Um vídeo divulgado pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, desencadeou indignação global ao retratar, por meio de inteligência artificial, palestinos emagrecendo numa esteira que leva a uma prisão israelense. A peça de propaganda, retirada do ar poucas horas depois, exibe o slogan “Nós prometemos e cumprimos” e foi associada por críticos às imagens de campos de concentração nazistas.
O material publicitário integra a campanha de Ben-Gvir ao Knesset nas eleições marcadas para outubro e reforça uma plataforma que defende o endurecimento nas cadeias — setor administrado diretamente por seu ministério. Diversas organizações de direitos humanos classificaram o vídeo como apologia à tortura e pediram investigação imediata.
Comparação a campos nazistas provoca reação imediata
Na gravação, prisioneiros palestinos entram em fila sobre uma esteira mecânica, atravessam portões grafados com a bandeira de Israel e surgem do outro lado visivelmente mais magros, sob aplausos virtuais. A estética lembrando cinematografia em preto-e-branco e a repetição de close-ups nos corpos famélicos levaram especialistas em comunicação a comparar o material à propaganda usada pelo regime nazista para desumanizar judeus em Auschwitz.
Diplomatas europeus classificaram a iniciativa como “desprezível” e alertaram que Israel viola convenções internacionais ao celebrar condições degradantes em presídios. Parlamentares da oposição israelense também criticaram o ministro, enquanto apoiadores de Ben-Gvir defenderam o conteúdo como “humor político”.
Vídeo foi apagado, mas cópias circulam
Após repercussão negativa, o ministro removeu a publicação de todas as redes, porém capturas de tela e reuploads permanecem ativos em fóruns palestinos e em plataformas de monitoramento de discurso de ódio. O gabinete de Ben-Gvir não emitiu retratação; assessores disseram apenas que a peça “cumpriu seu objetivo comunicacional”.
Piora deliberada nas cadeias é bandeira eleitoral
O endurecimento das condições carcerárias para palestinos vem sendo alardeado por Ben-Gvir desde que assumiu a pasta, em dezembro de 2022. No último domingo (30), ele já havia divulgado outro vídeo, filmado durante visita a uma prisão feminina. Diante das queixas de detentas — três dias sem banho, falta de atendimento médico e roupas sujas — o ministro responde: “Estou satisfeito com essas condições”.
Aliados do político sustentam que o desconforto dos prisioneiros serve como elemento dissuasivo contra novos ataques. Entidades civis, porém, recordam que grande parte das detidas não recebeu julgamento definitivo e que, conforme estatísticas de organizações israelenses de direitos humanos, 96% a 99% dos réus palestinos acabam condenados em cortes militares.
Sistema legal de dois pesos e duas medidas
Desde 1967, moradores palestinos da Cisjordânia são submetidos à lei militar israelense, enquanto colonos judeus que vivem nos mesmos territórios respondem à Justiça civil de Israel. Na prática, pessoas que cometem a mesma infração, no mesmo local, enfrentam sistemas judiciais distintos. Essa disparidade tem sido denunciada por instituições como a B’Tselem, que aponta taxa de quase 100% de condenação para palestinos.
Pena de morte por enforcamento e símbolo da forca
Em março, o Knesset aprovou, por 62 votos a 48, um projeto impulsionado por Ben-Gvir que introduz a pena de morte por enforcamento para palestinos considerados culpados de ataques letais. Na sessão que selou a votação, o ministro estourou garrafa de espumante no plenário e posou para fotos usando um broche em forma de forca — acessório que ele repete em aparições públicas e até em seu bolo de 50 anos.
Críticos afirmam que a nova lei viola tratados internacionais ratificados por Israel. Defensores da medida alegam que a execução de “terroristas” impediria futuros atos de violência.
Ascensão política de uma figura da extrema direita
Ben-Gvir, filho de judeus iraquianos laicos, aderiu ainda adolescente ao kahanismo, ideologia ultra-nacionalista que prega a expulsão total dos palestinos e a anexação completa da Cisjordânia, Gaza, Colinas de Golã e Jerusalém Oriental. Sua popularidade cresceu em manifestações de colonos e, em 2022, Benjamin Netanyahu o convidou para compor a coalizão de governo, oferecendo-lhe o controle da Segurança Nacional.
Com a proximidade do pleito de outubro, o ministro tem intensificado discursos que associam segurança pública a medidas punitivas radicais contra a população palestina. Analistas veem a estratégia como tentativa de galvanizar o eleitorado da extrema direita, insatisfeito com a estagnação do processo de anexação dos territórios ocupados.
Assentamentos e política de terra arrasada
Além das prisões, Ben-Gvir é defensor declarado da expansão de assentamentos considerados ilegais pela ONU. Ele comparece com frequência a inaugurações de novos blocos habitacionais, onde costuma prometer “soberania plena de Israel” sobre toda a região. A postura tensiona ainda mais a convivência entre colonos armados e agricultores palestinos, alvo recorrente de despejos.
Críticas de organizações de direitos humanos
ONGs palestinas e israelenses protocolaram pedido ao Tribunal Penal Internacional para que investigue o ministro por “incitação sistemática à violação de direitos fundamentais”. Segundo as entidades, o vídeo retirado do ar comprova a intenção deliberada de provocar fome, considerada forma de tortura pela Convenção de Genebra.
Em comunicado conjunto, Human Rights Watch e Anistia Internacional afirmaram que “celebrar publicamente o enfraquecimento físico de prisioneiros constitui discurso de ódio” e solicitaram que a comunidade internacional pressione o governo israelense a suspender imediatamente políticas que coloquem em risco a vida de detentos.
Resposta do governo Netanyahu
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não comentou o episódio de maneira direta. Fontes do gabinete disseram apenas que “o tema prisional é prerrogativa do Ministério da Segurança Nacional”. Analistas enxergam o silêncio como sinal de dependência política: sem os 14 assentos da legenda de Ben-Gvir, a coalizão governista perderia maioria no Parlamento.
Eleições de outubro sob tensão
A cinco semanas das urnas, pesquisas internas indicam avanço dos partidos ultranacionalistas, que podem chegar a um quarto do Knesset. A oposição de centro-esquerda tenta transformar o vídeo da esteira em símbolo do que chama de “barbárie oficializada”, mas enfrenta dificuldade para mobilizar eleitores que priorizam segurança.
Especialistas avaliam que, mesmo se não ampliar bancadas, a extrema direita já impôs sua agenda ao debate público. O destino dos presos palestinos, agora tema central, pode influenciar negociações futuras com parceiros regionais e afetar diretamente a política externa de Israel.