Dois meses após entrar em operação, o programa Move Motoristas aprovou R$ 3,55 bilhões em financiamentos para taxistas e motoristas de aplicativo, apenas 11% dos R$ 30 bilhões reservados pelo governo federal. Ao todo, 34.615 profissionais já conseguiram crédito, mas o Ministério da Fazenda admite que a adesão ficou aquém do planejado e negocia ajustes com os bancos para acelerar a procura.
Mesmo com o ritmo abaixo da meta, o montante liberado até agora é considerado “razoavelmente satisfatório”, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan. O programa, operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), alcançou quase 1,8 mil municípios e tem registrado mais de mil contratos aprovados por dia.
Por dentro dos números
Os R$ 3,55 bilhões concedidos correspondem a tíquete médio de R$ 103 mil por operação. Entre os contemplados, 1.910 são mulheres, que somam R$ 189 milhões em financiamentos. De acordo com o BNDES, a velocidade de aprovação praticamente dobrou entre julho e agosto: o volume semanal saltou de cerca de R$ 300 milhões para R$ 700 milhões.
Apesar desse avanço, o percentual de 11% sobre o total disponível evidencia que a linha de crédito ainda não deslanchou como se imaginava. Os principais motivos apontados nos bastidores são a adaptação tecnológica das instituições financeiras, a necessidade de criar novos fluxos de análise de risco para um público sem histórico empresarial e o receio, por parte dos motoristas, de contrair dívidas de longo prazo.
O que muda para o motorista
O Move Motoristas foi desenhado para facilitar a compra de veículos zero quilômetro por profissionais cadastrados em aplicativos de transporte ou cooperativas de táxi. A iniciativa oferece condições especiais:
- Taxas de juros de até 0,99% ao mês para homens e até 0,91% ao mês para mulheres;
- Prazo de pagamento de até 72 meses, com carência de seis meses para iniciar a amortização;
- Dispensa de tarifas adicionais de cadastro em bancos ou concessionárias, conforme regra do Conselho Monetário Nacional.
Para ter acesso ao crédito, é preciso cumprir alguns requisitos: estar há pelo menos 12 meses ativo na plataforma, ter realizado o número mínimo de corridas estipulado pelo programa, possuir autorização municipal (no caso de taxistas) ou integrar cooperativa regularizada. O valor financiado está limitado a carros de até R$ 150 mil.
Modelos elegíveis e foco em sustentabilidade
A lista de veículos que se enquadram nas regras inclui hatches populares como Fiat Argo, Chevrolet Onix e Hyundai HB20; sedãs de entrada, a exemplo de Nissan Versa e Toyota Yaris Sedan; além de SUVs como Volkswagen T-Cross e Hyundai Creta. Há ainda espaço para híbridos e elétricos – BYD Dolphin, GWM Ora 03 e Toyota Corolla Hybrid, entre outros – alinhados à estratégia industrial do governo de incentivar a produção nacional de veículos de menor emissão.
Com isso, o Executivo espera modernizar a frota usada no transporte individual, reduzir custos de manutenção e consumo de combustível para os motoristas e, de quebra, estimular a indústria automotiva a produzir modelos mais eficientes no país.
Meta de alcançar mais de 1 milhão de trabalhadores
A equipe econômica calcula que mais de 1 milhão de profissionais poderão se beneficiar da linha, que hoje já responde por quase metade dos financiamentos de veículos novos no Brasil, de acordo com o BNDES. A instituição aposta que o ritmo de contratação crescerá assim que mais bancos concluírem suas adequações tecnológicas e ampliarem a oferta em regiões onde a demanda ainda é baixa.
Desafios para ganhar tração
O principal obstáculo identificado pelo governo é a disposição das instituições financeiras em conceder crédito a um público que, na maioria das vezes, não possui histórico formal de renda. Para minimizar esse risco, o BNDES montou um modelo de garantias voltado ao segmento: parte do financiamento é lastreada por fundo garantidor e há regras claras de retomada do veículo em caso de inadimplência.
Em paralelo, as plataformas de transporte colaboram compartilhando dados de desempenho dos motoristas – como número de corridas e avaliações de clientes – a fim de compor a análise de crédito. Mesmo assim, executivos do setor relatam que muitos condutores ainda têm dúvidas sobre a burocracia, temem comprometer receita futura e encontram dificuldades para reunir documentação.
Interlocução com bancos e possíveis ajustes
Dario Durigan tem reiterado que a Fazenda está conversando com bancos públicos e privados para simplificar processos e calibrar metas. Uma das ideias em discussão passa por ampliar o canal digital de contratação, reduzindo etapas presenciais em agências, e por oferecer capacitação financeira aos motoristas, de modo que eles compreendam custos reais da operação antes de assinar o contrato.
Outra possibilidade é flexibilizar o teto de R$ 150 mil, caso a inflação de automóveis continue a subir, e revisar o número mínimo de corridas exigido para os aplicativos, medida reivindicada por entidades de classe que representam condutores em pequenas cidades.
Impacto regional e expectativa de expansão
Até o momento, o programa se espalhou por capitais e grandes centros, mas começa a ganhar terreno em municípios de médio porte, sobretudo no interior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. A cobertura de quase 1,8 mil cidades indica, segundo o BNDES, que o crédito alcança um universo de empreendedores para além das metrópoles, onde a renovação da frota é mais urgente.
Nos estados do Norte e do Nordeste, a adesão ainda é modesta. A meta da equipe econômica é, justamente, reforçar a presença do Move Motoristas nessas regiões, aproveitando a interiorização das concessionárias e das cooperativas. Para isso, o banco de fomento aposta em parcerias com fintechs e bancos regionais, que costumam ter maior capilaridade local.
Próximos passos
A perspectiva é que, nos próximos meses, a curva de contratação se acelere à medida que os gargalos operacionais sejam resolvidos. Se a velocidade de aprovação mantiver a marca de R$ 700 milhões por semana, o volume liberado pode dobrar até o fim do ano, chegando a algo perto de R$ 10 bilhões, ainda longe do teto de R$ 30 bilhões, mas suficiente para renovar a frota de cerca de 100 mil veículos.
Para o governo, cada real aplicado no Move Motoristas tem efeito duplo: fomenta a indústria automotiva nacional – responsável por 20% do PIB industrial – e fortalece a rede de prestação de serviço de transporte individual, setor que cresceu exponencialmente na última década e hoje emprega formal ou informalmente mais de 1,5 milhão de brasileiros.
Olho na segurança e na renda
A modernização dos carros tende a elevar padrões de segurança viária, reduzir emissões de poluentes e aumentar a renda do condutor, já que veículos novos exigem menos manutenção e costumam ser mais econômicos. Especialistas estimam ganho médio de 10% a 15% na lucratividade mensal do motorista que troca um carro com mais de oito anos de uso por um modelo zero quilômetro.
O sucesso do programa, no entanto, dependerá da capacidade de conciliar juros atraentes, agilidade de aprovação e divulgação eficaz. Se esses elementos se alinharam, o Move Motoristas pode transformar o cenário do transporte por aplicativo e táxi no país, dando fôlego novo a trabalhadores e fabricantes.