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El Niño pode ser o mais forte desde 1950 e traz pico entre outubro e dezembro

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Resumo da Notícia

  • El Niño deve atingir intensidade “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026, podendo ser o mais forte desde 1950, com efeitos se estendendo até o primeiro trimestre de 2027.
  • Painel do Inmet, Inpe, ANA, Cemaden e parceiros projeta seca severa e maior risco de incêndios no centro-norte, e chuvas bem acima da média, com possibilidade de cheias, no Sul.
  • Temperaturas acima da média em quase todo o país; em setembro, os municípios em seca extrema saltaram de 4 para 24 e os em seca severa passaram de 153 para 197.

O Brasil se prepara para enfrentar um dos episódios mais intensos do El Niño já registrados. Segundo o Boletim nº 4 do Painel El Niño 2026-2027, há 95% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade “muito forte” no trimestre outubro-novembro-dezembro — e, caso o cenário se confirme, este poderá ser o evento mais intenso desde 1950, com impactos que se estendem pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.

O documento, divulgado no dia 30 de setembro, é elaborado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

O cenário traçado pelo painel divide o país em dois extremos: seca severa e maior risco de incêndios no centro-norte, e chuva acima da média — com possibilidade de cheias — no Sul. As temperaturas devem permanecer acima do normal em quase todo o território nacional.

O que dizem os números do painel

As condições de El Niño foram confirmadas ainda em junho deste ano, e o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial vem se intensificando de forma contínua. No fim de setembro, as anomalias de temperatura da superfície do mar superaram 2 °C nas áreas central e leste do oceano, segundo a agência norte-americana NOAA, o que indica um fenômeno em plena escalada.

O boletim aponta que o pico de intensidade deve ocorrer entre a primavera e o verão do Hemisfério Sul — exatamente no trimestre outubro-novembro-dezembro. O fenômeno deve persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, prolongando os efeitos sobre o clima brasileiro por meses.

Os meteorologistas ressaltam, porém, que essas projeções representam tendências sazonais. Os impactos em cada local dependem da evolução das condições meteorológicas específicas ao longo dos próximos meses.

Centro-norte: seca se agrava e fogo avança

O quadro mais preocupante aparece no centro-norte do país. Os dados do Cemaden indicam que, em setembro, a quantidade de municípios em situação de seca extrema saltou de quatro para 24 em apenas um mês. Os casos de seca severa também cresceram, passando de 153 para 197, com aumento mais expressivo em estados como Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe.

No Nordeste, 16% da região já apresenta seca grave. No Norte, Roraima e Acre aparecem entre os estados mais afetados. A combinação de pouca chuva e calor acima da média cria o ambiente ideal para a propagação de incêndios florestais — e o risco de fogo deve aumentar ainda mais no próximo trimestre.

O cenário preocupa especialmente o agronegócio. No centro-norte, as culturas de soja e café estão entre as mais vulneráveis aos prejuízos da estiagem prolongada, segundo as análises divulgadas com o boletim. Produtores da região já monitoram de perto a evolução do fenômeno para ajustar o planejamento da safra.

Sul: chuvas intensas e risco de enchentes

No extremo oposto, a Região Sul se prepara para volumes de chuva bem acima do normal. Rio Grande do Sul e Santa Catarina podem registrar acumulados de até 200 milímetros acima da média histórica do trimestre, de acordo com projeções agrometeorológicas citadas na cobertura do painel.

O Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do RS projeta chuvas frequentes e, em alguns períodos, intensas entre outubro e dezembro, com maior frequência nas regiões Norte e Oeste do Rio Grande do Sul. Uma especialista ouvida pelo portal BrasilAgro estima que municípios dos três estados do Sul podem receber mais de mil milímetros em 90 dias — quando o normal seria algo em torno de 650 milímetros.

O fenômeno também favorece a formação dos Complexos Convectivos de Mesoescala, grandes aglomerados de tempestades que elevam a probabilidade de chuva volumosa no Sul. A MetSul já havia alertado para o risco de temporais isolados com granizo e rajadas de vento fortes no primeiro episódio de chuva volumosa associado a este El Niño, que atingiu a região em junho.

Com mais de 190 alertas hidrológicos já emitidos em 2026, o período historicamente mais crítico do fenômeno no Sul — de setembro a dezembro — exige atenção redobrada das defesas civis estaduais e municipais.

Temperaturas acima da média em quase todo o país

Além dos extremos de chuva e seca, o boletim projeta temperaturas acima da faixa normal em quase todo o Brasil no próximo trimestre. O calor excessivo tende a agravar os efeitos da estiagem no centro-norte, aumentando a evaporação e o estresse hídrico das plantações.

No Sudeste, a previsão indica chuvas acima da média em parte da região, o que pode trazer alívio parcial aos reservatórios, mas também risco de eventos extremos localizados. No leste do Nordeste, o cenário é de chuvas acima da média em algumas áreas, enquanto o restante da região e o Norte devem enfrentar menor ocorrência de chuvas e temperaturas elevadas.

Para a agricultura, os impactos variam por região: no Sul, a umidade adicional pode beneficiar o milho, embora o excesso de chuva eleve o risco de doenças no trigo e possa afetar o plantio de soja e arroz.

Por que este El Niño preocupa tanto

O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, e seus efeitos sobre o clima global são conhecidos há décadas. O que chama a atenção neste episódio é a combinação de intensidade e duração: além de poder figurar entre os mais fortes desde 1950, o fenômeno deve persistir até o primeiro trimestre de 2027, prolongando o período de exposição do país aos extremos.

Os padrões identificados no boletim representam as tendências sazonais típicas do El Niño no Brasil — seca no centro-norte e chuvas no Sul —, mas a intensidade projetada amplia a magnitude dos riscos. O Inmet e os parceiros do painel vêm monitorando a evolução mensalmente, e cada novo boletim ajusta o prognóstico conforme os dados do Pacífico.

Para as próximas semanas, a recomendação das autoridades é que estados e municípios mantenham os planos de contingência ativos, especialmente nas áreas mais vulneráveis a enchentes no Sul e às queimadas no centro-norte. A população deve acompanhar os alertas da Defesa Civil e do Inmet, que emite avisos meteorológicos atualizados sobre tempestades e outros eventos severos.

Enquanto o pico do fenômeno se aproxima, o Brasil vive o contraste típico do El Niño: de um lado, municípios contando os dias sem chuva; de outro, cidades se preparando para o excesso dela. Nos próximos três meses, a capacidade de resposta de cada região será colocada à prova pelo que pode ser o El Niño mais forte em mais de sete décadas.

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Escobar Oliver é o responsável pelo conteúdo do RSO Notícias, portal de notícias do Brasil e do mundo.