Casa Branca acusa falhas graves em megaprojetos chineses na América Latina

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A diplomacia norte-americana elevou o tom contra a presença de estatais chinesas em obras de grande porte na América Latina. Em mensagem pública, o novo secretário adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental, Juan Pablo Segura, listou casos no Equador, Peru e Guiana para sustentar que empreendimentos financiados ou executados por companhias de Pequim acumulam atrasos, estouros de orçamento, falhas estruturais e disputas contratuais.

A hidrelétrica Coca Codo Sinclair, no Equador, virou exemplo-síntese da cobrança de Washington. Construída pela Sinohydro e inaugurada em 2016, a usina passou a registrar milhares de fissuras em peças de aço e ainda não recebeu aceitação final do governo equatoriano, apesar de ter consumido cerca de US$ 1,7 bilhão em empréstimos do Eximbank da China.

Pressão diplomática em meio a disputa estratégica

O pronunciamento de Segura ocorre num momento em que Estados Unidos e China disputam influência sobre cadeias de energia, mineração, logística, telecomunicações e tecnologia na região. Ao assumir o posto em agosto, o diplomata colocou “a expansão do ativismo estatal chinês” entre as prioridades de sua agenda e, desde então, tem mirado não apenas construtoras como Sinohydro e China Railway Group, mas também gigantes de tecnologia como Huawei, ZTE, Hikvision, Hytera, Dahua e DJI, classificadas por Washington como potenciais riscos à segurança.

“Custo escondido” de grandes obras

Na avaliação do Departamento de Estado, projetos ancorados em crédito concessionado por bancos chineses oferecem financiamento rápido, porém carregam encargos que podem comprometer orçamentos públicos. Segura argumenta que, além dos juros, governos acabam arcando com reparos não previstos, passivos ambientais e renegociações de prazo.

  • Redução de escopo e supressão de itens acordados em contrato;
  • Endividamento de estatais e tesouros nacionais para cobrir aditivos;
  • Danos ao meio ambiente sem compensação adequada;
  • Litígios prolongados diante de cláusulas de arbitragem desfavoráveis.

Equador: 17,6 mil fissuras em uma única usina

Anunciada como a maior hidrelétrica equatoriana, Coca Codo Sinclair deveria reforçar a matriz renovável do país. Relatórios internos da Companhia Equatoriana de Eletricidade (Celec) identificaram, até 2022, 17.661 trincas em componentes responsáveis pela condução de água e pela distribuição de aço na estrutura. Técnicos apontam risco de comprometimento do rendimento a longo prazo se as correções não forem concluídas.

Os problemas atrasaram por anos a entrega definitiva da obra, iniciada ainda no mandato do ex-presidente Rafael Correa. Embora reparos estejam em curso, engenheiros do governo admitem que não há garantia de que as falhas não voltem a aparecer devido ao estresse mecânico registrado desde o enchimento do reservatório.

Financiamento e garantia soberana

Para viabilizar a construção, Quito assinou carta de crédito com o Eximbank da China, que cobriu cerca de 70% do custo projetado inicialmente. Em troca, repassou receita futura de exportação de petróleo como garantia de pagamento, modelo que se repetiu em outras obras equatorianas e que, segundo analistas ouvidos pelo Itamaraty, limita margem fiscal a médio prazo.

Peru e Guiana também enfrentam atrasos

No Peru, Segura menciona “projetos abandonados e tentativas corruptas de manipular licitações” sem citar nomes. Documentos do Ministério de Transportes peruano, contudo, mostram que o consórcio liderado pela China Railway esteve envolvido em pedidos de aditivo que somam mais de US$ 200 milhões apenas na construção de uma via expressa nos arredores de Lima.

Na Guiana, o alvo é a ampliação do principal aeroporto internacional, obra anunciada em 2011 e ainda não totalmente concluída. O contrato original, estimado em US$ 150 milhões, teve quatro revisões de cronograma. Parlamentares guianenses reclamam que pistas secundárias e áreas de carga previstas no desenho inicial foram suprimidas sem redução proporcional de custo.

