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Mudança climática e falta de comida ampliam perigo de conflitos armados, indica estudo

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A combinação de eventos climáticos extremos, colheitas em declínio e cadeias de suprimentos abaladas está criando um cenário perfeito para a eclosão de novos conflitos armados. Um levantamento internacional, baseado no recém-lançado Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi), aponta que quase metade da população mundial poderá viver, até meados dos anos 2050, em regiões onde a produção de alimentos já não acompanha o crescimento demográfico.

Nesse tabuleiro global, perdas agrícolas provocadas por secas persistentes convivem com guerras que interrompem o comércio de grãos, combustíveis e fertilizantes, pressionando preços e empurrando milhões de pessoas para a fome ou para rotas de migração forçada. O resultado, destacam os autores do estudo, é um aumento palpável da instabilidade política e social em países frágeis — e, surpreendentemente, também em nações que se tornarão mais produtivas.

Secas e o peso adicional do fenômeno El Niño

Nas últimas décadas, a agricultura tropical tem sido a mais castigada pela elevação da temperatura média do planeta. Índices de umidade no solo recuam ano após ano, e a irregularidade das chuvas provoca rachaduras visíveis em plantações de arroz na Indonésia até canaviais na América Central. A chegada de um El Niño considerado forte pelos meteorologistas promete, nos próximos meses, intensificar ondas de calor e prolongar estiagens em várias faixas do globo, agravando o déficit de grãos básicos como arroz, milho e trigo.

Com a oferta global comprimida, os preços tendem a subir. Para famílias cujo gasto com alimentação já consome boa parte da renda, qualquer reajuste pode significar a passagem imediata da segurança alimentar para a fome aberta. A explosão de protestos em diversos países durante a crise de preços de 2008 é lembrada pelos pesquisadores como alerta de que o gatilho social continua sensível.

Guerras encarecem insumos e travam rotas marítimas

Se por um lado o clima rouba produtividade, por outro as disputas geopolíticas dificultam o escoamento do que ainda se produz. A prolongada guerra no leste europeu tem provocado oscilações bruscas no mercado de cereais, enquanto tensões no Estreito de Ormuz, corredor estratégico para o petróleo, elevaram custos de transporte e dos fertilizantes derivados de combustíveis fósseis.

Quando a conta do diesel dispara, tratores param e contratos de frete ficam mais caros. O impacto é sentido de forma desigual: grandes exportadores até absorvem parte do aumento, mas pequenos agricultores em países importadores precisam escolher entre reduzir a área plantada ou operar no vermelho. A soma de ambos os efeitos — de oferta comprimida e de custos de produção inflados — aumenta o fosso entre a demanda global por alimentos e a capacidade de fornecê-los.

Índice Cadi expõe os novos mapas da fome

Para mensurar quão rápido as condições de cultivo se deterioram ou melhoram, economistas de centros de pesquisa europeus criaram o Cadi, uma modelagem que cruza dados históricos de produtividade com projeções climáticas. O resultado é um mosaico de “perdedores” e “ganhadores” agrícolas.

Onde as perdas já são visíveis

  • Sudeste Asiático: Camboja e Bangladesh sofrem com enchentes alternadas a períodos de estiagem, reduzindo safras de arroz.
  • África Subsaariana: Burundi e Nigéria apresentam queda constante em grãos básicos, o que pressiona o preço interno e incentiva o deslocamento rural-urbano.
  • América do Sul: Paraguai experimenta oscilações severas na produção de soja e milho, ao passo que comunidades pequenas têm pouca reserva financeira para amortecer choques.
  • América Central: El Salvador enfrenta erosão de solo e maior frequência de tempestades, comprometendo a segurança alimentar local.

Foco de preocupação adicional: Norte da África

O estudo destaca o Magreb como área crítica. A redução das chuvas no Atlas, somada ao crescimento populacional, poderá criar um vácuo de abastecimento que governos fragilizados terão dificuldade de administrar sem ajuda externa. Para analistas políticos, a região merece monitoramento porque funciona como porta de saída de migrantes rumo à Europa.

Quando o sucesso vira motivo de disputa

Um dos achados mais contra-intuitivos do Cadi é a correlação entre ganhos de produtividade e aumento de conflitos. À medida que o clima torna determinadas terras mais férteis — caso de partes do Sudão e da África Oriental —, o valor desses territórios sobe, atraindo investidores, forças políticas locais e, em situações extremas, milícias.

O mesmo movimento se repete em zonas temperadas do Hemisfério Norte. Vinícolas de renome, antecipando a migração do cultivo de uvas para áreas mais frias e altas, já compram terrenos em encostas montanhosas antes pouco valorizadas. Comunidades que dependiam de pequenas propriedades vêem-se pressionadas a vender ou enfrentar disputas judiciais prolongadas. Embora esse tipo de conflito raramente vire manchete global, ele revela como a transição climática não poupa nem regiões consideradas estáveis.

Autocracias sentem o baque primeiro

Os autores do índice afirmam que mudanças abruptas na produtividade agrícola evoluem para violência mais rapidamente em países não democráticos. Falta transparência sobre quem decide o destino das terras, e as populações afetadas não encontram canais institucionais para negociar indenizações ou novos meios de subsistência.

Democracias, ainda que lentas, dispõem de parlamentos, tribunais e imprensa livre — mecanismos que obrigam atores divergentes a sentar à mesa. A burocracia que tanta gente critica, observa o estudo, funciona como amortecedor social ao impor um ritmo de debate que, na prática, evita que tensões agrárias explodam em guerra civil.

Sul da Ásia e Sahel: bombas-relógio humanitárias

A vulnerabilidade da agricultura indiana, paquistanesa e bengalesa vai além das altas temperaturas. Grande parte da produção depende de degelo sazonal nas cordilheiras do Himalaia e do Hindu Kush. Glaciares que sempre garantiram irrigação no verão estão derretendo mais rápido do que nunca: a curto prazo isso gera enchentes, mas, num horizonte de duas a três décadas, o mesmo processo promete reduzir drasticamente o fluxo de água.

No Sahel africano, a receita do desastre reúne desertificação acelerada, taxa de natalidade elevada e presença de grupos armados dispostos a recrutar jovens sem renda. Em ambos os casos, especialistas estimam que a combinação de clima hostil e dependência de importações de grãos pode lançar dezenas de milhões na fome crônica, devendo intensificar movimentações migratórias em larga escala.

Da adaptação agrícola à adaptação política

Plantios tolerantes ao calor, irrigação de precisão e sementes geneticamente modificadas são parte da resposta, mas não a solução completa. O estudo conclui que, sem reformas que distribuam o acesso a terra, água e crédito, cada avanço tecnológico corre o risco de virar elemento adicional de disputa.

Governos locais, tribunais comunitários e organizações internacionais precisarão, segundo os autores, focar não apenas na produção em si, mas na criação de fóruns onde proprietários, trabalhadores rurais e investidores possam negociar regras claras. Onde esses mecanismos falharem, a pressão sobre os sistemas alimentares tenderá a se converter em pressão sobre a própria paz.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.