
Resumo da Notícia
- O INPE registrou 18.907 incêndios florestais na Amazônia brasileira em outubro de 2026, um salto de 140,3% sobre outubro de 2025, quando foram 7.868 focos — é o maior número para um único mês em mais de dois anos.
- No acumulado de janeiro a outubro, já são 48.487 focos, alta de 70% sobre o mesmo período do ano passado e um total que supera todos os 43.131 incêndios registrados em 2025 inteiro.
- O Pará lidera os focos no bioma; a seca agravada pelo El Niño e indícios de queimadas criminosas organizadas alimentam o fogo, e a fumaça densa mergulhou Manaus em uma crise sanitária.
A Amazônia brasileira registrou 18.907 incêndios florestais em outubro de 2026, um salto de 140,3% em relação ao mesmo mês de 2025, quando foram contabilizados 7.868 focos. Os dados foram divulgados neste domingo (1º) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que monitora diariamente os focos de calor em todo o país com imagens de satélite, e repercutidos pela agência EFE. É o maior número de incêndios em um único mês em mais de dois anos na maior floresta tropical do planeta.
O recorde mensal anterior era de setembro de 2024, quando o bioma somou 41.463 focos em meio a outra temporada severa de fogo. Desde então, nenhum mês havia ultrapassado a marca de outubro de 2026 — um dado que chama ainda mais atenção porque outubro costuma marcar a transição para o período chuvoso na região, quando o número de queimadas tradicionalmente começa a cair. Desta vez, aconteceu o contrário: o fogo se intensificou justamente quando deveria perder força.
2026 já passou 2025 inteiro — e faltam dois meses
O dado mais contundente do levantamento do INPE é o acumulado do ano. Entre janeiro e outubro de 2026, a Amazônia somou 48.487 incêndios, uma alta de 70% sobre o mesmo período de 2025. Mais do que isso: em apenas dez meses, 2026 já superou o total registrado em todo o ano passado, que foi de 43.131 focos. E ainda restam novembro e dezembro pela frente, meses em que, segundo os especialistas, o fogo pode continuar avançando em partes do bioma.
A escalada foi se desenhando ao longo do segundo semestre. Em setembro, o Amazonas já havia registrado mais de 3.700 focos, quase quatro vezes o número do mesmo mês de 2025. Na primeira quinzena de outubro, o ritmo acelerou ainda mais, com picos diários acima de 1.500 detecções em toda a Amazônia, até fechar o mês nos 18.907 focos confirmados pelo INPE.
Pará lidera; Amazonas tem municípios no topo da lista
Os incêndios se concentram, sobretudo, no arco de pressão sobre a floresta. De acordo com os dados do INPE repercutidos pela CNN Brasil, o Pará é o estado com mais focos de incêndio do país em 2026: foram 7.309 registros apenas nos primeiros 19 dias de outubro e um acumulado próximo de 19 mil ocorrências no ano. O Amazonas aparece em seguida, com 8.084 focos entre janeiro e 15 de outubro — crescimento de aproximadamente 120% sobre os 3.674 do mesmo período de 2025, segundo levantamento do INPE reunido pelo Ministério Público de Contas do Amazonas.
No Amazonas, os dados do INPE apontaram os municípios de Lábrea, Autazes e Boca do Acre entre os que mais concentraram focos em outubro. Lábrea, no sul do estado, somou 225 ocorrências em apenas 12 dias, seguida por Autazes, com 151, e Boca do Acre, com 118. São áreas de fronteira agrícola e pecuária, onde o fogo é historicamente usado para limpar pastagens e abrir novas áreas — e onde, na estação seca, ele escapa com facilidade para a floresta em pé.
Seca, El Niño e a mão humana
Duas forças se somaram para produzir o outubro recorde. A primeira é o clima: o agravamento da seca provocado pelo fenômeno El Niño reduziu a umidade da floresta e deixou a vegetação muito mais vulnerável ao fogo, como destacou a EFE na divulgação dos dados do INPE. Não se trata de um El Niño qualquer: projeções indicam que o fenômeno atual pode ser o mais forte desde 1950, com pico entre outubro e dezembro, o que ajuda a explicar por que a estação do fogo se estendeu além do calendário habitual.
A segunda força é humana. Em meados de outubro, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que o governo federal investiga indícios de uma ação criminosa organizada por trás da disparada dos incêndios no Amazonas — queimadas coordenadas para destruir áreas de floresta e ocupar terras ilegalmente. Levantamento do INPE citado pelo g1 mostra que a imensa maioria dos focos no estado ocorreu em propriedades rurais cadastradas e que mais da metade dos incêndios atingiu áreas desmatadas nos três anos anteriores, um padrão associado ao ciclo de desmatamento seguido de queima. Em resposta à gravidade do quadro, o governo federal reconheceu situação de emergência em 36 municípios amazonenses, segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
Fumaça sobre Manaus e o custo para a saúde
O efeito mais visível da crise apareceu no céu das cidades. A fumaça densa dos incêndios cobriu Manaus, a maior cidade da região, e provocou uma crise sanitária, com a qualidade do ar em níveis considerados péssimos e a suspensão de eventos ao ar livre — situação que o RSO Notícias já havia mostrado em outubro, quando a capital amazonense amanheceu sob uma cortina de fumaça. A agência espacial norte-americana, a Nasa, divulgou em 15 de outubro uma imagem captada três dias antes pelo satélite Aqua que mostra extensas plumas de fumaça sobre a Amazônia, visíveis do espaço.
A exposição prolongada à fumaça de queimadas está associada ao agravamento de doenças respiratórias, como asma e bronquite, e sobrecarrega os serviços de saúde das cidades atingidas — um impacto que recai com mais força sobre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. Com os rios em níveis baixos por causa da seca, comunidades do interior enfrentam, ao mesmo tempo, o fogo, a fumaça e a dificuldade de deslocamento e abastecimento.
O que esperar dos próximos meses
A perspectiva de alívio rápido é limitada. Cientistas que acompanham a temporada alertam que os incêndios nas regiões de Manaus e Santarém podem persistir até dezembro ou janeiro, com risco de o fogo se espalhar para outras áreas em 2027 se a seca se prolongar. O pico do El Niño, esperado justamente para o fim do ano, mantém a floresta em condição de risco por mais tempo do que o normal.
O retrato deixado por outubro de 2026 é o de um bioma pressionado de vários lados ao mesmo tempo: clima extremo, fogo criminoso e uma estação seca que se recusa a terminar. Com 48.487 focos em dez meses e um ano que já superou o anterior antes mesmo de acabar, os números do INPE transformam o combate aos incêndios na Amazônia no maior desafio ambiental do país neste fim de 2026 — e cobram uma resposta à altura da escala do problema.
