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EUA isolam-se na ONU e rejeitam adoção de novo mapa-múndi com proporções mais fiéis

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A Assembleia Geral da ONU aprovou, por 164 votos a favor e seis abstenções, uma resolução que incentiva governos e instituições a substituírem a tradicional projeção de Mercator por modelos capazes de representar com mais precisão o tamanho dos continentes. Na sessão, realizada em Nova York, os Estados Unidos ficaram completamente isolados ao serem o único país a votar contra a iniciativa batizada de “Corrija o Mapa”, respaldada pela União Africana.

Washington argumentou que a proposta integra um “projeto ideológico radical”, ainda que não tenha detalhado quais objetivos estariam por trás da mudança cartográfica. A crítica foi lida em plenário pela vice-representante norte-americana no Conselho Econômico e Social da organização, Yaryna Ferencevych, e ecoa a retórica adotada pela administração Trump em debates sobre visibilidade de países fora do eixo ocidental.

Distorsão de Mercator no centro do debate

O alvo da resolução é a projeção de Mercator, criada no século XVI e amplamente usada em livros didáticos e documentos oficiais. Por preservar ângulos e direções, ela facilita a navegação, mas aumenta superfícies situadas em latitudes altas e comprime as próximas ao Equador. Por causa disso, a Groenlândia chega a parecer do tamanho da África em mapas escolares, quando na realidade o continente africano tem quatorze vezes mais área.

A proposta acolhida pela ONU recomenda o modelo “Terra Igual” (Equal Earth), já adotado pela União Africana. Essa projeção procura distribuir as distorções de forma mais equilibrada, aproximando a área visual das terras de sua extensão real e preservando a forma geral dos continentes. A medida não é mandatória: cada país decide que mapa utilizar. No entanto, a resolução pede que organismos multilaterais, editoras, escolas e cartórios considerem a nova cartografia para “reduzir os impactos cognitivos, educacionais, culturais e geopolíticos” associados ao desenho tradicional.

Consequências simbólicas e políticas

Os defensores da mudança afirmam que um mapa é mais do que um simples instrumento de localização; ele molda percepções de poder e importância. Representar o Hemisfério Norte superdimensionado, segundo diplomatas africanos, reforça a ideia de centralidade europeia e norte-americana e minimiza visualmente territórios do Sul Global. “Trata-se de defender a verdade científica e combater desigualdades históricas”, declarou o chanceler de Togo, Robert Dussey, cujo país liderou as negociações.

O texto aprovado vincula a iniciativa ao Pacto para o Futuro, endossado em 2024, que apela a correções de assimetrias estruturais na ordem internacional. Para seus articuladores, rever o mapa-múndi é parte de um esforço mais amplo de reformar narrativas educativas e culturais que reproduzem desequilíbrios coloniais.

Por que os EUA ficaram sozinhos

Ao justificar o voto dissidente, Ferencevych afirmou que a resolução não pode ser vista “à parte de um programa ideológico mais amplo” promovido por seus defensores. A diplomata não especificou qual seria esse programa, mas a administração Trump tem utilizado o argumento de “guerra cultural” para se opor a temas que conferem protagonismo a atores fora do Ocidente. Em 2025, por exemplo, os Estados Unidos deixaram a Unesco sob alegação de que o órgão priorizava uma “agenda globalista”.

A aversão a revisões de nomenclaturas geográficas também vem sendo demonstrada domesticamente. Logo no início do segundo mandato, Trump rebatizou o Golfo do México de “Golfo da América”, sem adesão de vizinhos latino-americanos. Em agosto passado, em meio a tensões comerciais com o Canadá, o presidente renomeou o Lago Ontário para “Lago América”. A equipe de política externa interpreta essas ações como meios de reafirmar soberania simbólica.

Abstenções e repercussão internacional

Além do voto contrário dos EUA, seis países optaram pela abstenção: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia. Embora não tenham se alinhado abertamente a Washington, essas delegações sinalizaram receio de que a resolução possa desencadear disputas sobre fronteiras ou obrigar a revisão de materiais oficiais num curto espaço de tempo.

A Europa Ocidental, a América Latina e a maior parte da Ásia apoiaram a medida sem ressalvas. O Ministério do Interior da França informou, logo após a votação, que passará a usar a projeção Eckert IV em documentos administrativos, modelo cuja escala se aproxima da recomendada pela União Africana.

Como ficará o novo mapa

No rascunho difundido entre os Estados-membros, a Groenlândia perde aproximadamente 60% do espaço que ocupa no Mercator. Já a África ganha visibilidade: seu contorno se estende da mesma forma de leste a oeste, mas as superfícies internas parecem mais amplas. Continentes de baixa latitude, como América do Sul e Oceania, surgem nitidamente maiores, enquanto Europa e América do Norte encolhem no papel.

Para escolas e meios de comunicação, a transição implicará atualizar infográficos, globos, aplicativos e livros. Cartógrafos ressaltam que não existe projeção perfeita — todo molde bidimensional implica sacrificar volume, distância ou forma. A escolha, portanto, é política: privilegia-se o critério que se deseja destacar. No caso da “Terra Igual”, sacrifica-se a constância de ângulos, mas valoriza-se a proporcionalidade de áreas.

Prazos e próximos passos

A resolução não estabelece calendário fixo. Ela “convida” — e não exige — que países apresentem relatórios sobre a adoção de projeções mais precisas nos próximos quatro anos. A ONU se comprometeu a disponibilizar bases de dados gratuitas e oficinas de capacitação para ministérios da educação e institutos geográficos interessados em fazer a migração.

Diplomatas africanos comemoraram a vitória como sinal de que o sistema multilateral pode avançar na revisão de padrões consolidados que reproduzem desigualdades. Os EUA, por outro lado, indicaram que continuarão imprimindo materiais oficiais no formato Mercator e que tentarão barrar referências obrigatórias ao novo modelo em organismos dependentes de seu financiamento, como o Banco Mundial.

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Equipe RSO Notícias