Berlim investiga segunda sabotagem à rede elétrica em 24 horas e eleva alerta para guerra híbrida

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Dois ataques quase simultâneos à rede elétrica da Alemanha acenderam o sinal de alerta do governo para o risco de uma ofensiva de “guerra híbrida” em território europeu. Em menos de 24 horas, subestações no oeste e no leste do país sofreram ações de sabotagem que, embora não tenham provocado blecautes, interromperam momentaneamente até 4,2 GW de capacidade de geração.

Os incidentes ocorreram às vésperas de eleições estaduais que podem levar o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), simpático ao Kremlin, ao comando de um dos Länder do leste. Autoridades federais e dos estados afetados suspeitam de envolvimento russo, hipótese reforçada por uma tentativa anterior de ataque com drone contra um aeroporto de carga.

Dois incidentes em lados opostos do país

O primeiro episódio foi registrado na tarde de terça-feira, perto de Bergheim, na Renânia do Norte-Vestfália, região com alta densidade industrial. A polícia classificou a ação como “vandalismo premeditado” após encontrar indícios de interferência humana nos sistemas de controle de uma subestação. De acordo com a Amprion, operadora do trecho afetado, a manobra tirou de operação cinco unidades termelétricas a lignito pertencentes ao grupo RWE, somando 4.200 MW. Uma delas, de 600 MW, voltou a produzir poucas horas depois, evitando impacto no suprimento domiciliar e industrial.

Horas mais tarde, técnicos identificaram danos semelhantes em linhas de transmissão de alta tensão no estado de Brandemburgo, a leste de Berlim. Dispositivos metálicos foram colocados sobre cabos para provocar curto-circuito. O ministro do Interior estadual, Jan Redmann, afirmou que ainda é cedo para conclusões, mas vê “padrões operacionais coincidentes” entre os dois ataques.

Suspeitas recaem sobre Moscou

A possibilidade de ação coordenada externa ganhou força porque, um dia antes, o governo federal tornara público o resultado de uma investigação sobre um ataque com drone ao aeroporto de Leipzig/Halle, em agosto. Berlim concluiu que o alvo era um avião de carga ucraniano e responsabilizou diretamente a Rússia. A alta representante da União Europeia, Kaja Kallas, classificou o caso como “ato de terrorismo patrocinado por Estado”. Moscou nega qualquer participação, mas diplomatas europeus veem coincidência inquietante entre o método do drone e as ofensivas contra a infraestrutura energética.

Parlamentares do Bundestag lembram que o Kremlin tem histórico de combinar operações militares convencionais com sabotagens, ataques cibernéticos e campanhas de desinformação — tática conhecida como guerra híbrida. O presidente da Comissão de Assuntos Internos, Alexander Throm, considera “extremamente suspeito” o aumento de incidentes na mesma semana em que os alemães vão às urnas em Saxônia-Anhalt.

Impacto limitado, mas estratégico

Apesar de não haver registros de interrupção no fornecimento residencial, o corte temporário de 4,2 GW equivale a quase 5% da capacidade instalada alemã. Especialistas notam que o alvo escolhido — usinas a lignito, responsáveis por estabilizar a rede quando a geração renovável varia — é crítico para a segurança energética. O CEO da E.ON, Leonhard Birnbaum, lembra que a arquitetura descentralizada da malha elétrica dificulta vigilância permanente: “Podemos elevar as barreiras para invasores, mas nunca alcançar blindagem absoluta”.

O Ministério do Interior estuda ampliar o patrulhamento em subestações, reforçar cercas eletrificadas e instalar sistemas de detecção de intrusos. Também avalia a criação de uma força-tarefa nacional que envolva operadores privados, polícia federal e serviços de inteligência. Empresas, porém, alertam para o custo: a Amprion estima que proteger fisicamente cada ponto sensível pode adicionar bilhões de euros à conta de luz.

Clima político inflamado às vésperas da eleição

O timing dos ataques adiciona tensão a uma campanha dominada pela questão energética e pela guerra na Ucrânia. Pesquisas dão vantagem à AfD em Saxônia-Anhalt, estado onde o partido obtém parte de seu capital político criticando as sanções impostas a Moscou e defendendo a retomada imediata das importações de gás russo. Antes da invasão de 2022, a Alemanha dependia de combustíveis fósseis russos para quase metade de seu consumo de gás natural.

Se a legenda conquistar o governo estadual, ampliará sua influência sobre empresas locais de distribuição e sobre o debate nacional acerca do apoio militar a Kiev. Líderes governistas temem que novos atos de sabotagem sejam usados como arma eleitoral, seja para demonstrar a vulnerabilidade atual, seja para culpar a política externa pró-Ucrânia pelos ataques.

Resposta oficial ganha contornos de urgência

Investigação conjunta

A Procuradoria Federal e a Polícia Criminal (BKA) abriram inquérito unificado para os dois eventos, com participação dos serviços de inteligência interno (BfV) e externo (BND). Peritos buscam DNA, rastros digitais e analisam imagens de câmeras de monitoramento instaladas após ataques de 2024 à fábrica da Tesla, também em Brandemburgo. Até agora, nenhuma organização reivindicou autoria.

Cooperação europeia

Bruxelas pediu que os Estados-membros troquem dados em tempo real sobre eventos contra infraestrutura crítica. A Comissão Europeia avalia liberar recursos do Fundo de Resiliência para bancar sensores, drones de patrulha e equipes de resposta rápida que possam ser deslocadas entre países. A iniciativa espelha o modelo de proteção aos cabos submarinos adotado após explosões no gasoduto Nord Stream, em 2022.

Ameaça constante

Analistas de segurança lembram que centrais elétricas figuram no topo das prioridades de quem busca desestabilizar um país desenvolvido: um corte de energia planejado pode travar sistemas de transporte, hospitais e comunicações. O Instituto Alemão para Assuntos Internacionais calcula que um blecaute de 24 horas custaria ao país 8 bilhões de euros em perdas produtivas diretas.

Próximos passos

Enquanto a polícia vasculha as subestações, o governo federal avalia elevar novamente o nível de prontidão, o que permitiria mobilizar o Exército para proteger pontos de energia estratégicos. O Ministério da Defesa já mantém unidades próximas a terminais de gás natural liquefeito no norte, mas até agora evitou deslocar tropas para instalações elétricas terrestres.

Independentemente de quem seja responsabilizado, a agenda de segurança ganha peso inédito no debate público alemão. Se os autores pretendiam testar a resiliência do país, conseguiram colocar a proteção da infraestrutura crítica no centro da campanha eleitoral — e reforçar a percepção de que a guerra híbrida atravessou as fronteiras da Ucrânia para o coração da Europa.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.