Impactos sobre governança local

Organizações civis de ambos os países relatam falhas de transparência em torno dos aditivos. Auditorias identificaram divergência de até 30% entre o material licitado e o material efetivamente entregue, além de ausência de avaliação ambiental detalhada em trechos que cortam reservas indígenas.

Resposta de Pequim apoia autonomia latino-americana

Ao receber o presidente do Equador, Daniel Noboa, em Pequim, Xi Jinping defendeu que “o desenvolvimento e a revitalização da América Latina não podem ser interrompidos” e afirmou que cada nação tem o direito de escolher seus parceiros de forma independente. A chancelaria chinesa argumenta que os empréstimos oferecem condições mais atraentes do que as opções disponíveis em bancos multilaterais tradicionais.

Diplomatas chineses também lembram que empresas dos Estados Unidos e da Europa perderam espaço em licitações por apresentarem custos maiores ou exigirem garantias que governos latino-americanos raramente conseguem cumprir. Para Pequim, as críticas de Washington tentam mascarar uma disputa geopolítica que vai além da qualidade das obras.

Reação regional

Lideranças políticas da região adotam postura diversa. Enquanto o presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, sinaliza interesse em atrair capital chinês para ferrovias e portos, a Colômbia já suspendeu negociações sobre 5G com a Huawei após pressão dos EUA. O Brasil, maior economia sul-americana, procura manter equilíbrio: o governo Lula reitera abertura a investimentos asiáticos, mas ampliou cooperação em defesa cibernética com Washington.

O que está em jogo para a América Latina

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que, até 2030, a América Latina precisará de mais de US$ 2 trilhões em infraestrutura apenas para manter o ritmo de crescimento demográfico e urbano. Com restrição fiscal crônica e dificuldade de acessar crédito barato, muitos governos enxergam nos bancos chineses uma alternativa imediata. Críticos, porém, alertam para o risco de dependência financeira e tecnológica.

Especialistas ouvidos por centros de estudo em Washington e em Santiago concordam que a região deve aprimorar mecanismos de due diligence, fortalecer órgãos de controle e exigir cláusulas claras de manutenção pós-obra. Na ausência desses dispositivos, falhas como as observadas em Coca Codo podem virar regra, não exceção.

Próximos passos de Washington

Segundo fontes do Departamento de Estado, Segura prepara um roteiro de visitas à Colômbia, Peru, Equador e Guiana nos próximos meses para discutir alternativas de financiamento que envolvam o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o International Development Finance Corporation (DFC), braço de investimento do governo norte-americano.

O plano inclui pacotes de garantia parcial de risco, apoio técnico na elaboração de editais e treinamento de servidores públicos em avaliação de custo total de ciclo de vida. A estratégia visa mostrar que, embora o crédito chinês possa parecer mais rápido, a combinação de organismos regionais e capital privado ocidental pode oferecer soluções “mais sustentáveis e transparentes”.

Equilíbrio delicado

Na prática, a maioria dos países latino-americanos tenta navegar entre as duas potências. Ao mesmo tempo em que necessitam de liquidez para obras urgentes, também buscam preservar autonomia para negociar acordos comerciais e tecnológicos sem se alinhar integralmente a nenhum dos lados.

Até aqui, porém, a escalada retórica de Washington sobre os megaprojetos chineses tornou clara a disposição dos EUA em disputar cada contrato estratégico na região — e a Coca Codo Sinclair, com suas 17 mil fissuras, tornou-se símbolo dessa batalha por corações, mentes e, principalmente, concessões de infraestrutura.

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Escobar Oliver é profissional do mercado digital desde 2021, com experiência em produção de conteúdo, SEO e gestão de portais de notícias. Como responsável pelo RSO Notícias, dedica-se a oferecer informações confiáveis, atualizadas e relevantes, sempre com compromisso editorial, transparência e qualidade na comunicação.