Em entrevista de uma hora à CNN Brasil, o ex-governador de Goiás e presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) elevou o tom contra o Supremo Tribunal Federal ao defender o afastamento do ministro Alexandre de Moraes e afirmar que o Senado já contaria com maioria para abrir um processo de impeachment. No mesmo encontro, o candidato prometeu enxugar entre R$ 120 bilhões e R$ 130 bilhões do Orçamento e voltou a confrontar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre temas que vão de terras raras a segurança pública.
Além das críticas a Moraes e do pacote fiscal, Caiado rechaçou a obrigatoriedade de câmeras corporais em operações policiais de alta letalidade, disse que facções criminosas devem ser enquadradas como organizações terroristas e defendeu a construção de 40 presídios de segurança máxima. O debate percorreu ainda a jornada de trabalho 6×1, a proposta de elevar para 60 anos a idade mínima para ingresso no STF e a relação entre Executivo e Judiciário.
Pressão sobre Alexandre de Moraes
Caiado afirmou considerar “inaceitável” a permanência de Moraes no Supremo após reportagens que apontaram contatos do ministro com o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Para o candidato, o próprio STF deveria deliberar pelo afastamento cautelar, mas, caso isso não ocorra, caberia ao Senado abrir o impeachment: “Hoje há votos suficientes para aprovar o processo”, garantiu.
O presidenciável também pregou maior transparência nos inquéritos que envolvem autoridades. Segundo ele, documentos sob sigilo podem influenciar o resultado das eleições se vierem à tona apenas depois do pleito. “É responsabilidade do Supremo divulgar tudo o que possa impactar a escolha do eleitor”, declarou.
Regras mais duras para o acesso ao tribunal
Entre as mudanças institucionais, Caiado propôs elevar de 35 para 60 anos a idade mínima para ser indicado ao STF. A ideia, segundo ele, é reduzir o tempo de permanência na Corte e limitar a influência dos presidentes sobre a composição do colegiado. O candidato defendeu ainda uma investigação pré-nomeação mais ampla, que inclua passado profissional, decisões judiciais e finanças pessoais.
Cortes e metas fiscais
Questionado sobre como pretende alcançar superávit primário de 0,5% do PIB já no primeiro ano de governo, Caiado listou quatro frentes de ajuste:
- Redução de R$ 50 bilhões em emendas parlamentares impositivas;
- Corte de 25% nas despesas de custeio dos Três Poderes e de órgãos independentes;
- Revisão de incentivos fiscais concedidos pela União;
- Auditoria no sistema de benefícios e programas sociais.
Somadas, as medidas renderiam, afirma, economia entre R$ 120 bilhões e R$ 130 bilhões. Caiado negou intenção de iniciar o ajuste pelos aposentados e beneficiários do BPC, apesar de integrantes da própria campanha já terem sinalizado com a desvinculação dos reajustes do salário mínimo. “Quem decide sou eu”, resumiu.
Dívida pública e juros no alvo
O candidato atribuiu parte do baixo crescimento ao alto endividamento do governo e salientou que, sem superávit estrutural, o país permanecerá sujeito a juros mais altos do que a média internacional. Ele voltou a responsabilizar o Palácio do Planalto pelo que chamou de “gastança” e disse que a responsabilidade fiscal será cláusula pétrea em eventual gestão.
Segurança pública e câmeras corporais
Indagado sobre a adoção de bodycams nas polícias, Caiado recorreu a metáfora militar: “Nunca vi soldado em campo de guerra usando câmera”. Na sua avaliação, ações contra facções em áreas dominadas por criminosos se assemelham a cenários bélicos, onde a gravação poderia, segundo ele, expor táticas e fragilizar os agentes.
Embora contrário à imposição federal, o ex-governador disse que disponibilizaria equipamentos aos estados que optassem por usá-los. Ele reiterou a intenção de alavancar sistemas de inteligência artificial para rastrear armas, drogas e movimentações financeiras dos grupos criminosos.
Classificação de facções como terroristas
Caiado defendeu enquadrar organizações como Comando Vermelho e PCC na Lei Antiterrorismo, o que permitiria ações mais incisivas da União, inclusive a possibilidade de manutenção de presos em presídios federais por tempo indeterminado. O presidenciável anunciou o projeto de erguer 40 novas unidades de segurança máxima e reativar o Ministério da Segurança Pública, extinto em 2019.
Operações no Rio e governo itinerante
A respeito da operação que deixou mais de 120 mortos no Complexo do Alemão em 2025, Caiado afirmou que o problema principal foi a ausência de ocupação contínua após a incursão policial. Caso seja eleito, prometeu despachar semanalmente em territórios controlados pelo tráfico no Rio de Janeiro. “Primeira semana no Alemão, depois na Penha, na seguinte no Borel”, enumerou, sugerindo que a presença do presidente teria efeito simbólico e prático sobre a segurança local.
Terra, tabela periódica e críticas a Lula
Ao abordar a exploração de terras raras, elementos essenciais para a transição energética, Caiado ironizou o conhecimento do chefe do Executivo: “Tive de explicar pessoalmente ao presidente o que são disprósio e neodímio”. Ele defendeu marcos regulatórios que obriguem as empresas a agregar valor ao minério no país, em vez de exportá-lo in natura.
Jornada 6×1 em debate
Sobre a proposta de acabar com a escala 6×1, substituindo-a por 52 horas semanais, o presidenciável disse nunca ter sido contra a redução da carga, mas criticou o timing do debate em pleno ano eleitoral. Mesmo assim, garantiu apoio à mudança mesmo que o texto não preveja tratamento especial para micro e pequenas empresas, como ele gostaria.
Ao final da sabatina, Caiado voltou a se apresentar como alternativa de “centro democrático” capaz, ao mesmo tempo, de conter o avanço de facções, disciplinar as contas públicas e, nas suas palavras, “colocar freio” em excessos do Judiciário. A campanha pretende intensificar as críticas ao governo Lula e à atuação de ministros do Supremo, temas que, avalia o PSD, têm potencial de mobilizar o eleitorado conservador disperso após 2022.