Há mais de três meses o Palácio do Planalto aguarda, sem sucesso, um posicionamento oficial de Washington sobre duas iniciativas de cooperação contra o crime organizado entregues por Luiz Inácio Lula da Silva a Donald Trump. O silêncio norte-americano contrasta com o tom cada vez mais duro adotado pelo governo dos Estados Unidos, que em maio incluiu o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras.
A indefinição vem tensionando a relação bilateral: de um lado, o Brasil insiste em articular operações conjuntas de inteligência, sobretudo na Amazônia; de outro, a Casa Branca prefere agir por meio de sanções unilaterais, sem dar sinais de aderir aos mecanismos sugeridos por Brasília.
O que Lula colocou sobre a mesa em maio
Quando visitou a Casa Branca em 7 de maio, o presidente brasileiro dedicou quase metade das três horas de reunião a temas de segurança. Na ocasião, apresentou duas frentes de trabalho:
- Integração policial na Amazônia – inclusão formal dos EUA no Centro de Cooperação Policial Internacional de Manaus, onde agentes de países amazônicos trocam, em tempo real, dados sobre rotas de drogas, armas e mineração ilegal;
- Articulação regional ampliada – participação financeira e operacional de Washington em iniciativas do chamado Consenso de Brasília, fórum que reúne governos sul-americanos para padronizar leis, treinar forças de segurança e bloquear ativos de facções.
Segundo interlocutores no Planalto, Trump sinalizou interesse naquele dia, mas condicionou a resposta ao exame de agências como Departamento de Estado, Tesouro e DEA. Desde então, nenhuma correspondência diplomática com cronogramas ou grupos de trabalho chegou ao Itamaraty.
Centro de Manaus: cartão de visita brasileiro
A aposta de Lula para atrair os EUA é o centro instalado na capital amazonense, já usado por Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Guiana, Suriname e Venezuela. O governo diz que, de janeiro a julho, a plataforma ajudou na apreensão de 42 toneladas de cocaína e 380 toneladas de minério extraído ilegalmente. A entrada dos norte-americanos daria acesso a bancos de dados sobre movimentações financeiras em dólar, vistos de suspeitos e rotas aéreas que cruzam o Caribe.
Classificação de PCC e CV como terroristas amplia divergências
Duas semanas após o encontro de maio, o Departamento de Estado anunciou que PCC e CV passavam a ser tratados como “Entidades Terroristas Estrangeiras”. A medida ativa mecanismos automáticos de sanções, congela ativos em bancos norte-americanos e proíbe qualquer cidadão dos EUA de prestar apoio logístico ou financeiro às facções.
Brasília viu a decisão como interferência em assunto interno e teme que o selo de terrorismo crie obstáculos a investigações conjuntas: crimes de terrorismo seguem protocolos distintos de crimes transnacionais, exigindo ordens judiciais específicas para compartilhamento de provas. Ainda assim, o governo brasileiro afirma não ter sido consultado antes do anúncio.
Flávio Bolsonaro pressiona por linha dura
A ofensiva de Washington coincidiu com a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à capital norte-americana. Na reunião que manteve com Trump, o parlamentar defendeu publicamente o enquadramento das facções brasileiras como terroristas, antagonizando a tese do Planalto de que o problema se resolve com sufocamento financeiro, patrulha de fronteiras e inteligência.
Telefonema de 21 de agosto: cordial, mas inconclusivo
Na última sexta-feira (21/8), Lula e Trump conversaram por pouco mais de uma hora. O petista reiterou que o Brasil dispensa rotulagens externas para enfrentar o crime organizado, citando a apreensão de R$ 17 bilhões em ativos ligados a quadrilhas desde o início de seu mandato. Mencionou ainda a futura transformação de 138 presídios em unidades de segurança máxima, o projeto de Lei Antifacção e uma proposta de emenda constitucional que amplia a presença federal na segurança pública estadual.
Trump, de acordo com nota da Secretaria de Comunicação da Presidência, elogiou os resultados e prometeu designar funcionários de alto escalão para “acompanhar o tema”. Na prática, porém, não estabeleceu data para a próxima rodada técnica nem comentou as duas propostas encaminhadas em maio.
Por que a resposta é considerada urgente
O vácuo de Washington ocorre enquanto facções brasileiras reforçam vínculos com cartéis mexicanos e andinos, fato reconhecido tanto por agências norte-americanas quanto por organismos sul-americanos. Integrantes do governo argumentam que o delay compromete operações na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, região usada para escoamento de cocaína rumo aos portos brasileiros.
Além disso, mineradoras ilegais que financiam parte das facções já operam sistema de lavagem nos Estados Unidos, comprando equipamentos e revendendo ouro por meio de empresas de fachada. Sem acesso direto às bases de dados do Tesouro norte-americano, investigadores brasileiros dependem de acordos de cooperação que ainda não existem.
Visões opostas sobre extraterritorialidade
O Planalto defende uma atuação coordenada, em que cada país age dentro de seu território, mas troca inteligência de forma contínua. A Casa Branca vem apostando em expandir sanções econômicas e em classificar grupos estrangeiros como terroristas, método que dispensa consultas prévias a governos parceiros. Para diplomatas brasileiros, esse modelo lança suspeitas sobre a soberania nacional e dificulta ações de campo conjuntas.
Próximos passos
Fontes do Itamaraty confirmam que o embaixador do Brasil em Washington, Maria Laura da Rocha, solicitou audiências nos departamentos de Estado e do Tesouro para as próximas semanas, com objetivo de destravar a pauta. Caso a resposta continue pendente, o tema deve ser levado à Assembleia-Geral da ONU, em setembro, quando Lula pretende reforçar o discurso contra políticas unilaterais que afetem terceiros países.
Enquanto isso, o Ministério da Justiça prepara missão a Bogotá e Lima para firmar acordos de patrulha integrada na Amazônia. A estratégia é mostrar resultados regionais e, assim, aumentar a pressão sobre os Estados Unidos para que se somem ao consórcio já em funcionamento.
Impacto político interno
A oposição no Congresso usa o impasse para criticar a política externa do governo. Parlamentares ligados à bancada da segurança defendem que o Brasil também rotule PCC e CV como terroristas, alinhando-se a Washington. Já a base governista sustenta que copiar mecanismos norte-americanos poderia abrir brecha para intervenções externas e não resolveria o fluxo de drogas nas fronteiras.
Entre especialistas em direito internacional, cresce a avaliação de que chegou o momento de Brasília e Washington harmonizarem suas legislações de combate ao crime transnacional, tal como foi feito no passado em acordos sobre lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo pós-11 de Setembro.
O relógio diplomático corre
Sem a adesão dos EUA aos instrumentos propostos, o Brasil segue enfrentando o narcotráfico com recursos próprios e cooperação regional limitada. A expectativa no Planalto é de que a promessa de Trump de mobilizar seu gabinete se converta, nas próximas semanas, em um cronograma formal – sob pena de o diálogo de alto nível se transformar em novo ponto de atrito entre os dois países.