
Resumo da Notícia
- O presidente do Irã disse que negociar com os EUA “não tem sentido”, acusando Washington de sanções e ataques após os diálogos
- A declaração foi feita em encontro com o chanceler da Armênia, segundo a mídia estatal iraniana
- A fala ocorre em meio ao impasse sobre o Estreito de Ormuz e à escalada de tensões com Washington
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que negociar com os Estados Unidos “não tem sentido”, acusando Washington de impor sanções, pressões e ataques sempre após as rodadas de diálogo. A declaração foi feita na segunda-feira (5), durante encontro com o ministro das Relações Exteriores da Armênia, Ararat Mirzoyan, segundo a mídia estatal iraniana.
“Nosso problema com os EUA é que, toda vez que nos sentamos à mesa de negociação, a guerra nos é imediatamente imposta”, disse Pezeshkian, segundo a agência estatal IRNA. “Até agora, eles nos atacaram três vezes após as conversas, e isso mostra que não buscam o diálogo; o objetivo deles é derrubar a República Islâmica do Irã.”
O presidente iraniano acrescentou que “negociações com um inimigo que todos os dias recorre a assassinatos, sanções, pressão e ameaças, e que viola acordos, não têm sentido” — e afirmou que o povo iraniano também não aceita esse caminho.
O encontro com a Armênia
As declarações foram feitas durante a recepção a Mirzoyan em Teerã, num encontro em que Pezeshkian também defendeu o aprofundamento das relações entre Irã e Armênia nas áreas de comércio, ciência, cultura e tecnologia. O chanceler armênio, por sua vez, elogiou o avanço das relações bilaterais “apesar das sanções” e afirmou que seu país busca a paz, reconhecendo que o caminho “não é fácil”.
O tom duro contra Washington contrasta com os gestos diplomáticos da mesma semana: o Irã segue apresentando, por meio de intermediários, propostas para encerrar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz — sinal de que, mesmo com a retórica inflamada, os canais indiretos de negociação permanecem ativos.
O contexto: uma guerra em impasse
As falas de Pezeshkian ocorrem após o fracasso das conversas indiretas entre Washington e Teerã à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A guerra começou no fim de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques surpresa contra o Irã enquanto os dois lados negociavam o programa nuclear iraniano.
Em junho, as partes chegaram a um memorando de entendimento com 14 pontos prevendo o fim das hostilidades, a reabertura do Estreito de Ormuz e novas negociações rumo a um acordo final. O entendimento, porém, ruiu: ataques iranianos a embarcações no estreito levaram à retomada das operações militares americanas, e as negociações entraram em impasse. Washington reduziu desde então o ritmo das operações militares — não há registros de novos ataques desde 1º de setembro — e passou a priorizar a pressão econômica.
No domingo (4), o chanceler iraniano Abbas Araghchi já havia sinalizado o endurecimento, afirmando que nem a ação militar nem novas sanções resolveriam o conflito, e prometendo uma defesa mais forte caso os ataques fossem retomados.
Ormuz como moeda de troca
O Estreito de Ormuz segue no centro da queda de braço. O Irã condiciona a reabertura da via navegável ao cumprimento de sete exigências pelos Estados Unidos, previstas num acordo provisório de junho — entre elas o fim do bloqueio naval americano aos portos iranianos, a liberação de fundos congelados e a suspensão das sanções ao petróleo iraniano.
Em entrevista recente à Al Jazeera, o próprio Pezeshkian apresentou uma proposta de reabertura do estreito em sete dias: os passos iniciais levariam quatro a cinco dias, a via seria liberada no sexto, e no sétimo começariam negociações diretas sobre temas como o programa nuclear. O plano previa ainda que Washington suspendesse o bloqueio naval, aliviasse as sanções ao petróleo iraniano, liberasse cerca de US$ 12 bilhões em ativos congelados e observasse um cessar-fogo regional incluindo Líbano e Iêmen — com Catar e Paquistão atuando como intermediários.
A declaração desta segunda-feira, porém, sugere que Teerã endureceu o discurso público mesmo mantendo as propostas sobre a mesa — uma estratégia de pressionar Washington enquanto preserva os canais de mediação.
Desconfiança acumulada
Não é a primeira vez que Pezeshkian manifesta desconfiança em relação aos americanos. Em entrevistas recentes, ele afirmou que o Irã “não confia no lado americano” e não vê base clara para um entendimento, citando ataques e sanções que se seguiram a rodadas anteriores de diálogo.
A retórica encontra eco na avaliação de analistas: cada ciclo de negociação seguido de confronto aprofunda a desconfiança mútua e reduz o espaço para concessões. Para Teerã, aceitar conversar sem garantias prévias passou a ser visto internamente como um risco político — e, para Washington, as ações iranianas no Estreito de Ormuz são tratadas como provocação inaceitável.
O que vem pela frente
Com as posições publicamente travadas, os próximos dias dirão se a mediação de Catar e Paquistão consegue produzir algum avanço concreto. O Irã mantém a exigência de que os Estados Unidos se posicionem sobre o memorando de junho, já vencido; os americanos, por sua vez, não sinalizaram disposição de ceder nas sanções sem contrapartidas verificáveis.
Enquanto isso, os mercados de energia seguem atentos: qualquer escalada no Oriente Médio tem potencial imediato de pressionar o preço do petróleo — e, por consequência, a inflação e o custo de vida em países importadores como o Brasil.
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