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Crise na Bolívia: vice-presidente acusa governo de tramar prisão

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Resumo da Notícia

  • O vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, acusou o governo de Rodrigo Paz de fabricar um processo falso para prendê-lo e disse temer pela própria vida diante da escalada do conflito com o Executivo.
  • A denúncia veio a público dois dias depois da prisão do procurador-geral Roger Mariaca, detido sob acusação do governo de ligações com o narcotráfico enquanto conduzia investigação sensível envolvendo o operador digital Fernando Cerimedo, ex-assessor de Paz e de Javier Milei.
  • Lara e Paz foram eleitos juntos em 2025, mas romperam politicamente no início do mandato; o vice está na Espanha e o governo ainda não se manifestou sobre as acusações.

A crise institucional na Bolívia ganhou um novo capítulo nesta semana. O vice-presidente Edmand Lara acusou publicamente o governo do presidente Rodrigo Paz de montar um processo falso para justificar sua prisão. Em carta aberta divulgada nas redes sociais na última quinta-feira (2), Lara afirmou ainda temer pela própria vida diante da escalada do conflito com o Executivo.

“Denuncio ao país que fui informado, por diversos camaradas da Polícia Boliviana que decidiram me alertar, que o coronel Marcelo Ferrufino está fabricando um processo falso contra mim para prosseguir com minha prisão ilegal”, escreveu o vice-presidente. Ele acrescentou ter recebido avisos de dentro do próprio governo que buscariam intimidá-lo por sua posição em defesa da Constituição. “Trata-se de uma armação com motivação política para me silenciar”, denunciou.

A acusação ocorre em um momento de tensão crescente entre os poderes na Bolívia. Lara, que rompeu politicamente com Paz logo no início do mandato, encontra-se atualmente na Espanha, em viagem ao exterior, enquanto acompanha de longe a escalada do confronto. O governo de Rodrigo Paz ainda não havia se manifestado sobre as denúncias até o fechamento das reportagens que divulgaram a carta.

O contexto: prisão do procurador-geral

A denúncia de Edmand Lara veio a público apenas dois dias depois da prisão do procurador-geral da República da Bolívia, Roger Mariaca. O chefe do Ministério Público boliviano foi detido sob acusação do governo Paz de ligações com o narcotráfico, em uma operação que contou com apoio dos Estados Unidos.

Mariaca vinha conduzindo uma investigação sensível: o caso de tentativa de feminicídio e tráfico de drogas envolvendo o operador digital argentino Fernando Cerimedo. O argentino atuou como assessor do presidente Rodrigo Paz e também do presidente da Argentina, Javier Milei, sendo apontado por críticos como uma figura de grande influência sobre governos de direita na América Latina ligados a Donald Trump.

A prisão do procurador-geral por agentes do próprio governo que ele investigava gerou questionamentos sobre a legalidade e os procedimentos adotados. O vice-presidente Lara vinha pedindo explicações públicas sobre a detenção. “Existem denúncias e questionamentos sobre a legalidade e os procedimentos adotados. Cabe, então, às autoridades competentes explicar essa situação”, cobrou.

O caso Cerimedo já havia repercutido no país e na região. O estrategista digital, que trabalhou nas campanhas de Bolsonaro e de Milei, foi preso na Bolívia acusado de envolvimento no ataque à ex-namorada (Estrategista de Bolsonaro e Milei é preso na Bolívia por ataque a ex-namorada), em um caso que expôs as conexões internacionais do operador.

Ruptura entre presidente e vice

A relação entre Rodrigo Paz e Edmand Lara se deteriorou rapidamente desde o início do mandato. Os dois foram eleitos juntos em 2025, mas a aliança política não sobreviveu às primeiras decisões do governo. Lara passou a se posicionar como voz crítica dentro do próprio Executivo, cobrando transparência em decisões e investigações conduzidas pelo governo.

A carta divulgada na quinta-feira representa o ponto mais grave dessa ruptura. Ao afirmar que policiais da ativa o alertaram sobre a montagem de um processo para prendê-lo, o vice-presidente sugere que setores das forças de segurança estariam sendo usados como instrumento de perseguição política. Ele também disse temer por sua segurança física e pela vida, afirmando que os avisos recebidos de dentro do Executivo teriam caráter intimidatório.

A permanência de Lara na Espanha, oficialmente em viagem, adiciona um elemento de incerteza à crise. Não está claro quando o vice-presidente deve retornar ao país — e se teria condições de fazê-lo em segurança, dada a gravidade das acusações que lançou contra o governo.

O silêncio do governo e os próximos passos

Até o momento, o governo de Rodrigo Paz não se manifestou oficialmente sobre as acusações do vice-presidente. A ausência de resposta deixa em aberto como o Executivo pretende lidar com a denúncia — se com uma investigação formal que afaste as suspeitas, ou com medidas que confirmem, aos olhos da oposição, o caráter persecutório apontado por Lara.

A crise boliviana ocorre em um contexto regional de instabilidade democrática. Países vizinhos e organismos internacionais acompanham com atenção os desdobramentos, especialmente pela dimensão do confronto: não se trata apenas de uma disputa entre governo e oposição, mas de um racha dentro da própria cúpula do Estado, com o vice-presidente acusando o presidente de usar o aparato estatal contra ele.

Analistas observam que casos como esse testam a resiliência das instituições bolivianas. A Bolívia viveu anos de polarização intensa, e a chegada de Rodrigo Paz ao poder em 2025 foi apresentada como um novo capítulo político para o país. Menos de um ano depois, o governo enfrenta uma crise interna de proporções significativas.

O que está em jogo

Para a população boliviana, o impasse entre presidente e vice representa mais do que uma briga política: é um sinal de fragilidade institucional em um país que ainda busca estabilidade após anos de turbulência. A acusação de montagem de processo judicial contra um vice-presidente em exercício, se confirmada, configuraria um grave ataque ao Estado de Direito.

Do ponto de vista internacional, a situação também preocupa. A Bolívia é membro do Mercosul e parceira comercial relevante do Brasil, especialmente no fornecimento de gás natural. Instabilidade prolongada no país vizinho pode ter reflexos econômicos e diplomáticos para toda a região.

Os próximos dias serão decisivos. Se o governo Paz apresentar uma resposta convincente e transparente às denúncias, poderá conter a crise. Caso contrário, a permanência do vice-presidente no exterior e a escalada das acusações podem transformar o impasse em uma crise de governabilidade — com consequências imprevisíveis para a democracia boliviana.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.