No quarto dia útil da última semana de agosto, os aspirantes ao Palácio do Planalto multiplicaram compromissos em dez estados, concentrando discursos em dois eixos: segurança pública e reativação da economia. De motociata no agreste alagoano a plenária virtual sobre reestatizações, os presidenciáveis tentam imprimir diferença em agendas que, embora fragmentadas, revelam temas que devem guiar a reta final da campanha.
A quarta-feira (26) teve entrevistas nas principais emissoras, visitas a hospitais, encontros com empresários e longas caminhadas por periferias. Enquanto alguns apostaram na visibilidade das redes sociais, outros priorizaram reuniões fechadas com a iniciativa privada. Dois concorrentes – Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Edmilson Costa (PCB) – não tiveram atividades públicas.
Economia vira vitrine de contrastes
Reestatização e retorno da indústria
Hertz Dias (PSTU) dedicou o dia à defesa da retomada de estatais estratégicas. Em entrevistas à TV Globo e ao podcast “A Arte da Guerra”, gravadas em São Paulo, o candidato afirmou que o Brasil “virou celeiro de commodities” e precisa recuperar empresas como Vale e Petrobras para gerar empregos qualificados. À noite, conduziu plenária virtual com apoiadores para detalhar o programa socialista de industrialização pesada e controle público dos grandes setores produtivos.
Privatizações e pacto federativo
No extremo oposto, Romeu Zema (Novo) percorreu o Vale do Mucuri, em Minas Gerais, falando justamente em vender estatais. Após entrevistas a rádios regionais, o ex-governador visitou o Hospital Regional de Teófilo Otoni, onde prometeu priorizar a atenção primária e reorganizar os repasses de saúde a partir de um “novo pacto federativo” que concentre recursos nos municípios. Zema sustenta que o enxugamento do Estado permitirá reduzir carga tributária e destravar investimentos privados.
Mais indústria, menos juros
Do norte mineiro, Augusto Cury (Avante) defendeu ajuste fiscal como antídoto para juros altos. Em Montes Claros, ele percorreu o Mercado Central e almoçou com empresários, a quem prometeu “financiamentos mais baratos” caso o próximo governo controle despesas e recupere a credibilidade da dívida pública. Na mesma toada de estímulo produtivo, Samara Martins (UP) esteve em Maceió, onde participou de sabatina no Diretório Central dos Estudantes da UFAL e fez corpo a corpo na Nova Orla e no Vergel, bairro popular. A candidata cobrou investimentos maciços no parque fabril para ampliar vagas formais no Nordeste.
Segurança pública domina microfones
Exportação do modelo goiano
Ronaldo Caiado (PSD) transformou a sabatina conjunta de O Globo, Valor Econômico e CBN, no Rio, em vitrine de seu histórico no combate às facções. O ex-governador goiano afirmou que vai “pacificar as cidades” e permitir que o cidadão “ande com celular no bolso sem medo”. Segundo ele, a fórmula envolve inteligência policial, ataque às finanças do crime organizado e integração das forças estaduais e federais. Depois da entrevista, Caiado visitou o Santuário da Penha, tradicional ponto de peregrinação, aproveitando a presença de fiéis para reforçar o discurso de ordem.
Motociata em Arapiraca
Em Alagoas, Flávio Bolsonaro (PL) liderou motociata pelas ruas de Arapiraca. De cima de um carro de som, prometeu endurecer leis penais e ampliar o porte de armas para “proteger o cidadão de bem”. A agenda incluiu encontros reservados com empresários do Agreste e do Sertão, onde ouviu demandas por policiamento ostensivo em rodovias e redução de roubos de carga.
Entrevistas em peso na maior emissora
Com a rodada de sabatinas nacionais da TV Globo em curso, vários candidatos aproveitaram o espaço. Wilson Grassi (Democrata) passou a manhã nos estúdios da Rádio Mix FM em Volta Redonda (RJ) e voou à capital paulista para ser entrevistado pela emissora. Renan Santos (Missão) também ocupou o horário noturno na mesma rede, tentando se apresentar a um eleitorado ainda pouco familiarizado com sua sigla.
Rui Costa Pimenta (PCO) participou de gravação nos estúdios paulistanos da Globo e, em seguida, viajou a Belo Horizonte para reunião tática com militantes. O objetivo: definir o lançamento de candidaturas próprias à Câmara e à Assembleia mineira, já que o partido concorre sem coligações. À noite, o presidenciável gravou vídeos para redes sociais, espaço no qual o PCO concentra esforços por menor tempo de TV.
Voz feminina contra feminicídio
Única mulher na corrida presidencial deste ano, Clariana Barão (Democracia Cristã) concedeu entrevista on-line ao portal russo Sputnik. Ao público internacional, criticou a escassez de participantes femininas nos debates do país e elegeu o combate ao feminicídio como prioridade zero. A proposta central prevê centros integrados de acolhimento a vítimas de violência doméstica, articulando polícia, assistência social e Judiciário em um mesmo local.
Candidatos sem agenda
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Edmilson Costa (PCB) não registraram compromissos públicos nesta quarta. As campanhas não justificaram oficialmente a pausa, mas interlocutores admitem que ambos se dedicaram à preparação para o próximo debate televisivo, marcado para o fim de semana.
Panorama geral do dia
- Entrevistas de alcance nacional: Hertz Dias, Wilson Grassi, Renan Santos e Rui Costa Pimenta recorreram à maior rede de TV do país.
- Corpo a corpo regional: Zema, Cury e Samara priorizaram caminhadas em mercados populares, escolas e orlas.
- Aposta na pauta de segurança: Caiado e Flávio Bolsonaro usaram exemplos locais para prometer expansão de políticas contra o crime.
- Defesa de estatais versus privatizações: Embate ideológico ficou evidente entre Hertz Dias e Romeu Zema.
- Voz feminina isolada: Clariana Barão cobrou espaço para mulheres e apresentou plano anti-feminicídio.
Com estratégias tão distintas quanto o eleitorado que disputam, os presidenciáveis ajustam o tom a cada parada. A maratona prossegue nesta quinta-feira, quando o roteiro de compromissos volta a embaralhar estados e temas na corrida pelo voto.