Mais de 1,1 mil mortos e quase 4 mil desaparecidos após enchentes no Nepal e Tibete

0

Equipes de resgate percorrem há uma semana vales devastados do Himalaia em busca de sobreviventes e corpos após as enchentes que começaram em 26 de agosto. O balanço oficial divulgado nesta quarta-feira (2) aponta 1.118 mortos e mais de 3.900 desaparecidos no Nepal, enquanto do lado chinês, no Tibete, são 16 vítimas fatais e 546 pessoas que ainda não foram encontradas. A tragédia, desencadeada pelo colapso de uma geleira, atingiu aldeias inteiras, destruiu pontes, cortou estradas e espalhou lama e pedras por centenas de quilômetros.

Em meio ao cenário desolador há relatos de pequenos milagres. Pelo menos dez estrangeiros que constavam na lista de desaparecidos conseguiram fazer contato nos últimos dias, reduzindo para 590 o número de turistas de 39 países ainda procurados. A lista inclui 38 australianos, depois que cinco compatriotas foram localizados com vida, segundo o primeiro-ministro Anthony Albanese.

Balanço de vítimas e estrangeiros afetados

O Ministério das Relações Exteriores do Nepal confirmou o resgate de 324 estrangeiros desde o início da crise. Entre os que continuam sem notícias há mochileiros que percorriam trilhas populares do Himalaia, grupos de montanhistas e trabalhadores humanitários.

As autoridades nepalesas admitem que o número de desaparecidos pode ser ainda maior, já que nem todos os moradores de vilarejos remotos estavam registrados em cadastros oficiais. A comunicação por telefone e internet segue instável em vários distritos, complicando o cruzamento de informações.

Austrália relata avanços nas buscas

Falando a jornalistas durante uma cúpula no arquipélago de Palau, Albanese comemorou a notícia de que cinco australianos se encontravam em segurança. “Em meio a tanta dor, são sinais alentadores. Continuaremos colaborando com Katmandu para localizar todos os nossos cidadãos”, afirmou.

Autoridades consulares de outros países, entre eles Alemanha, Índia e Estados Unidos, montaram escritórios improvisados no aeroporto de Katmandu para agilizar a emissão de documentos e organizar voos de repatriação de turistas resgatados.

Operação de resgate ganha reforço no Tibete

Do lado chinês, soldados e engenheiros terminaram de abrir, em Gyirong, uma estrada provisória que permite a passagem de máquinas pesadas até a área mais afetada. O acesso original foi destruído pela enxurrada, que também levou parte do posto fronteiriço. A emissora estatal CCTV mostrou frentes de trabalho retirando blocos de rocha e troncos de árvores que obstruíam o caminho.

A China, que contabiliza 16 mortos confirmados, mantém mais de 3.000 militares mobilizados. Entre as 546 pessoas dadas como desaparecidas estão residentes locais e negociantes que faziam a rota comercial entre Tibete e Nepal.

Como a tragédia começou

Especialistas do Centro de Monitoramento de Desastres do Nepal explicam que o gatilho foi o desprendimento de parte de uma geleira numa encosta a mais de 5.000 metros de altitude. O bloco de gelo, misturado a rochas, rompeu-se após dias de chuvas intensas, criando um fluxo devastador que ganhou velocidade nos vales estreitos.

Quando alcançou rios que cruzam os dois países, a massa de água elevou o nível dos cursos d’água em poucos minutos. Aldeias ribeirinhas foram surpreendidas de madrugada, sem tempo para evacuar. Estradas, hidrelétricas em construção e pontes pênseis ruíram diante da força da correnteza.

Avalanche de lama filmada e censurada

Imagens feitas por moradores e compartilhadas nas redes sociais mostravam paredes de lama descendo montanhas do Tibete. Muitos desses vídeos foram rapidamente removidos em plataformas chinesas, segundo grupos de direitos digitais, mas já circulavam entre socorristas no Nepal e ajudaram a mapear áreas críticas.

Sobreviventes buscam abrigo em Katmandu

Centenas de pessoas fugiram das zonas destruídas para a capital nepalesa. Na colina de Swoyambhu, o mosteiro Yellow Gumba abriga cerca de 400 desabrigados – a maioria moradores da cidade de Timure, 110 quilômetros a oeste. Ali, voluntários budistas distribuem refeições e roupas, mantidos por doações de cidadãos e ONGs internacionais.

Entre os refugiados está Riya Tamang, 21 anos, que correu contra o tempo para salvar o filho de dez meses. “Fui a última a sair; quando olhei para trás, nossa casa já estava sendo levada”, recorda. Ela perdeu os avós na enxurrada. O marido, cozinheiro em Gyirong, no lado chinês, sobreviveu e agora fala com a família por videochamadas, ainda sem data para reencontro.

Desafios logísticos e sanitários

Analistas do governo nepales afirmam que a recuperação de corpos virou corrida contra o tempo por causa do risco de doenças. A alta temperatura diurna acelera a decomposição, e há temor de contaminação de fontes de água. Equipes de saúde aplicam vacinas contra tétano e hepatite A nos abrigos de Katmandu.

O Exército do Nepal instalou pontes metálicas temporárias e utiliza helicópteros para levar suprimentos a vilarejos isolados. No entanto, o clima instável e a altitude dificultam voos de resgate. Muitos trechos de trilhas populares, como a rota Langtang, permanecem interditados por risco de novos deslizamentos.

Reação internacional e ajuda humanitária

Organizações como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras enviaram equipes médicas, kits de purificação de água e tendas. A União Europeia liberou 2,5 milhões de euros em ajuda de emergência, enquanto os Estados Unidos anunciaram que redirecionarão fundos destinados a projetos de desenvolvimento para ações imediatas de socorro.

O governo do Nepal fez apelo por helicópteros adicionais e sistemas de radar portáteis que auxiliem na detecção de bolsões de gelo instáveis. “Precisamos prevenir novos colapsos glaciares antes que o próximo período de chuvas comece”, disse Bhim Prasad Upadhyaya, secretário do Ministério do Interior.

Perspectivas para as próximas semanas

Os serviços meteorológicos preveem precipitação moderada na região do Himalaia nos próximos dez dias. Embora inferior ao volume que precedeu a tragédia, qualquer chuva pode desestabilizar terrenos já encharcados. Autoridades pedem que moradores de áreas de risco aceitem ordens de evacuação sem esperar novas sirenes.

Enquanto isso, famílias aglomeram-se diante de murais improvisados pela polícia em Katmandu, onde são afixadas fotos de corpos recuperados. Cada identificação bem-sucedida encerra um capítulo de angústia, mas o número de retratos sem nome cresce a cada dia, lembrando que o pior desastre natural no Nepal desde o terremoto de 2015 ainda está longe de ser superado.

Share.
Avatar

Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.