a dependência econômica do vizinho.

Mesmo com o clima azedo, autoridades canadenses garantem que as portas para um acordo continuam abertas. A expectativa em Ottawa é combinar retaliação e proteção interna enquanto se observa a reação da Casa Branca. Caso a resposta de Trump venha em novo aumento de tarifas, o Canadá sinaliza que poderá ampliar a lista de produtos retaliados, incluindo setores sensíveis como agricultura e aeronaves regionais.

Cenários possíveis

Economistas ouvidos pela imprensa canadense calculam que, se a espiral tarifária avançar até 2027, o Produto Interno Bruto do país pode perder até 0,5 ponto percentual por ano. Nos Estados Unidos, onde diversas empresas dependem de peças, minerais e eletricidade vindos do norte, os custos de produção também tendem a subir. A principal incógnita é quanto tempo cada lado está disposto a suportar o desgaste sem comprometer a própria recuperação econômica pós-pandemia.

Por ora, a data decisiva é 8 de setembro. A partir daí, consumidores norte-americanos verão aumentos imediatos em uma série de itens importados do Canadá, enquanto as fábricas canadenses tentarão se adaptar ao novo ambiente — amparadas, prometem os ministros, por um escudo fiscal e político “à altura do desafio” imposto por Washington.

Share.
Avatar

Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.