A Casa da Moeda dos Estados Unidos iniciou, nesta quarta-feira (2), a venda de uma moeda de US$ 1 estampada com o rosto de Donald Trump. Lançada para celebrar os 250 anos da independência norte-americana, a peça se tornou a primeira em circulação a retratar um presidente ainda no cargo, quebrando uma tradição mantida desde o século XIX e alimentando críticas de parlamentares de ambos os partidos.
As vendas começaram ao meio-dia em Washington (13h em Brasília) por meio do site oficial do órgão, que registrou lentidão e filas virtuais de até cinco minutos. Rolos com 25 moedas custam US$ 61, enquanto sacos com 100 unidades saem por US$ 154,50; cada residência pode adquirir no máximo dois pacotes de cada tipo nas primeiras 24 horas.
Detalhes da peça e da produção
Embora o governo a apresente como “de ouro”, a moeda não contém o metal precioso. Trata-se de uma liga padrão usada em circulação, revestida por acabamento dourado. No anverso, além do retrato de Trump, aparecem a palavra “LIBERTY”, as datas “1776 2026” e a frase “IN GOD WE TRUST”. O reverso traz o Grande Selo dos Estados Unidos.
Entre os lotes disponibilizados, 250 mil moedas receberam uma marca especial por terem sido cunhadas em 4 de julho, data oficial do aniversário da nação. Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que autorizou o projeto em julho, a iniciativa pretende simbolizar “o legado duradouro da liberdade” e o patriotismo do país.
Venda restrita e alta procura
- Rolos de 25 unidades: US$ 61
- Sacos de 100 unidades: US$ 154,50
- Limite: dois itens de cada formato por endereço nas primeiras 24 horas
- Tempo de espera no site na abertura: cerca de 5 minutos
A procura inicial congestionou a página oficial da Casa da Moeda antes mesmo do horário de liberação. Quem acessou perto das 11h30 (Brasília) recebeu estimativa de espera virtual, recurso implementado para evitar sobrecarga semelhante à vista em outros lançamentos colecionáveis.
Tradição rompida e base legal contestada
Desde 1866, as autoridades monetárias evitavam ilustrar pessoas vivas em moedas ou cédulas, para afastar qualquer associação com monarquias, onde a figura do governante costuma estampar o dinheiro. O costume ganhou força legal ao longo de mais de 150 anos, mas foi relativizado por uma lei de 2020 que autorizou redesigns comemorativos para o 250º aniversário dos Estados Unidos. É essa brecha legislativa que o Departamento do Tesouro invoca para justificar a cunhagem atual.
A ruptura, porém, não ocorreu sem resistência. O deputado republicano Thomas Massie acusou o Executivo de usar a data histórica para promover um dirigente específico. Do lado democrata, a senadora Maggie Hassan classificou a edição como “ridícula e anti-americana”, argumentando que os cidadãos precisam de um presidente preocupado em pôr dinheiro “no bolso da população, não o próprio rosto no dinheiro”.
Argumentos políticos
- Republicanos críticos: Thomas Massie vê uso eleitoral do aniversário da independência.
- Democratas: Maggie Hassan questiona prioridades do governo ao estampar Trump.
- Executivo: Scott Bessent defende tributo ao patriotismo e à liberdade.
A polêmica ecoa discussões recentes sobre a extensão dos poderes presidenciais na simbologia nacional. Historiadores lembram que, mesmo em conflitos ou crises severas, presidentes norte-americanos evitaram aparecer em circulação comum enquanto vivos. O mais perto disso eram medalhas comemorativas, que não possuem curso legal.
Impacto em outras cédulas e moedas
A nova moeda integra um pacote mais amplo de alterações planejadas pela gestão Trump no sistema monetário. Notas atualizadas, já em fase de impressão, deverão levar as assinaturas do presidente e do secretário do Tesouro ainda neste ano. Fotografias ou retratos, entretanto, continuam vetados em papel-moeda, a menos que o Congresso aprove lei específica. Por isso, uma sugestão interna para criar uma cédula de US$ 250 com a imagem de Trump permanece parada na Câmara.
Para colecionadores, a circulação de moedas comemorativas costuma agregar valor numismático a longo prazo, sobretudo quando há controvérsia pública. Especialistas consultados pelo mercado norte-americano estimam que unidades da série cunhadas no feriado de 4 de julho poderão alcançar prêmio adicional, caso a tiragem não seja ampliada.
Expectativa de mercado
- 250 mil peças com marca do Dia da Independência têm potencial de valorização extra.
- Limitação inicial de compra favorece pulverização entre colecionadores em vez de grandes especuladores.
- Projeções sugerem aumento de 20% a 30% no preço de revenda dentro de 12 meses, dependendo da procura internacional.
Repercussão internacional
Veículos de imprensa europeus e latino-americanos destacaram a quebra do tabu monetário. Em Londres, analistas compararam o gesto ao costume britânico de estampar a monarca em todas as moedas, enquanto colunistas argentinos lembraram as resistências históricas dos EUA a qualquer simbolismo que lembre realeza.
Na América do Sul, diplomatas acompanham a movimentação com curiosidade adicional: Trump declarou recentemente que está reavaliando a posição dos Estados Unidos sobre as Ilhas Malvinas, tema sensível para argentinos e britânicos. Embora não haja relação direta com a cunhagem, a coincidência alimenta receio de que o presidente use ícones nacionais como instrumentos de pressão política.
Próximos passos
A Casa da Moeda informou que acompanhará o desempenho de vendas nos primeiros 90 dias antes de decidir se amplia a tiragem. Caso a procura supere as estimativas internas, novas cunhagens poderão ocorrer ainda em 2026, mantendo o mesmo desenho, mas sem a marca especial do 4 de julho.
Enquanto isso, ativistas planejam pressionar o Congresso para restabelecer a proibição absoluta de representar pessoas vivas em moedas e cédulas. Grupos ligados à Associação Numismática Americana defendem o contrário: veem no episódio uma chance de flexibilizar normas e estimular o mercado colecionável, aproximando-o de práticas de outros países.
Cronograma previsto
- Relatório de vendas: outubro de 2026.
- Avaliação sobre nova tiragem: novembro de 2026.
- Lançamento das cédulas com assinatura de Trump: até dezembro.
- Discussão no Congresso sobre cédula de US$ 250: sem data, mas articuladores tentam votá-la ainda no atual mandato.
Por ora, a moeda de US$ 1 com o rosto de Donald Trump permanece como símbolo de um país que celebra sua história enquanto debate, publicamente, quem pode — ou deve — ocupar lugar de destaque no dinheiro que passa de mão em mão todos os dias.